A agenda do G20 e as migrações

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Hamburgo/Alemanha - Chefes de Estado e de governo que integram o G20 posam para a foto oficial de abertura da cúpula que acontece em Hamburgo, na Alemanha. Crédito: Beto Barata/PR

As pautas do encontro – e o tratamento que cada uma delas recebe – são retratos das situações extremas que o mundo vem atravessando

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Em Brasília (DF)

Basta acompanhar os noticiários dos jornais e telejornais destes dias para ter uma noção mínima da agenda do G20. Trata-se, como revela a própria expressão, do encontro de representantes das vinte economias mais significativas do mundo, que se encontram na cidade de Hamburgo, Alemanha. Entre as temáticas em pauta, destacam-se, sem dúvida, as migrações, o terrorismo, o meio ambiente e o livre comércio.

Mais complicado, todavia, é dar-se conta de como todas essas temáticas encontram-se inextrincavelmente entrelaçadas no xadrez na conjuntura internacional. Comecemos por colocar no centro do cenário mundial o livre comércio, ou o mercado total da economia globalizada. É justamente isso que buscam grande parte das reformas em curso nos mais diversos países: privatizar o setor financeiro, as fontes de energia, os transportes em geral; suspender todo e qualquer tipo de regulação das atividades comerciais e financeiras; e reconverter os serviços públicos em empreendimentos lucrativos. Em outras palavras, “menos intervenção do governo e mais liberdade de ação”, diriam os defensores de Milton Friedmnan e do “Consenso de Washington”.

Consequências dessa “sacrossanta trilogia” receitada pelo FMI e pelos Bancos Centrais são a flexibilização das leis trabalhistas, a terceirização de inteiros setores da economia e o aumento do desemprego. Ajustes estruturais e políticas restritivas exigem um permanente “aperto do cinto”. Mas o aperto vale para a classe média e para os pobres. No pico da pirâmide social, os magnatas da riqueza e do poder continuam a acumulando capital, enquanto muitos direitos duramente conquistados viram fumaça. Resulta um crescimento simultâneo da concentração de renda e da exclusão social.

Hamburgo/Alemanha – Chefes de Estado e de governo que integram o G20 posam para a foto oficial de abertura da cúpula que acontece em Hamburgo, na Alemanha.
Crédito: Beto Barata/PR

Diante desse quadro, não é difícil prever o aumento exponencial dos deslocamentos humanos de massa, e em todas as direções. De fato, se à situação econômica acrescentamos, por um lado, as guerras e os conflitos armados do extremismo terrorista e, por outro, a perseguição política, religiosa ou ideológica, o fluxo dos “fugitivos” só fará se multiplicar. Mas não é tudo: hoje já se contam aos milhões os refugiados das catástrofes ditas “naturais”, tais como furacões, tsunamis, inundações, incêndios, etc. “Naturais” entre aspas porque, no fundo, tais fenômenos tendem a se agravar como reação da natureza à ação humana sobre o clima e o meio ambiente.

Resultado dramático: de acordo com a ACNUR, o número de refugiados atualmente no planeta bateu todos os recordes, chegando a ultrapassar os tempos da Segunda Guerra Mundial – mais de 65 milhões de pessoas. Migrantes, refugiados, prófugos, apátridas, expatriados, deportados, “desplazados”, itinerantes – figuram entre os rostos anônimos dessa imensa multidão que erra pelas estradas do êxodo, do exílio, do deserto, do ar e do mar. Ondas superficiais e aparentes de correntes econômicas subterrâneas e invisíveis. “Sinal dos tempos” na medida em que refletem transformações estruturais ocultas e, ao mesmo tempo, estão a exigir mudanças necessárias e urgentes na política econômica, tanto de cada nação em particular quanto do globo.

Essa linha de reflexão leva a entender porque tantos movimentos sociais e organizações não governamentais protestam pelas ruas de Hamburgo, sendo sistematicamente repelidos pelas forças policiais. O fato é que enquanto os chefes de estado estão de olho nos indicadores econômicos, tais como o índice da bolsa de valores, PIB, taxa de juros, balança comercial, humor do mercado, etc., os manifestantes concentram-se nos indicadores sociais, como aquecimento global e seus efeitos, saúde e educação, direitos humanos, preservação do meio ambiente, e assim por diante.

Brasília, 7 de julho de 2017

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