A desgraciosa Santa Casa de São Paulo – relato de Katherine Rivas

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A estudante de jornalismo peruana Katherine Rivas, 21, passou cerca de 4 horas na sala de espera do Pronto Socorro Central da Santa Casa de São Paulo, no último dia 17 de dezembro, para tentar ser atendida por conta de uma gripe. Não conseguiu.

Sorte ainda pior tiveram de outras pessoas, brasileiros ou migrantes, com casos mais graves a serem tratados. O tratamento que receberam, no entanto, foi a indiferença. A indignação que essa indiferença provoca dispensa traduções, não importa o idioma falado.

Na unidade de saúde vizinha, particular, o atendimento seria rápido. Claro, desde que a paciente desembolsasse a quantia de R$ 340.

É certo que o Banco Mundial considera o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro uma referência internacional, mas em muitos locais ainda está bem longe de oferecer um atendimento digno e eficiente.

Pode até parecer repetitivo, mas tal realidade precisa e deve ser denunciada e combatida por toda a sociedade, sejam brasileiros ou migrantes. Todos estão no mesmo barco e precisam lutar juntos por um sistema de saúde mais adequado. Por isso, reproduzo o relato abaixo da minha amiga e colega de profissão.

Eram quase 22h40 quando, na sala de espera do atendimento do Pronto Socorro Central Dr. Octavio de Mesquita Sampaio, vivenciei pela primeira vez a “realidade ruim” do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, do qual todos falam.

Era inacreditável pensar que tantas situações podiam acontecer frente aos meus olhos numa noite só. Sentada numa das poucas cadeiras que ainda serviam no hospital – pois a maior parte delas estava quebrada ou com algum defeito – vi pessoas se queixando de dor, idosos em cadeira de rodas, e outros chorando pela impotência em ficar horas e horas sentadas, esperando, sem obter nenhum resultado.

Esperei por mais de meia hora o atendimento para então ser encaminhada ao médico. Diferente de outras situações, por ser minha primeira vez no atendimento do SUS, tentei ficar o mais paciente possível. Ilusão. Minha calma é interrompida por uma senhora que sai chorando pelo corredor xingando a enfermeira:

– Vocês não me compreendem! Não entendem minha dor! Este hospital é uma bosta!  – desabafou a mulher que saiu e jogou na cara dos guardas a pulseira de atendimento que todos recebem ao marcar a consulta.

Frente ao desconcerto das pessoas que se encontravam na sala, o riso irônico dos guardas e as  reclamações da enfermeira de turno, tomei para mim as dores da mulher e pensei que em algum outro momento da vida teria reagido do mesmo jeito. Sobretudo se estivesse esperando um atendimento há três horas. Me senti mal.

Passaram mais 10 minutos. Fui chamada. Entrei na salinha de procedimentos, esperando encontrar alguém mal-humorado, mas para o meu desconcerto o enfermeiro foi amável. Tentando falar um portunhol comigo, comentou que eu precisava ser paciente, uma vez que só havia um médico de plantão. Digo que tudo bem – sem imaginar o que encontraria lá fora.

Para entenderem, o atendimento do Pronto Socorro Santa Cecília é estabelecido por cores e não por ordem de chegada. Ao passar pela sala de procedimentos, cada paciente recebe uma pulseira com uma cor indicando a gravidade do estado em que chegou. As pulseiras verdes, azuis e brancas são riscos não importantes, e, por isso, fazem desafortunados, condenados, e merecedores de cinco ou seis horas de espera os pacientes que recebem tal pulseira. Em seguida vêm as cores amarelo e laranja, consideradas riscos de urgência. Já as pulseiras de cor vermelha indicam riscos de morte.  Por isso, quando vi no meu pulso a pulseira verde, suspirei. Ao meu parecer, tardaria muito até que conseguisse ser atendida.

No corredor do hospital, ouvia-se o constrangimento dos pacientes, as reclamações sobre o sistema de saúde. Alguns até realizavam vãs tentativas de procurar a assistente social. Outros permaneciam no lugar, resignados com a sua realidade.

Peguei um livro da minha bolsa. Sabia que o processo seria demorado. Disso tinha certeza. Então tentei ler para não me concentrar no acontecido. Ver tantos idosos e pessoas que precisam ser atendidas jogadas no corredor do hospital produziu em mim um forte constrangimento. Uma tristeza inexplicável.

Li algumas páginas, mas logo fui novamente interrompida por uma menina que chorava desconsoladamente. O hospital ficou indignado. As pessoas começaram a pedir para ela ser atendida logo, enquanto outras se limitaram a lançar olhares e falar o clichê de sempre:

– O SUS é uma porcaria!

O choro da moça era incrivelmente forte. A mãe dela estava em desespero. Tento imaginar o que acontecia com ela. Observei minuciosamente, mas, para minha surpresa e decepção, ela usava uma pulseira laranja. Me voltei para a tabela das cores e dizia: “ Atendimento muito urgente com risco da vida” .

– Como uma pessoas necessitando “atendimento muito urgente”  fica jogada na sala de espera por mais de 40 minutos? – revoltei-me.

 O médico e as enfermeiras andavam de um lugar a outro. Estavam surdos ao choro da menina. Naquele instante me perguntei:

– Será que o fato de serem profissionais vivendo em constantes desgraças os tornaram seres tão insensíveis?  Será que existe neles a capacidade de sentirem a dor do próximo e mesmo assim fingir que nada acontece?

Passaram mais 10 minutos. A moça chorosa e a mãe sentaram ao meu lado. Em desespero, a mãe se comunicou com algum familiar em outra língua, parecia ser japonês ou coreano, não consigo diferenciar as palavras. Na sala de espera todos continuavam reclamando mais que a mãe, que somente se limitava a falar pelo telefone. Tentei acreditar que essa situação tinha algo a ver com o fato de serem estrangeiros e, provavelmente, não quererem gerar um ambiente mais tenso do que já se encontrava. Tentei, mas não consegui. Naquela sala de espera com 40 pessoas, havia brasileiros, idosos, crianças, hispanos, chineses e provavelmente outras nacionalidades. Todos juntos no universo daquela desgraça.

Após uns 50 minutos, a moça foi finalmente atendida – pelo único médico do posto ao qual todos esperavam. No corredor ainda aguardavam alguns idosos e outras pessoas com pulseiras laranjas e amarelas.

Naquele momento ingressaram pelo corredor pessoas deitadas num leito levadas pelas enfermeiras, também portando pulseiras laranjas. Que esperança havia para aqueles que levavam consigo uma pulseira verde? Com grande temor escutei uma moça falando que esperava por mais de cinco horas. Fiquei com mais medo ainda de não conseguir ser atendida. Olhei no meu relógio e eram quase 23h30. Lembrei que havia chegado 19h40.

Desisti. Não existia o porquê continuar esperando e nem motivos para acreditar que seria atendida antes da meia noite.

Me aproximei da  entrada do posto e perguntei ao guarda:

– Vocês sempre tem um atendimento deste tipo?

Ele me responde com uma pergunta:

– Ao que você se refere?

– Tipo, ter apenas um médico por noite para tantas pessoas?

– Sim, moça, é assim todas as noites.

Fingi que não fiquei decepcionada pelo que ouvi e perguntei novamente:

– Como é possível que, havendo tantas pessoas que precisam de atendimento, aja somente um médico?

– Não sei. São disposições da diretoria – respondeu tentando evitar novas questões.

Sai decepcionada.

Ah! Há uma parte que omiti na história: fora a primeira vez que fui ao Pronto Socorro Santa Cecilia. O mais engraçado é que, ao lado, próximo à entrada, encontra-se outro postinho de saúde. Mas nesse, você é atendido por consulta privada ou por convenio. Ele também tem sofás confortáveis e um atendimento bem acelerado.

Fui para lá. Ao chegar, me aproximei do balcão de atendimento  ao mesmo tempo que a recepcionista  me pede para aguardar o meu turno.

– Não vou aguardar nada! – respondi –  A única que quero saber é o preço da consulta – minha paciência já havia esgotado.

– Tudo bem, moça. A consulta custa R$ 340, fora os procedimentos.

– Obrigada – respondi rapidamente, saindo reflexiva pela porta e compreendendo o porquê das pessoas reclamarem da saúde brasileira. Quanta diferença!  

Ri ironicamente. Não existia possibilidade alguma de eu pagar R$ 340 para tratar uma simples gripe. No caminho para casa, tentei não lembrar as horas que passei sentada naquele inferno. Não deu. Logo pensei naquelas pessoas que realmente precisavam ser atendidas e que não tinham dinheiro suficiente para pagar um atendimento privado.

Já vivi em três países ao longo dos meus 21 anos e uma coisa que percebi é que, não importa o país, o Sistema de Saúde sempre é uma desgraça. No entanto, nunca havia passado por algo parecido.

Com remorso, lembrei-me a pouca importância que dei a aqueles que participavam das manifestações há poucos meses.

– Por que o povo reclama por algo que o governo nem se interessa? Isso vai mudar alguma coisa? – Era a frase que sempre tinha em mente. Mas depois do que vivi na Santa Casa, algo mudou no meu pensamento:

 – Estas manifestações fizeram parte do desespero que aquele povo tinha frente as realidade de educação, saúde e até impostos absurdos frente aos quais tudo mundo procura justiça mas não existem ninguém capaz de ouvi-los!

E se eu não tivesse dinheiro para comprar um remédio na farmácia? Tudo bem, provavelmente me veria condenada a gastar R$ 340 numa consulta sem procedimentos, ou então a esperar umas duas madrugadas num posto de atendimento sem cadeiras boas para aliviar o meu tormento.

Cheguei no meu quarto. Estava agoniada. A noite havia sido longa. Liguei o computador e conversei com minha mãe, que está no Peru.

 – E aí, filha, conseguiu ir ao médico?

 – Lamentavelmente não, mãe. Tentei, mas não consegui.

– Não acredito! A saúde por lá parece estar pior que aqui!

– Por incrível que pareça, sim. O Sistema de Saúde de um país desenvolvido é pior que o de um de terceiro mundo. Existem realidades que não podem ser compreendidas e que por natureza se tornam descabeladas.

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