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terça-feira, fevereiro 27, 2024

A força daS culturaS brasileiraS no exterior contra o Dragão da Maldade

“Se oriente, rapaz, pela constatação de que a aranha vive do que tece. Vê se não se esquece. Pela simples razão de que tudo merece Consideração… Vê se compreende. Pela simples razão de que tudo depende. De Determinação. Determine, rapaz..” (Oriente, Gilberto Gil).

A retomada das políticas públicas com intensa participação popular, neste novo governo, passa pela realização de diversas conferências de promoção de políticas públicas. Tal como o partido que tem Lula como Presidente de Honra, o PT, começou a fazer desde que assumiu as primeiras prefeituras.

E não foi por acaso que estas mesmas conferências enfrentaram o alvo letal das primeiras canetadas nazifascistas, logo que a familícia assumiu, extinguindo-as, todas as conferências. Bem como (mal) fez, o inelegível, com todos os conselhos de participação cidadã, inclusive o Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, o CRBE. Do qual tive a feliz oportunidade de participar, como vice-presidente. E a infelicidade de constatar o rumo forçado que logo fomos obrigados a assumir.

Não escondi a emoção quando vi que a Ministra Margareth Menezes, convocou a Conferência Nacional de Cultura para começar no dia 4 de dezembro deste ano.

Igual felicidade ocupou-me quando a minha amiga, a artista Priscila Barbosa, na Barcelona onde vivemos, me convidou para participar de um grupo chamado Frente Internacional de Cultura Brasileira, FICB. Artistas de diversas áreas, morando em diversos países, e várias pessoas ligadas às produções culturais, carregadas de ideias potentes, chamando atenção para a nossa parcela de contribuição, mesmo vivendo no exterior, naqueles famosos entre 2% e 3% de contribuição da chamada Economia da Cultura no PIB brasileiro. A contribuição das tais Indústrias Culturais para o Produto Interno Bruto do nosso país. Acompanho e participo desde então, desse esperançoso grupo de pessoas. Mais uma Frente na minha vida.

No nosso caso, eu até trocaria o “mesmo vivendo no exterior”, para “principalmente nós que vivemos no exterior”, conseguimos perceber de forma (assumidamente!) privilegiada as imensas possibilidades das culturas que produzimos para o desenvolvimento social do nosso povo, lá ou aqui. Desenvolvimento, por exemplo, promovido por meio da Diplomacia Pública. Um conceito muito mais amplo do que a diplomacia institucional e tradicional, como muitos países já perceberam e incorporaram nas suas mais modernas formas de governança. Desenvolvimento Sustentável proporcionado por atividades como a capoeira, a música, o audiovisual, a literatura, as artes cênicas e as artes visuais, entre outros exemplos, que sempre foram admiradas fora das fronteiras do nosso gigante país.

Caetano Veloso vive repetindo que a originalidade criativa deverá ser a nossa força primordial perante o mundo. Concordo e me inspiro nisso.

O problema, para quem já participa de tantas frentes antifascistas, internacionalistas, de solidariedade, no exterior, é a principal razão dos nossos males, a meu ver: o desconhecimento (podem chamar de ignorância, raiz de muitos males).

O Brasil não dá a mínima pra gente. Nunca deu. Não tem a menor ideia de quem somos, o que somos, o que fazemos e como fazemos. Sabe aquilo de “nunca comi, mas já não gostei”? O Brasil nunca nos “provou”, de fato. E como poderia ser diferente, num país de mais de duzentos milhões, ao esquecer estes 2, 3, 4% da sua enorme população? É que no meio de tanta imensidão, somos mais que muitos Estados. Sabe? Pois o Brasil não sabe disso.

Para que tenham uma ideia, em pele própria. Em 2012, fui selecionado como um dos projetos premiados, no Prêmio Pontos de Memória no Exterior. Eu já trabalhava com a burocracia, mas jamais imaginei que ela – que já é monstruosa no nosso Brasil – tivesse ainda maior capacidade destrutiva, ao cruzar o Atlântico. Exigir de quem mora há muitos anos no exterior, um Código de Endereço Postal, um CEP Brasileiro, além de uma infinidade de burocracias na hora de preencher uma ficha cadastral online, pode ser uma tragédia. Isso, para um cidadão que possui o pleno direito de haver preenchido na Receita Federal uma Declaração de Saída Definitiva do País. Resultado: jamais recebi um centavo por aquela suposta premiação (de 20 mil Euros). Por isso, não me surpreendo. Gato escaldado tem medo até de chuva.

Por outro lado, escrevi diversos textos que abordam uma desconfiança histórica da maioria do nosso povo sofrido que nos associa aos (minoritários) “Filhinhos de Papai” nas Europas. Ou às “Patricinhas bancadas pelas madames-mamães”, num país onde a absoluta falta de comida, ainda condena mais de 30 milhões de pessoas a dormir com fome, cada santo dia. “Mandar dinheiro pra Europa, se aqui ao meu lado tem gente com fome?”, não foi a primeira vez que escutei, quando, em Brasília, recebi a Ordem do Rio Branco, e fui indicado para a Ordem do Mérito Cultural do MINC. Há uma cultura subjetiva que nos atribui uma distorcida e péssima imagem. Necessitaremos muitos anos de esclarecimento e campanhas para mostrar que a maioria das brasileiras que migram (mulheres, sim, na maioria), são trabalhadoras e enfrentam novas formas de pobreza. Diferentes desafios, velhas mazelas.

Não é achismo. Felizmente ou infelizmente eu sei do que estou falando. Perdoe a falta de falsa modéstia. Mas é urgente. O Brasil precisa nos escutar. Mas, pra isso precisa primeiro saber que a gente não só existe, mas que somos fortes no que fazemos. Porque migrar fortalece muito.

Desde o ano 2008, quando desenvolvi o primeiro perfil da Comunidade Brasileira na Espanha; desde 2004, quando fui consultor do MINC no Fórum Mundial das Culturas; desde 2001, quando fui Consultor da UNESCO… Quando eu ainda nem sonhava que um dia iria migrar.

O tempo passou e ainda somos capazes de escutar os mesmos absurdos. Olhemos pra frente?

O Ministério das Relaçoes Exteriores do Brasil lançou, recentemente, nova compilação de dados sobre a quantidade de brasileiros no exterior. Por incrível que pareça, mesmo depois de alertado nesse sentido, todos os dados recolhidos carecem de fiabilidade empírica. Sim, são todos baseados em “estimativas”. Quais? Fontes? Ou seja, baseado em puro “achismo”. Como cada país tem a sua forma de cadastrar (e, principalmente, de Não cadastrar os irregulares) imigrantes, os diplomatas de turno também não falam uma mesma língua na hora de informar as estimativas locais. É, portanto, impossível contar-nos, com um mínimo de evidência estatísticamente científica? Não. A solução até parece fácil e não impossível. Por isso, afirmamos, rotundamente, que há inúmeras possibilidade de criar um perfil não somente quantitativo, mas também qualitativo. Como? Basta nos perguntar. A quem? Às comunidades, às associaçoes de brasileiros emigrados, às redes de profissionais dedicados ao tema, aos pesquisadores acadêmicos que dedicaram anos de estudos nesse sentido, aos organismos locais acostumados a esse tipo de pergunta, aos vínculos que estabelecemos com inúmeros institutos de pesquisa, ONGS, e instituiçoes diversas que, com um mínimo de esforço (e de recursos) ajudariam a esclarecer quem somos. Nem que seja aproximadamente. Mas, sem dúvida, com muito mais fiabilidade à realidade do que somos. Todo planejamento de política pública iniciaria melhor, sem dúvida, com um bom diagóstico. Porque não o faz?

Quando o SEBRAE acabou de anunciar a primeira iniciativa econômica deste governo a tratar de um projeto piloto para o empreendedorismo brasileiro que cruza fronteiras, aguçou-me a capacidade crítica. Conversou com nós, cara pálida? Tinha que começar pelo empreendedorismo, né? Tô só te vendo! Quer ler nosso conjunto de demandas reprimidas? Já soube dos resultados do nosso último encontro, da FIBRA, Frente Internacional Brasileira, em Lisboa? Mas, parabéns.  Felicito-vos, pra não dizer que não falei das flores.

Navegar é preciso.

Escutei algo esclarecedor da boca do então Ministro Gilberto Gil, quando em Barcelona relatou a dificuldade para implantar 10 míseros Pontos de Cultura no Exterior. Se for pra subvencionar um grupo cultural brasileiro, você acredita que o senso comum brasileiro o fará, direcionando recursos de todos os tipos (inclusive econômicos, não sejamos hipócritas) para um grupo musical que vive em Paris ou em Ouricuri, no Sertão de Pernambuco? Por sorte, Gilberto Gil trouxe a sua sabedoria de vida para dentro do Ministério: “tudo é complemento e, para nossa sorte e alegria, é perfeitamente compatível”, segundo explicava, em outras palavras, no seu Do-In Antropológico. Este era o nome do seu discurso de posse no Ministério da Cultura. Está disponível em toda a vasta Internet e os convido a ler, sempre que for possível e necessário.

É chegada, portanto, a hora da retomada. Se oriente, rapaz. O Cruzeiro do Sul é nosso.

Antes da chegada de Gil, em Barcelona (e de Ivana Bentes, naquela época), veio Juca Ferreira, representando o MINC – quando a Prefeitura de Barcelona decidiu denominar Cultura Viva, o mesmo nome do programa “de Gil”, ao conjunto da sua política municipal de cultura (da capital da Catalunha, onde eu moro).

É influenciado pelo que Juca nos disse, naquele momento, que eu sigo acreditando que seremos capazes de dar a nossa parcela de contribuição onde quer que estejamos. Ali já se falava na interação entre as três principais dimensões da política cultural abrangente: simbólica, econômica e cidadã. Perfeitamente compatíveis, como tudo que Gil nos cantou.

Da primeira forma, a simbólica? De longe, tudo é mais. E nós podemos ajudar a missão institucional da diplomacia (a que olha pro futuro do nosso país, mais do que aquela que se amarra ao passado) a revalorizar o papel significativo da influência do gigante latino-americano no mundo. No dia que o Brasil perceber a nossa articulada capacidade de incidência política nos grandes centros culturais do Mundo (de um mundo onde os centros culturais são cada vez mais descentralizados), verá que com pouquíssimos recursos, seremos capazes de buscar nas localidades onde produzimos cultura, muito mais amplas riquezas do que até hoje nosso governo foi capaz de (não) captar. Margareth Menezes, outra artista universal, sabe do que estamos falando. Entrevistei-a no Festival Dia do Brasil em Barcelona e tenho certeza que, pelo menos, saberá nos escutar. Até melhor: saberá nos orientar, como Gil. 

Porém, um alerta. Lamento. Se estás pensando de forma absolutamente capitalista, leia mais Juca Ferreira e tire o seu cavalo branco da chuva. A gente não quer só comida.

De forma econômica? Apresento o exemplo da Espanha. O país cuja economia depende absolutamente da nossa (leia os informes de stocks, acúmulos, de Investimento Econômico Direto, privado; ou se quiser serei mais claro: observe a sangria de dinheiro do Brasil para a Espanha, por meio do lucrativo neocolonialismo, o ávido capitalismo ibérico). Percebeu que a empresa Telefônica, com mais clientes telefônicos só em São Paulo do que em toda a Espanha, sonegou milhões à nossa Receita Federal, ao mesmo tempo em que aumentou descaradamente o valor do dividendo dos seus principais acionistas espanhóis? Qual a estratégia do Governo do Brasil para ressignificar o que essas empresas chamam de “Parceria Estratégica” com o nosso país? Já pensou o nosso governo em fazer que sejam elas, com seus planos de Responsabilidade Social Corporativa ou como o seu departamento de marketing queira chamar, mas o que importa é: como pensam efetivamente em sair do marco mental das esmolas, e passar a associar seus êxitos empreendedores às centenas de projetos socioculturais de um crescente contingente de milhares de brasileiros na Espanha? Pedindo pra músico brasileiro tocar de graça em jantar de gala de outra grande empresa, como aconteceu muito recentemente (e eu tenho testemunhas para comprovar)? Bota a gente na fita, mas valoriza… Ou, pelo menos, respeita.

Querem uma dica sobre um mar de infinitas possibilidades, somente pra começo de conversa? Entrem na website da majestosa Fundación Cultural Hispano Brasileña. Uma joia, situada em Madri. Somente vos digo que os Presidentes eméritos do Patronato desta Fundação, que já tive a grata oportunidade de conhecer de perto são o Presidente do Brasil e o Rei da Espanha. Agora entrem nas websites das fundações culturais de cada uma dessas grandes empresas…

Qual a melhor forma, em minha opinião? A terceira dimensão trazida por Juca é a cidadã. A capacidade criativa da cultura como um direito e fonte inesgotável de cidadania. Leiam a Convenção da UNESCO sobre Patrimônio Cultural Material e Imaterial, e percebam o quanto essa história de fronteiras já ficou muito pra trás quando o assunto é linguagem universal. Podem chamar de Cidadania Universal: a diversidade artística de Ouricuri pode chegar mais rápida a Paris do que muito burocrata brasileiro pensa. Só precisa parar pra escutar. Fácil. Né?

Que tal parar para nos escutar? É longe. Mas se precisar a gente grita. Ou canta. Que é melhor.

Parafraseando Paulo Freire, concluo dizendo que a Cultura não muda o Mundo. A cultura muda as pessoas que estão realmente mudando o mundo.

Mas, mudar tem que ser pra melhor; porque lá no Sertão de Pernambuco a gente fala que quem cresce pra baixo é rabo de cavalo.  Aquele abraço.

Sobre o autor

Flávio Carvalho é sociólogo e escritor. Vive em Barcelona

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