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segunda-feira, outubro 12, 2026

A história marcha com os pés dos migrantes

os deslocamentos migratórios são como que um barômetro que reflete, ao mesmo tempo, o grau e a profundidade das transformações de natureza não apenas conjuntural, mas sobretudo estrutural

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

A migração constitui um termômetro que mede o pulso da história. Movimentos intensos, diversificados e complexos são sintomas de que algo ou alguém acelerou o ritmo dos acontecimentos. A política econômica globalizada assenta-se sobre determinadas placas tectônicas. Ou se quisermos, sobre compromissos mais ou menos pétreos, sejam estes explícitos ou implícitos. Quando tais acordos tácitos ou abertos se movem, o vaivém das multidões errantes funciona como sinal visível, palpável e superficial de mudanças invisíveis e subterrâneas. Formas de êxodo massivo, com aumento forte e substancial de migrantes e refugiados; fugas repentinas e desnorteadas, nas mais imprevisíveis direções; pressão sobre diversas fronteiras de outros países, vizinhos ou não – tudo isso indica, em geral, abalos sísmicos nas relações internacionais: comércio bilateral ou multilateral, divisão do trabalho e da produção, mudança de sistema de governo, guerra externa e turbulências de natureza interna…

Em outras palavras, os deslocamentos migratórios são como que um barômetro que reflete, ao mesmo tempo, o grau e a profundidade das transformações de natureza não apenas conjuntural, mas sobretudo estrutural. Metaforicamente, quando as formigas perdem o rumo, agitando-se de um lado para outro, significa que alguma catástrofe ocorreu com o formigueiro. Os passos e trajetórias dos migrantes e refugiados, de forma direta ou indireta, acompanham visivelmente outros movimentos, que ocorrem de maneira invisível a olho nu. A aventura e o vaivém de muitos trabalhadores ou trabalhadoras em êxodo maciço correspondem à decisão ou trajetória de leis e decretos formulados à sua revelia. Entretanto, embora aparentemente vítimas do processo de exploração global, os migrantes e refugiados, mesmo em meio a uma avalanche de problemas e adversidades, são capazes de fazer de seu itinerário migratório um novo projeto de vida, seja para si próprios, seja para a família e amigos.

Não raro, semelhantes adversidades podem sacudir uma espécie de apatia ou marasmo num certo povoado ou região, levando parte de seus habitantes a uma encruzilhada: migrar ou ficar? A esta altura, podemos parafrasear Euclides da Cunha: “o migrante é antes de tudo um forte”. Forte no sentido de não se acomodar diante de uma terra que lhe é hostil e infecunda. Começa, então, o processo para decidir como resolver o impasse da encruzilhada. Quando decide deixar tudo para trás e lançar-se à estrada, põe em ação o projeto. Pode ser uma saída temporária, sazonal, como, por exemplo, para as safras agrícolas da cana-de-açúcar ou das frutas em geral. Migra periodicamente, para evitar fazê-lo em definitivo. Migração de resistência: sair de vez em quando com vistas a resistir na própria terra. Buscar fora os meios para permanecer vinculado ao lugar.

Mas a saída temporária/sazonal, depois de algum tempo, tende a se tornar migração definitiva. Pai e filhos se cansam desse ir e vir que, de alguma forma, perturba o convívio familiar. A viagem periódica abre caminho para mudar definitivamente. O projeto, porém, permanece de pé. De uma forma ou de outra, a migração se apresenta como a solução para uma vida sem qualquer perspectiva de futuro, em especial para os jovens. A família aqui age como protagonista de seu projeto de migração, embora o faça rodeada por uma série contratempos. São estes, em última instância, que a tornam artífice do próprio destino. Levam-na a optar, mais ou menos deliberadamente, por uma saída controlada, coisa que, por motivos óbvios, raramente ocorre com os refugiados.

Nos séculos XIX e XX, em especial, milhões de pessoas trocaram de país ou de continente. Certo, por trás desse passo o contexto histórico da Revolução Industrial, de uma parte, e da instabilidade das duas Grandes Guerras Mundiais intercaladas por crises de ordem econômica, de outra, contribuiu decisivamente para os movimentos humanos geográficos. Mesmo assim, no redemoinho de tantas turbulências, muitas pessoas e muitas famílias puderam organizar seu projeto migratório. Papel decisivo, neste caso, exerceu o grau de parentesco. Irmão chamava irmão, filho chamava pai e pai chamava filho, tio chamava sobrinho e sobrinho chamava tio, amigo chamava conhecido e conhecido chamava amigo – até reunir boa parte dos parentes e dos conhecidos no outro lado do oceano, em países tais como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Venezuela, Brasil, Argentina, e assim por diante. Grandes deslocamentos humanos, em geral, precedem ou seguem profundas transformações de ordem política e econômica. Em meio a tempos conturbados, sim, a história marcha com os pés dos migrantes.

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Autor do livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.


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