A intolerância incoerente e os “experts” sobre migrações

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Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

Infelizmente, os que mais reclamam da imigração são aqueles que mais se beneficiaram dela

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Muito se fala da falta de bom senso e interpretação em redes sociais. Fala-se no analfabetismo funcional que assola o país, o que ajuda a promover a intolerância crescente na Internet – e fora dela. Vemos que vontade de criticar, opinar e interpretar de forma conveniente existe, com respostas cada vez mais pré-fabricadas. Mas falta, e como falta, a autocrítica. No eterno debate sobre migração, o que mais vemos são os auto-intitulados experts, pessoas que passam julgamento e opiniões sem que jamais tenham sido imigrantes, ou ironicamente, cujas famílias têm um histórico de migração.

Tive o desprazer de ver essa ironia do destino em discussões acaloradas no meu blog. Ao compartilhar a notícia de que venezuelanos foram expulsos de Roraima por uma multidão que cantava o hino nacional, me surpreendi com comentários que testam o limite da racionalidade. Por exemplo, um rapaz que dava razão à expulsão dos venezuelanos, contava que todo imigrante tem que contribuir com o país que o recebe. Que os venezuelanos não contribuíam com nada e não pagavam impostos. Nessa discussão, perguntei se ele já havia sido imigrante – ou pior, refugiado. É claro que não.

No longo prazo, é claro que imigrantes devem contribuir com o país. Mas ao chegar, principalmente devido ao desespero de fugir da fome e da ditadura, como eles vão contribuir? Como eles vão pagar impostos? Digo por experiência própria, é raro que um imigrante chegue num país e contribua assim que pise em solo estrangeiro. Existem muitas dificuldades para tal: o aprendizado de uma nova língua, burocracia, a falta de permissão para trabalhar (o que acontece muito com refugiados na Alemanha), etc. Não é à toa que integração é um projeto de longo prazo; não há como um imigrante – ainda mais um refugiado – contribuir e pagar impostos imediatamente.

A mesma discussão levantou a voz de uma moça com sobrenome alemão. Escandalizada com o comportamento “vândalo” dos venezuelanos, ela especulou que os recém-chegados são ingratos, que não agradecem nada. Que eles devem é ficar na Venezuela e batalhar por um país melhor, ao invés de baterem na porta do vizinho. Ela conta de bom grado que seus avós eram imigrantes alemães e que eram pessoas que não faziam baderna. Mas ficar na Alemanha para levantar o país no pós-guerra não pareceu atraente o suficiente para os seus antepassados. Seus avós tiveram uma chance de recomeçar suas vidas, mas os venezuelanos devem ser negados toda e qualquer oportunidade?

O mais recente exemplo foi uma discussão sobre a queda do muro de Berlim. Uma moça colocou que judeus ainda sofrem muito preconceito na Alemanha, o que não deixa de ser verdade. Entretanto, as vítimas hoje são de maioria muçulmana e negra, que carregam o peso do racismo e do preconceito atualmente. Depois que a moça praticamente ter me acusado de negar o holocausto, ela solta a pérola “o que a Alemanha vê é a crescente onda de crimes praticado por muçulmanos no país, não vejo judeus praticando crimes, logo, é natural a população não se compactuar com criminosos. É fato e lógico.” Portanto, minha interpretação dessa frase é que todos os muçulmanos são criminosos. Mas o detalhe: a moça em questão mora em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos.

Esses exemplos mostram que, ao criticarem acontecimentos da questão migratória, muitas pessoas se esquecem da sua própria situação. Imigrantes que reclamam de imigrantes. Pessoas cujas famílias emigraram reclamam de imigrantes que provavelmente estão na mesma situação que seus antepassados. Pessoas que nunca tiveram a experiência de serem imigrantes dando uma de experts numa questão extremamente complexa.

Imigração é um tema que divide opiniões e, por ser tão controverso, é objeto de politicagens. Imigrantes e refugiados são alvos fáceis para tomar a culpa sobre diversos temas: a fragmentação de identidade nacional (temas batidos insistentemente na Alemanha, França, etc.), a falta de empregos, terrorismo, onda de criminalidade, dentre outros. Culpar imigrantes é fácil; o difícil é lembrar que a grande maioria de nós vem de uma histórico de imigração. Quantos de nós vão morar no exterior devido à situação catastrófica do Brasil e nos tornamos aqueles que um dia criticamos? Quantos de nós tem antepassados que um dia fugiram de uma guerra ou da pobreza?

Já dizia o psiquiatra suíço Carl Jung que “as pessoas vão fazer qualquer coisa, não importa o quão absurdo, para evitar olharem para suas próprias almas.”

Além do comportamento inerentemente humano de faltar autocrítica, estamos num país onde a analfabetismo funcional amplifica-se, as notícias falsas multiplicam-se e as respostas pré-fabricadas viraram moda há muito tempo. Infelizmente, a intolerância incoerente tende a crescer cada vez mais. Resta esperar que 2019 traga mais lucidez para discussões que envolvem imigração – e tantos outros.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. Seu primeiro livro, Ventos Nômades, é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multi culturais e imigração. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no FacebookInstagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.    

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