A partir de um pepito venezuelano, uma ponte entre as migrações de ontem e de hoje

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Pepito, lanche típico da Venezuela, preparado por casal de venezuelanos que vivem em Boa Vista (RR). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Por Rodrigo Borges Delfim
De Boa Vista (RR)

Um sanduíche seria capaz de ajudar a fazer uma ponte entre as migrações atuais e de ontem? Parece improvável, mas em Boa Vista tive uma resposta positiva para essa pergunta.

Era um sábado à noite, 11 de março de 2017, a última que passei na cidade. Estive por lá – graças à ajuda dos leitores e fãs do MigraMundo – por conta da cobertura sobre a migração venezuelana em Roraima. De quebra, ainda conheci uma parcela da minha família – tenho três primas em Boa Vista (Valéria e suas duas filhas, Flávia e Matanawa), que me acolheram nos dias em que estive em Roraima. Decidi tirar o sábado para ficar com elas, depois da correria que tinham sido os dias anteriores.

Á noite, Flávia, Valéria e eu decidimos sair pela cidade. Ao final do passeio, por sugestão da Valéria, paramos para comer em uma pequena lanchonete especializada em pepitos – um tradicional sanduíche venezuelano que leva carne grelhada, vegetais e temperos diversos – que tinha sido aberto há pouco tempo por um casal de venezuelanos na zona oeste de Boa Vista. Tanto o homem quanto a mulher aparentavam ser jovens, não mais do que 30 anos.

O local era bem simples e indicado por uma placa em um cavalete na calçada, junto às duas mesas e cadeiras destinadas aos fregueses; na parte de dentro, um balcão de vidro ao estilo dos que você encontra em padarias, com alguns bolos e sobremesas; ainda dentro da lanchonete, junto à parede do fundo, fica a chapa onde os lanches são preparados.

O sanduíche estava delicioso, e apenas um (que custou R$ 22) é suficiente para três pessoas. O casal nos atendeu falando em português e ficou surpreso quando minhas duas primas e eu usamos o espanhol – eu tentei, na verdade, usar o meu espanhol pré-intermediário.

Em certo momento, pedi para usar o banheiro. A mulher me indicou uma porta Ao fundo da lanchonete, à direita, e me disse para seguir até o final. Quando passei a porta, logo à frente, no canto esquerdo, tinha uma criança (com não mais do que oito anos de idade) sentado em uma cama de casal e brincando com um celular). Estaria eu dentro do quarto da família? O menino olhou para mim como se nada tivesse acontecido e continuou concentrado no celular – pelo jeito, a situação era bem comum para ele.

A porta do banheiro (que na verdade era um pano grosso que encobria a entrada) estava logo depois de um outro cômodo que percebi ser a cozinha. Ou seja, involuntariamente conheci a casa dessa família venezuelana.

Ao voltar para o espaço da lanchonete, fiquei interessado em saber mais sobre a família – como tinham vindo para o Brasil, por que decidiram trabalhar com comida, quais as dificuldades que viviam na Venezuela e o que enfrentam agora no Brasil… Aparentando bastante cansaço, o casal se esquivou das perguntas – até mesmo de falar os próprios nomes.

Pensando bem, ceder o banheiro da própria casa para os fregueses da pequena lanchonete que eles abriram já era exposição o suficiente para a família. Melhor não forçar a barra e respeitar o espaço.

Voltando para casa e tentando organizar o turbilhão de informações e experiências vividas naqueles dias em Boa Vista, me lembrei de um livro que tinha lido há pouco dias, chamado Bom Retiro, Bairro Central de São Paulo (Alameda, 2011). Em um dos capítulos, há a descrição das moradias dos imigrantes judeus recém-chegados ao bairro, no começo do século XX, que usavam a parte da frente de suas próprias casas como estabelecimentos comerciais. Também me lembrei de tantas outras famílias e pessoas que moram até hoje no local de trabalho, muitas vezes em condições bastante precárias.

Sim, o tempo passa, mudam os personagens, mas certas situações continuam se repetindo. A família venezuelana se vira como pode, a exemplo de tantos outros migrantes do passado e do presente. Provavelmente, se essas pontes entre o passado e o presente fossem mais claras, não veríamos descendentes diretos ou indiretos de migrantes apoiando ou mesmo fazendo discursos xenófobos. Em vez do ódio e da desconfiança, é muito melhor partilhar e relatar as experiências vividas ontem e hoje pelos migrantes para tentar melhorar a condição de cada um.

Pode parecer uma grande viagem, mas essa reflexão de fato surgiu a partir de um simples sanduíche.

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