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sexta-feira, julho 12, 2024

Alarga o espaço de tua tenda – um reflexão para o Dia e Semana do Migrante

Mais do que nunca as migrações se tornaram intensas, diversificadas e complexas. É preciso também evitar o arquipélago de ilhas incomunicáveis, abrindo horizontes para novos relacionamentos

Por Pe. Alfredo Gonçalves

A frase, extraída do livro do profeta Isaías, (Is 54,2), convida à reflexão. Para começar, toda casa erguida sobre a face da terra será sempre uma frágil tenda. Por mais que os seus construtores a queiram tornar indestrutível ao longo dos tempos, cada indivíduo habitará nela apenas por um período determinado de algumas décadas. Os reis, tiranos e imperadores ergueram edifícios tão sólidos e portentosos que poderão, quem sabe, atravessar séculos ou até milênios. Eles mesmos, porém, seus donos e soberanos, desfrutarão de tais castelos por curta duração. Com efeito, se a pedra, o cimento, o ferro e outros metais guardam características duradouras, a pessoa humana somente vem ao mundo na condição de peregrino, morador provisório do planeta. Sua travessia, se considerada em termos macro históricos, será relativamente breve.

Mas não é só isso! Toda a construção habitável, das duas uma, ou será uma tenda ou será uma fortaleza. Enquanto a fortaleza costuma ser protegida por todos os lados, inexpugnável, a tenda mantém-se tênue e de fácil acesso. Quantas casas, mansões, prédios ou apartamentos pretendem adquirir um caráter de fortaleza, com muros, grades e os mais sofisticados sistemas de segurança, intimidando e afastando os passantes! A tenda, pelo contrário, convida o viajante a deter-se por alguns instantes, desfrutar de sua sombra acolhedora, antes de retomar o caminho. As primeiras permanecem fortes e cerradas, criando, consciente ou inconscientemente, uma categoria dos de “dentro” e outra dos de “fora”. Diante da tenda, em contrapartida, todos os forasteiros se sentem, ao mesmo tempo, de fora e de dentro. Esta última se abre para o calor do sol, a brisa, o ar fresco, o céu azul. Mas se abre, de modo particular, para quem está de passagem, cansado e sedento. A fortaleza passa o dia encerrada sobre si mesma, fria e úmida, uma verdadeira tomba para os que nela se abrigam. Casa que não se faz tenda, facilmente se transforma em túmulo.

Castelos, fortalezas e palácios, por mais equipados e suntuosos que sejam, tendem a virar guetos fechados e incomunicáveis. Tendem igualmente a desenvolver certa hostilidade, seja de fora para dentro, seja de dentro para fora. Frente aos muros que separam e dividem, crescem em geral as ervas daninhas do ódio e da agressividade, da discriminação, do preconceito e da xenofobia. Não assim com a tenda. Nesta, os peregrinos de longas caminhadas se recolhem, acendem um fogo amigo, sentam-se ao redor, criam um lar. O calor e o ambiente os convida a repartir pão e água, bem como a vida e as experiências da estrada. Palavras e gestos, olhares, e histórias se cruzam e recruzam. Todos têm consciência se serem viajantes de passagem. Sabem bem que essa moradia é efêmera e provisória: logo será desmontada, tendo servido para cobrir os laços e a intimidade daquele encontro e prestando-se para ser novamente erguida nos reencontros que virão. Mas ali, sob a tenda, forjam-se espaços de cuidado e convívio, de solidariedade e fraternidade. Cada qual foi simultaneamente forasteiro e hóspede do outro.

Eis o segredo de “alargar o espaço da tenda”. Hoje mais do que nunca as migrações se tornaram intensas, diversificadas e complexas. Por causa da violência em suas diversas formas; da pobreza, miséria e fome; dos severos efeitos das mudanças climáticas – os migrantes e refugiados cobrem praticamente todos os povos, países e nações. As diferentes culturas, ricas e plurais, seja em seus valores ou contravalores, se entrelaçam. Todo dia e toda hora, ao vivo ou pelas telas e telinhas, tropeçamos com os “mil rostos do outro”. Nesse contexto, quem não for capaz de fazer de seu coração, casa, família e comunidade uma tenda, condena-se ao próprio isolamento. Disso decorre a necessidade de evitar o arquipélago de ilhas incomunicáveis, abrindo horizontes para novos relacionamentos. Demolir muros e erguer pontes, diz o Papa Francisco. Semelhante dinâmica de abertura faz e refaz a identidade de todos, convidando ao enriquecimento recíproco. Depura e purifica constantemente nossa visão de mundo. Então será possível estreitar a amizade social, crescendo na justiça e na paz, na solidariedade e na convivência entre nós e com a natureza.

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