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quinta-feira, julho 16, 2026

Além dos dados e teorias, as migrações vistas a partir do olhar dos migrantes

Basta tomar do migrante uma espécie de óculos emprestados com as seguintes lentes: rostos, nomes, família, memória, cultura e história

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

Com frequência, o tema das migrações traz à tona uma série de rotas e dados, números e estatísticas, tabelas e gráficos, sucessos e fracassos… De igual forma, o fenômeno migratório costuma vir recheado com outra série de conceitos, tais como origem e destino, expulsão e atração, causas e consequências, fronteiras e legislação, identidade e cidadania… e assim por diante. Evidente que tudo isso faz parte de uma análise sociológica ou demográfica da mobilidade humana. Os movimentos de massa, se bem visíveis, se medem em quantidades e se explicam através de noções teóricas abstratas e invisíveis. Mas também é possível olhar para o fenômeno de forma diferente, como que a partir de baixo, do chão e do caminho. Basta tomar do migrante uma espécie de óculos emprestados com as seguintes lentes: rostos, nomes, família, memória, cultura e história.

Os rostos carregam consigo marcas indeléveis de lutas e cansaço, sonhos e esperanças. Inúmeras são as dores e feridas neles impressas, algumas jamais cicatrizáveis. Representam uma fotografia, por vezes desfigurada, do passado e do presente, tentando descortinar um novo horizonte possível. Retrato de organismos vivos, travando combate diário pela sobrevivência. Desenho de um mapa com os contornos da travessia.

Os nomes, não raro assinalados em papel amarelado, figuram como um teimoso carimbo da própria identidade. Não apenas da identidade da pessoa, mas também de seu parentesco. Disso dá conta o sobrenome que sobrevive de geração em geração. De resto, nomes e sobrenomes por vezes se apagam pelos mares e desertos, pelas florestas e fronteiras. Daí a urgente necessidade de resgatá-los das águas e das areias, ou seja, do anonimato que mata duas vezes. Nome é tradição, laço genealógico de pertença que recompõe os fios rompidos. Muitos migrantes “perdem” o nome para “ganhar” um apelido. O vento furioso da estrada tende a borrar não apenas as pegadas, mas também o nome de quem as deixa. Recuperar o nome próprio é resgatar a identidade e a vida.

A família se dispersa com a migração. Uns vão, enquanto outros ficam. Certo, separação e divisão não são a mesma coisa, mas a primeira facilmente leva à segunda. Separação até quando? Essa pergunta se encontra na respiração opressa de quem viaja e de quem permanece em casa. Oxigênio de calor, carinho e saudade, mas que pode se tornar tóxico se a ausência se prolonga. O retorno e a recomposição da família, sonho de todo migrante, com frequência se dissolve e se converte em ansiedade, ou mesmo pesadelo. Migrar costuma ser, ao mesmo tempo, um projeto pessoal e familiar. Porém, até que ponto ele de fato se realiza com sucesso? O golpe sobre a família é duro e fundo. Como levantar a cabeça e se reabilitar?

A memória é o fio oculto que tece passado, presente e futuro, conferindo sentido à existência humana. Fio que fornece referências sólidas para a travessia terrestre. Entretanto, ele pode ser rompido pelo processo de migração. Escrever, telefonar ou comunicar-se nem sempre é possível para quem se encontra na estrada ou em terra estrangeira. Se é certo que as lembranças figuram como um rico e verdadeiro tesouro, também é verdade que este pode seguir vivo e dinâmico, mas também cristalizar-se como o gelo. Com efeito, o tesouro das recordações familiares e amigas torna-se pesadelo quando tudo em volta é carência e adversidade. O anonimato e a solidão dos migrantes, particularmente no universo urbano, tendem a sepultar a memória, estabelecendo confusão, caos e uma sensação de abandono.

A cultura vai além da memória. Ademais de preservar o tesouro das lembranças, ela é capaz de criar, cultivar e expressar toda a riqueza de um grupo, povo ou nação. São muitas e muito variadas as manifestações culturais de cada língua e de cada tradição. Os valores mais enraizados de pessoas e povos possuem a cultura como veículo de relação e de comunicação. Lugar privilegiado para ler e interpretar as digitais, únicas e irrepetíveis, de uma civilização. Migrante pode ser pobre de bens materiais, mas jamais desprovido de valores culturais. Manifesta-o na música, na culinária, na indumentária, bem como na forma de se relacionar. Por isso é que o encontro com o outro sempre tende a enriquecer quem se dispõe a abrir o coração e a porta ao migrante. Tal encontro, quando livre e dialógico, ajuda a depurar e purificar reciprocamente ambas as culturas.

A história anda de mãos dadas com a memória e a cultura. Porém, a história pressupõe horizontes mais amplos. Importante é dar-se conta de que, nela, os migrantes não são apenas vítimas. São sujeitos e protagonistas. No contexto de violência, guerra ou pobreza, embora forçados a deixar a terra natal, eles o fazem tratando de estabelecer um projeto que, em geral, envolve toda a família. Além disso, quando os migrantes se lançam à estrada, põem em marcha a própria história. O ato de migrar, com efeito, tende a questionar os países de origem, que não lhes proporcionaram uma cidadania justa e digna; questiona também os países de passagem, devido à discriminação, ao preconceito e à xenofobia; pelos mesmos motivos, questiona ainda os países de destino, ademais de exigir mudanças urgentes e estruturais nas relações internacionais. Implícita ou explicitamente, querendo ou não, o movimento massivo de pessoas põe em marcha a história.

Toda mudança histórica mais ou menos profunda vem sempre precedida ou seguida de movimentos migratórios. Estes figuram como as ondas aparentes e visíveis de correntes subterrâneas ocultas e invisíveis. Quando se movem as placas tectônicas da política econômica globalizada, a terra treme e muita gente é obrigada a desenraizar-se. Todo abalo sísmico na geopolítica mundial gera deslocamentos humanos de massa. Em outras palavras, quando as formigas correm agitadas em todas as direções, é porque alguém ou alguma coisa destruiu o formigueiro.

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Autor do livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.


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