Alex Fisberg e a Mochila Social

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Para quem o pratica ou já o fez, o mochilão é considerado uma das experiências mais incríveis que alguém podem ter – autoconhecimento, aumento da bagagem cultural, novas experiências pessoais e profissionais, entre outros benefícios.

Foi de um mochilão desses, realizado entre agosto e novembro de 2011, que o jornalista e pesquisador Alex Fisberg elaborou o material que daria origem ao projeto Mochila Social. Dessa iniciativa é que vem o livro “Mochila Social – Um Olhar Sobre o Desenvolvimento Social e Pobreza no Leste da África”, a ser lançado oficialmente no próximo dia 1° de março,  a partir das 18h, em São Paulo – leia mais no serviço ao final deste post.

Já com larga experiência em pesquisa na área de desenvolvimento social e pobreza, Fisberg decidiu conhecer a África Subsaariana, uma das regiões mais carentes o planeta. Bancou a viagem com recursos próprios e conheceu de perto uma realidade que, se já ingrata para os que simplesmente assistem pela TV ou têm acesso via internet, imagina quando presenciada e sentida pela sua pele? No entanto, a região não pode ser reduzida ao estigma da miséria ao qual é vinculada – e um dos grandes méritos do projeto e do livro é de levantar o debate e a discussão sobre desenvolvimento social e as diferentes formas de se erradicar a pobreza.

Uma das curiosidades sobre a publicação é de que ela foi financiada de maneira coletiva, por meio da plataforma Catarse. A campanha, lançada no segundo semestre de 2012, juntou 318 apoiadores que conseguiram superar o mínimo necessário de R$ 25 mil para o projeto virar realidade. Ao final, foram arrecadados R$ 26.665, deixando o caminho livre para que o livro enfim pudesse ser impresso e distribuído – apenas uma pequena parte da tiragem será comercializada.

Há também versão da obra em audiolivro, visando pessoas com deficiência visual ou mesmo relacionados à capacidade de leitura. Neste link o jornalista explica mais sobre o porquê da publicação também nesse formato.

Com o livro às vésperas do lançamento, Fisberg conta abaixo um pouco mais sobre a origem e desenvolvimento do projeto e da obra, além do que tem feito atualmente e planeja para os próximos meses:

– De onde surgiu a ideia do Mochila Social? você partiu de alguma experiência, o que te inspirou?

Eu trabalho e pesquiso a área de desenvolvimento social e pobreza há pelo menos 5 anos. Havia acabado de passar 6 meses na Índia e outros 6 no Oriente Médio, tendo assim experiências na América Latina, Ásia e Oriente Médio. Como forma de complementar meu aprendizado, decidi que me faltava uma vivência no lugar onde a pobreza é completamente estigmatizada, mesmo para àqueles que nunca pisaram lá: a África Subsaariana. Risquei no mapa países que faziam sentido eu visitar (ou pela relevância de projetos e organizações ou por contatos que eu já possuía do meu trabalho com cooperação internacional) e decidi ir.

– Como surgiu a ideia de buscar recursos para o projeto por meio do financiamento coletivo (via Catarse)?

Para o projeto em si, eu não busquei recursos externos. Decidi que era um investimento válido e que eu estava disposto a arcar com esta experiência. Também decidi me manter independente e com liberdade de decisão sobre o projeto como um todo, podendo fazer alterações de percurso de acordo com meu aprendizado, sem ter que justificar ou pedir autorização para um possível patrocinador. No meu retorno, com a publicação do livro “Mochila Social: um olhar sobre desenvolvimento social e pobreza no leste da África”, decidi editar o livro de forma independente, o que tem muitos custos. Ao mesmo tempo, me dá liberdade para distribuir da forma como eu achar mais interessante, priorizando o livro em escolas, bibliotecas e projetos que possam se beneficiar desta experiência. Para embarcar comigo nesta jornada, o modelo do financiamento colaborativo me pareceu uma ideia muito boa, já que eu poderia oferecer o livro como recompensa a àqueles que acreditassem no projeto como um todo.

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– Dentre as situações que você presenciou, teve alguma que te marcou de maneira especial?

Foram muitas vivências transformadoras e momentos simples que me fizeram refletir muito sobre uma série de paradigmas pré-estabelecidos e outras convenções. Eu sempre acho difícil destacar um ou outro momento, mas com certeza as primeiras impressões na Etiópia, as favelas de Nairobi (Quênia), a visita ao maior campo de refugiados do planeta (em Dadaab, fronteira com a Somália) e uma breve imersão em Namuwongo, favela de Uganda são momentos e experiências de grande peso. Isso sem contar as mais de 30 organizações visitadas e a riqueza de experiências e projetos que servem de bagagem para o meu trabalho até hoje.

– Como tem sido a repercussão do lançamento e o que você espera para o grande dia, que já está chegando? 

Escrever um livro sobre uma experiência individual é como andar pelado por ai. Pode ser que alguém não consiga tirar o olho e a experiência seja transformadora, mas também estamos sujeitos a críticas e olhares atravessados. Eu publico este livro quase como se fosse uma ficção, para que as pessoas posam se inspirar a encontrar o seu jeito de mudar o mundo, de transformar a realidade em algo mais interessante. O dia do lançamento em si é uma confraternização, um momento em que as pessoas podem ter contato com um produto físico que nasceu após uma experiência individual. Neste caso, a Casa Rex, responsável pelo projeto gráfico do livro é que tem o maior mérito: o livro ficou muito diferenciado do que há por ai, com uma sutileza e delicadeza na forma como foi concebido que me dá muito orgulho de ter contribuído com o tema de um produto tão bem elaborado.

– Além dos livros que já foram prometidos aos colaboradores do projeto, haverá produção comercial da obra?

O meu foco de trabalho com esta edição é educativo e inspiracional. Estou interessado em tê-lo distribuído em espaços de discussão e aprendizado e a parte comercial será feita diretamente comigo e com algumas livrarias que toparem comercializar um livro independente. O mercado editorial “comercial” é muito competitivo e baseado em grandes investimentos, coisa que acredito não ser meu maior potencial neste momento. Apesar de eu acreditar que o livro é bastante comercial e com um público alvo bem interessante. Estou com o livro à venda no site www.mochilasocial.com , com a vantagem de que mando o livro por correio com uma dedicatória.

– Na sua opinião, em que medida sua formação escolar e familiar te influenciou nos projetos nos quais você se engajou?

Acho que tudo o que fazemos é reflexos das nossas vivências e experiências do dia a dia, algumas mais fáceis de identificar, outras menos. Com certeza, a liberdade de escolha que me foi sempre permitida em casa e nos ambientes pelos quais convivi contribuiu e muito para que eu pudesse tomar decisões de experimentar e me dedicar ao que eu mesmo acredito ser fundamental para a minha formação e, consequentemente, para minha atuação junto à sociedade.

Por cinco meses, você trabalhou junto à Aide et Action Internationam South Asia, acompanhando o ciclo migratório de trabalhadores semiescravos no leste da Índia, produzindo dessa experiência duas publicações. A partir daqui faço três perguntas: 

– Onde posso encontrar essas publicações, até para poder relacioná-las no post desta entrevista?

Estas publicações eram internas, mas há algum material aqui: http://umjornalismosocial.wordpress.com/migracao-impactos-em-pobreza-e-educacao/com-que-tijolos-construir-nossas-cidades/

– O que mais te marcou nessa experiência específica?

Acho que foi enxergar as coisas por outras perspectivas. Viajei muito para pequenos vilarejos no nordeste da Índia e conheci realidades rurais e urbanas impressionantes, mas que pouco se distanciam do que nós mesmos vivemos no Brasil ou em outros lugares do planeta. E as coisas são assim, com um monte de gente envolvida e pouca perspectiva de mudança. Aqui escrevo alguma coisa sobre: http://umjornalismosocial.wordpress.com/migracao-impactos-em-pobreza-e-educacao/

– Do que você vivenciou nesse período, teve algo que te influenciou nos trabalhos posteriores (como a experiência no leste da África)?

Tudo, foi uma sequência de eventos que foi levando uma coisa a outra. Como estive bastante dedicado a experimentar e focado na minha formação e aprendizado, tive a chance de me permitir vivenciar estas experiências todas de forma bastante consciente, colaborando para que os resultados pudessem ser potencializados.

– Que dicas você daria para quem deseja seguir um caminho parecido com o seu, de conhecer in loco os problemas e iniciativas sociais de países em desenvolvimento e de fazer algo em prol dessas localidades?

Vou terceirizar a dica com dois posts que já escrevi sobre. Acho que o fundamental é estarmos com os ouvidos mais abertos do que a boca, dispostos sempre a aprender o máximo possível antes de começarmos a utilizar nosso potencial. http://umjornalismosocial.wordpress.com/2012/08/16/doze-passos-praticos-para-solucao-de-problemas-sociais-por-paul-polak-1-parte/   e  http://umjornalismosocial.wordpress.com/2012/08/22/doze-passos-praticos-para-solucao-de-problemas-sociais-por-paul-polak-2-parte/

– Após o Mochila Social, quais os próximos trabalhos nos quais você vai se engajar?

Hoje, junto com a Rede Ubuntu estou desenvolvendo uma Aceleradora de Propósito, para incentivar e ajudar pessoas a transformarem seus “planos B” em “planos A”. Além disso, estou organizando alguns eventos e tentando formar uma rede de pessoas que trabalham e pesquisam desenvolvimento social e pobreza para fortalecer o impacto destes trabalhos, de forma colaborativa. Atuo em alguns projetos sociais com foco na melhoria de espaços públicos e privados tenho muita satisfação em ajudar outras pessoas a elaborarem projetos e empreendimentos com potencial de impacto social, baseado um pouco na minha experiência de organizações que fundei ou que conheci.

Serviço:
Lançamento do livro “Mochila Social: um olhar sobre desenvolvimento social e pobreza no leste da África”, de Alex Fisberg

Data: 1° de março de 2013, a partir das 18h
Local: Centro Cultural Rio Verde – Rua Belmiro Braga, 181 – Pinheiros/SP

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