Após Brexit, onda populista anti-imigração chega ao Parlamento Europeu

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Sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo (França) elege 751 novos deputados; 22% deles são contrários à UE. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

”Eles minarão a União Europeia por dentro”, afirma analista político e colunista do jornal El País ao MigraMundo.

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Nem a massiva presença dos pró-União Europeia (incluindo o crescimento atípico dos Verdes), nem a participação recorde dos eleitores nas eleições para o Parlamento europeu evitaram análises mais sombrias: a política europeia já está contaminada pelo chamado populismo de extremos, regido principalmente pela extrema-direita.

”O fator mais relevante dessas eleições é a ascensão do populismo (principalmente o de extrema-direita e menos o de esquerda) de uma maneira nunca antes vista desde a década de 30”, afirmou o colunista do jornal espanhol El País, Gonzalo Fanjul ao MigraMundo. Fanjul é também economista, colaborador do Center for Global Development e co-fundador do site espanhol PorCausa.org especializado em migrações. ‘O grupo de euro-céticos populistas ”aprenderam com o Brexit a não sair da UE, mas miná-la estando ainda dentro dela”, acrescentou.

Um recente estudo publicado pelo PorCausa.org revela que a xenofobia está no cerne deste populismo, disseminado em maior ou menor grau em diversos países, como Brasil, Hungria, Itália, Estados Unidos, Reino Unido, França e etc.

Para especialista Gonzalo Fanjul, uma nova Era chegou na Europa, de ataque às forças tradicionais intermediárias (políticos, imprensa e ONGs). Crédito: Divulgação

É o chamado ”Franquicia Antimigración” (Franquia Antimigração, em tradução livre do espanhol) e ”tem por objetivo central o poderio do Parlamento europeu, através de uma coligação entre partidos, para vetar propostas progressivas”, afirma o relatório.

”Poucas frentes desta guerra são tão prioritárias como a frente na Europa. Para a Franquia Anti-migração, o ideal de globalização e integração da diversidade que propõe a UE representa tudo o que deve ser combatido”, afirma o relatório.

”Os movimentos nacional-populsitas estão conseguindo se estabelecer com força em governos e Parlamentos de quase uma dezena de Estados-membros (desde o Executivo da Hungria, Itália e Áustria até o controle da oposição na Alemanha e Suécia), determinando os debates fundamentais, como o debate migratório”, acrescenta o relatório.

O novo Parlamento

A nova composição do Parlamento europeu mostra a ascensão deste populismo de direita, com a eleição de 172 deputados euro-céticos,
tornando-se o segundo maior grupo político dentro da Casa.

Os euro-céticos são os partidos que gostariam de retirar seus países da UE e que são perpassados por discursos (mais ou menos) nacionalistas e extremistas, principalmente em relação à imigração.


”A extrema-direita chegou para ficar”, afirma colunista do The New York Times. (Divulgação)

Para o colunista do The New York Times Ivan Krastev, ”a extrema direita chegou para ficar”. ”A extrema-direita não é a dominante, mas deve ficar claro para todos nós que ela não vai embora tão cedo. Dos cinco partidos individuais com maior representação político no novo Parlamento Europeu, quatro são anti-União Europeia”.

Tal grupo é composto pelos seguintes movimentos: Europa das Nações e da Liberdade (ENL, da francesa Marine Le Pen e do vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini, ambos de extrema-direita) os Conservadores e Reformadores Europeus (ECR, composto principalmente por poloneses e britânicos ), o Europa da Liberdade e da Democracia Direta (EFDD, do britânico Nigel Farage – pró-Brexit – e do Movimento 5 Estrelas).

Com isso, eles estão atrás apenas do grupo dos conservadores do Partido Popular Europeu (179 cadeiras) e à frente dos sócio-democratas (150 cadeiras).

”A questão agora é saber se essas formações nacionalistas (euro-cética) aceitarão trabalhar juntas e se os partidos pró-Europa saberão se unir para os barrar”, afirmou a correspondente do jornal francês Le Monde em Bruxelas, Cécile Ducourtieux .

Forças obscuras

Em entrevista exclusiva à rede de televisão norte-americana CNN, a chanceler alemã Angela Merkel alertou para o ”crescimento de forças obscuras na Europa.”

”Existem forças obscuras em crescimento na Europa (…). Há muito o que se fazer para combatê-las aqui e em outras partes do mundo”, afirmou a chanceler, ressaltando que os alemães tomam a sua parte nesse trabalho.


”Existem forças obscuras em crescimento na Europa”, afirmou Angela Merkel à CNN um dia depois das eleições europeias.
Crédito: Reprodução/CNN

”Na Alemanha, obviamente, elas [forças obscuras] precisam sempre serem vistas à luz do nosso passado, o que quer dizer que nós devemos ser mais vigilantes do que os outros (…) Nós temos que contar aos jovens o que o nosso passado nos causou e causou aos outros.”

Em seu editorial publicado na manhã da segunda-feira (27), com os resultados quase inteiramente divulgados, o jornal francês Le Monde afirmou que com o Parlamento dividido entre forças completamente opostas, uma nova Era se instaura na Europa, onde decisões seriam mais difíceis de serem tomadas e onde o tradicional jeito de fazer política não teria mais espaço.

Para o economista Gonzalo Fanjul, esta nova Era já começou de fato, não apenas com a divisão do Parlamento, mas com o que ele chamou de ”ataque às forças intermediárias legítimas”.

[Essa nova Era] está presente em cada arena política atualmente. Os intermediários legítimos e tradicionais (os jornais, as grandes ONGs e os partidos tradicionais ) estão sob ataque e isso reflete no voto.’

Eleitor italiano Fabrizio Provenzano posa com a bandeira da UE após votar em Estrasburgo (França). ”Não devemos temer os anti-europeístas, porque os pró-UE ainda são maioria (…) a UE é ainda muito mais forte do que aqueles que a tentam destruir.”
Crédito: arquivo pessoal.

Resultados

Com menos assentos do que nas últimas eleições parlamentares, o bloco de centro direita (constituído pelo Partido Popular Europeu, PPE) e o bloco dos sócio-democratas perderam a sua maioria no Parlamento pela primeira vez desde 1979.

Na Itália, a Liga de Matteo Salvini venceu com 33,6% votos, em uma folgada vantagem em relação às outras listas concorrentes. Para o cidadão italiano Fabrizio Provenzano, 27, Salvini só ganhou por conta de uma maioria italiana que é contrária à União Europeia por falta de informação.

”Se eles se informassem sobre o que a UE trouxe de benéfico para a Itália, não teriam votado por Salvini”, afirmou ele, que é formado em Relações Internacionais e Diplomacia.

Na França, o partido de extrema-direita, de Marine Le Pen, o Rassemblement National (RN), ganhou a maioria com 23,4% dos votos – uma derrota política para o seu adversário, o atual presidente francês, Emmanuel Macron.

”Ela ganhou a maioria, mas apenas com 2 pontos de vantagem sobre o partido de Macron e com menos votos em comparação à 2014”, ponderou Fabrizio com otimismo.

No Reino Unido, o Partido do Brexit, de Nigel Farage, ganhou em primeiro lugar com 31,7% dos votos. Na Hungria, o partido soberanista Fidesz, de Viktor Orban, obteve uma vitória esmagadora com 56% dos votos. Para o italiano Fabrizio, o importante é a ainda grande presença dos grupos pró-Europa, inclusive os Verdes (em inesperado crescimento).

”Eu não acredito que devemos ter medo dos partidos anti-europeístas, porque os europeístas ainda são maioria e, portanto, a União Europeia é ainda muito mais forte do que àqueles que a tentam destruir”, afirmou Fabrizio.

Uma luz Verde no fim do túnel?

Uma das grandes novidades destas eleições foi o ressurgimento do Partido Verde, conquistando 78 cadeiras no Parlamento e crescendo em países como Alemanha e França.

O jornalista brasileiro Clóvis Rossi, do jornal Folha de S. Paulo chegou a afirmar, em sua otimista coluna do dia seguinte às eleições ”Voto na Europa equivale a novo milagre”, que os Verdes ajudaram a estancar os tormentos causados pela ascensão dos extremistas.

O Partido Verde alemão, quase esquecido no cenário político há tempos, dobrou seus assentos no Parlamento com 20,7% dos votos válidos, assim como na França, os Verdes se tornaram a terceira maior força política no país, com 13,4% dos votos ao Parlamento europeu. Na Finlândia, os ecologistas foram os que mais progrediram em relação ao passado, com 15% dos votos conquistados.

”Eu estou muito contente com a esperança trazida pelo partido Verde na Alemanha e na França. É uma vitória muito importante (…). O resultado das eleições para mim é positivo, porque todos os partidos europeus ganharam [posições significativas no Parlamento]”, afirmou o italiano Fabrizio Provenzano. ”O resultado nos mostra que a maioria é e será sempre europeia”, acrescentou.

O que faz o Parlamento Europeu?

Como a Câmara e o Senado brasileiro, o Parlamento europeu é, junto com a Conselho da Europa (formado por 20 Estados-membro) , um órgão do legislativo europeu, ou seja, ele cumpre a função de aprovar ou não as leis vindas da Comissão Europeia (o Executivo).

É responsabilidade do Parlamento votar o orçamento da União Europeia e controlar a Comissão Europeia, a qual ele pode dissolver em casos extremos, por meio da chamada menção de censura – o que nunca aconteceu.

É papel também do Parlamento sancionar um país-membro que desrespeitar os direitos fundamentais, assim como de estabelecer acordos com os países vizinhos.

Desde as eleições do 25 de maio de 2014, o Parlamento conta com 751 euro-deputadas(os). Com a saída do Reino Unido da UE, os 73 euro-deputados britânicos deverão deixar o Parlamento e então 27 cadeiras serão redistribuídas entre os países-membros – as outras 46 ficarão guardadas para caso de novos membros no bloco.

O número de deputados representantes de cada Estado varia em função do número de habitantes. Quanto maior a população de um país-membro, maior o total de representantes que ele terá direito.

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