As fronteiras militarizadas e os migrantes “com a cara no muro”

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Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em meio a um campo minado de choques entre urgências e interesses, a chamada “ajuda humanitária” esconde uma série de ambiguidades

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

No momento em que escrevo estas linhas, duas fronteiras estão fechadas pelas forças militares: em Tijuana, o limite entre o México e os Estados Unidos; em Cúcuta, o limite entre a Colômbia e a Venezuela. Em maior ou menor grau de militarização, há outros confins entre países em idêntica situação. Essas duas, porém, chamam a atenção tanto pelas diferenças que apresentam quanto pelas semelhanças implícitas ou explícitas. Vozes silenciadas e silêncios gritantes se batem contra muros de indiferença e desinteresse.

Em ambos os casos – Tijuana e Cúcuta – o muro visível ou invisível separa multidões famintas de um sonho e de uma oportunidade. Nas duas situações, escancaram-se as portas às assimetrias estridentes e disparidades socioeconômicas que dividem e separam povos e nações. Em ambas as fronteiras, surge nítida a ponta do iceberg que revela o acúmulo simultâneo da renda e da riqueza, de um lado, e da exclusão social, de outro. Os motivos que levaram ao fechamento e à presença do exército não são os mesmos, claro, mas suas consequências convergem para o sofrimento anônimo de milhões de seres humanos. Incongruências, contradições e conflitos de um planeta ao mesmo tempo tão rico e tão pobre.

No pano de fundo desse cenário de precariedade, três tipos de personagens tecem fios que se cruzam e recruzam: “os donos do poder” (Raymundo Faoro), os gigantescos conglomerados empresariais e os migrantes/refugiados. Comecemos com os gigantescos conglomerados transnacionais. Sejam seus interesses ligados à extração e comercialização do petróleo e derivados, ao controle militar da região amazônica, à extração de minérios ocultos no subsolo, à possibilidade de criação de gado, à fatia rendosa das telecomunicações ou à produção e venda de armas – a verdade é que a lei férrea do Sr. Mercado Total, com sua “mão invisível” (Adam Smith), manda e desmanda, através de seus agentes secretos ou em plena luz do dia.

Depois, entre “os donos do poder” e tais companhias que atuam na rede capilar da economia globalizada, não são poucos os interesses que trilham as mesmas vias e seguem os mesmos horizontes. Num quadro onde o corporativismo histórico e estrutural reveste-se com as roupas de um nacionalismo populista de direita, os interesses se mesclam e se confundem. Os limites entre as necessidades básicas da população e os privilégios e benesses privados tornam-se fluídos. Tudo se vaporiza e se volatiza. Uma legislação ambígua e frequentemente descumprida acaba legitimando falcatruas e “maracutaias”. Comanda a tirania bruta do ditador, junto com seus dois leões de chácara: o poder judiciário e as forças armadas.

Os migrantes/refugiados, enfim, batem com a cara no muro. Uma vez mais, a porta encontra-se cerrada, hermeticamente cerrada. A dura e longa travessia foi improvisadamente interrompida na reta de chegada. Sejam os venezuelanos que tentam buscar trabalho e pão nos países vizinhos, como a Colômbia e o Brasil, sejam os latino-americanos que correm atrás da esperança de um futuro mais promissor na América do Norte, vêm seus sonhos esfacelados contra o arame farpado e os soldados armados. A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um espelho vivo do grito pela justiça e pela paz. Mas a teimosia do lucro e do poder bate-se com a teimosia pela vida.

Em meio a esse campo minado de choques entre urgências e interesses, tenta atuar a chamada “ajuda humanitária” – a qual, se é verdade que tem aparência e gestos de uma ação realmente humanitária, também é verdade que, consciente ou inconscientemente, de um ponto de vista político e econômico, esconde uma série de ambiguidades. Perguntas: quem acumula maior parte das responsabilidades (ou irresponsabilidades)? Onde vai parar tudo isso, seja num caso como no outro? Em termais mais gerais, que sociedade tais situações revelam e que sociedade necessitamos construir? Como encontrar linhas de ação comuns e metas viáveis e possíveis e como somar as forças de esquerda? Perguntas que não têm resposta imediata, mas impõem priorizar desafios e perspectivas.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2019

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