“Brasileiras Não se Calam”: projeto oferece apoio e denuncia xenofobia contra mulheres no exterior

Projeto, "Brasileiras não se Calam", criado em Portugal, expõe relatos de xenofobia e oferece apoio a mulheres brasileiras no exterior

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Logo do projeto Brasileiras Não se Calam
Logo do projeto Brasileiras Não se Calam. (Foto: Reprodução)

Por Ketty Aire Laureano e Isabel Rabelo

“No primeiro ano de relacionamento com meu marido, que é português, os colegas de trabalho dele viviam perguntando como ele conseguia me deixar sozinha em casa sem medo de que eu não roubasse ele”. Este é um entre mais de 900 relatos expostos pelo projeto Brasileiras não se Calam, onde mulheres denunciam, de maneira anônima, os preconceitos, machismos e xenofobias que sofrem no exterior.

O projeto, criado no início de 2020 no Instagram, hoje conta com mais de 40 mil seguidores e promove, além de um espaço de desabafo, grupos de apoio emocional, apoio jurídico, apoio psicológico, aulas e cursos, e um banco de dados de vagas e profissionais à procura de emprego em Portugal.

O país lusitano, aliás, é o principal palco de denúncias – no período de um ano, foram 541 casos expostos nas redes sociais –, mas relatos vindos dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Espanha são comuns também.

A ideia do Brasileiras não se calam surgiu após um caso de discriminação durante o Big Brother de Portugal, em que uma participante portuguesa disse que “a brasileira já tem a perna aberta”. Para Camila*, uma das cinco membras fixas da equipe, o assédio e a discriminação em Portugal sempre a incomodou, mas era algo só conversado entre amigas e pessoas próximas.

“Depois desse episódio e com a pandemia, percebemos a necessidade de fazer algo mais efetivo, visto que o programa é exibido na televisão de forma aberta, o que mostra como o estereótipo da mulher brasileira em Portugal está naturalizado”, relata.

Preconceito contra mulheres brasileiras

Segundo dados do Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão português que lida com a migração, em 2020, existiam 662 mil imigrantes no país, sendo 325 mil mulheres. Em relação a nacionalidade, a brasileira se destacou como a principal população residente, representando 27,8% do total. Não há dados com o número de mulheres brasileiras em Portugal.

Para entender como é o estereótipo da brasileira em Portugal, Roberta Avillez, doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora da migração brasileira no exterior, relembra o caso das “As Mães de Bragança”. O caso ocorreu em 2003, quando foi criado um movimento de mulheres portuguesas que buscavam a expulsão de brasileiras que trabalhavam em bordéis na cidade de Bragança.

Avillez aponta que, era um contexto onde mulheres mães, de um país católico, tradicional em diversos aspectos, se sentiam ameaçadas com a presença daquelas trabalhadoras. “Para a construção deste cenário, é preciso levar em consideração a proliferação de matérias noticiosas, inicialmente portuguesas, focalizadas negativamente nas mulheres brasileiras, mas sem responsabilizar os homens que voluntariamente frequentavam a casa. Tampouco explicitar que não eram unicamente brasileiras a trabalhar numa das profissões mais antigas. Houve uma intenção na escolha da narrativa usada nessas matérias”, explica a pesquisadora, sobre o ocorrido.

“Na altura, a repercussão midiática foi grande, ao ponto de virar capa da revista TIME. Uma repercussão que permanece até os dias de hoje com o estereótipo de brasileiras como ‘fáceis’ ou prostitutas”, acrescenta a pesquisadora.

Avillez aponta, ainda, que a própria produção midiática brasileira agrega ao problema, já que, muitas vezes, hipersexualizam as mulheres e mostram a brasileira de uma maneira estereotipada, sem levar em consideração a diversidade existente no país.

Denúncia da xenofobia

Para Camila*, ainda existe uma visão e uma necessidade por parte da sociedade portuguesa de afirmar os papéis de colonizadores e “colonizadas”. “Por isso, muitas pessoas acham que são donas não só dos nossos corpos, mas que também sabem mais de nós do que nós mesmas, que sabem mais sobre o Brasil do que as brasileiras, e que se incomodam quando nos veem ocupando os mesmos espaços que elas”.

Assim, um dos principais objetivos do projeto é mostrar que as “colonizadas” têm voz. Para migrantes, muitas vezes, o ato de denunciar gera medo e, por isso, o Brasileiras não se calam optou por expor os casos de maneira anônima. “Pelas mensagens que recebemos, ainda existe sim um receio muito forte das mulheres que nos enviam seus depoimentos de serem atacadas na internet, de perderem o emprego, de que as pessoas não acreditem nelas e as culpabilizem, de perderem o direito a documentação, e de serem julgadas pela sociedade”, aponta Camila*.

As integrantes da organização também prezam pelo anonimato, a fim de não sofrerem ameaças. “Temos recebido muitas mensagens agressivas, e falar sobre xenofobia, infelizmente, ainda é um grande tabu por aqui [em Portugal]. Muitas pessoas são contra esse tipo de discussão e acham que, se não estamos satisfeitas enfrentando violência aqui fora, deveríamos `voltar para a nossa terra`”

Número de relatos por país 2020-2021. Fonte: Brasileiras Não se Calam

Avanços e desafios

Segundo dados da Comissão pela Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) de Portugal, verifica-se que a expressão que mais se destaca enquanto fundamento na origem da discriminação é a nacionalidade brasileira. Para combater os estereótipos e os preconceitos contras as pessoas migrantes, no mesmo relatório do CICDR, se descreve a construção do portal Lisboa Acolhe, portal informativo e participativo dirigido a pessoas imigrantes, desenvolvido pela Casa do Brasil em Lisboa, em parceria com a Câmara Municipal da capital portuguesa. 

No relatório, também, se visualiza que as manifestações de xenofobia e de intolerância se manteve em 2020. Alerta que, contudo, os números não representam o universo real da problemática da discriminação e que, pelo contrário, a prevenção constitue ainda um desafio permanente. 

Se nós procuramos a palavra “brasileira” no Instagram e analisamos os sites sugeridos, poderemos refletir sobre a dimensão da hipersexualização das mulheres brasileiras nas redes sociais. Avillez ressalta o papel da produção midiática na construção de estereótipos que hipersensualizam as  mulheres brasileiras. “Esquecem de apresentar um olhar mais detalhado e diferenciado. Seja na pressa de elaborar o que supõe ser a notícia, acaba por não apresentar as múltiplas faces, histórias e vivências”.

“Enfrentar os estereótipos sobre mulheres brasileiras é um exercício de contínua conscientização seja pela educação, ativismo, mídia, ou até mesmo pela conversa informal do dia-a-dia. Para que o outro possa perceber de forma mais aberta o valor da diversidade”, acrescenta Avillez.

Legislação

Ainda, Avillez sublinha que as leis de proteção à mulher migrante variam para cada país, inclusive, em províncias ou estados. “Em New York (EUA) as imigrantes brasileiras são protegidas contra violência doméstica assim como uma mulher estadunidense. O visto de imigrante não as exime de proteção. Até mesmo como não-documentadas terão a proteção da lei em New York, visto que é considerado um safe haven para imigrantes não-documentados”, indica.

Já em Portugal, existem campanhas contra a violência doméstica indicando que as leis são para todas as mulheres independente do país de origem. “Às vezes, a questão que percebo é fazer valer a lei. É quebrar o estereótipo, o preconceito e a xenofobia no momento do atendimento para fazer valer a lei de proteção à mulher”, finaliza Avillez.

*O nome real da entrevistada foi trocado por um pseudônimo, para preservar sua segurança


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