Brasileiros migrantes sentem vergonha do Brasil e aliviados de estarem longe do cenário político

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Bandeira do Brasil e céu nublado em Brasília. Cenário político atual indica tempos difíceis à frente para pautas de direitos humanos no país. Crédito: Rodrigo Veronezi/MigraMundo

Brasileiros que vivem na Europa contam como é estar há milhares de quilômetros do país natal, hoje dividido entre os presidenciáveis Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)

Da redação

O MigraMundo ouviu alguns brasileiros migrantes que vivem na Europa sobre o cenário politico no Brasil e como se sentem estando há mais de 10 mil quilômetros de sua terra natal em um momento de ascensão da extrema direita no país – representada pelo candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Eles se dizem envergonhados e decepcionados, mas ao mesmo tempo aliviados de não estarem no Brasil.

“Tudo virou emocional. Não há espaço para o diálogo”, afirma a advogada Camila Nobling, 45, moradora de Potsdam, cidade próxima a Berlim.

Da Inglaterra, os apoiadores do candidato da extrema direita defendem o projeto liberal de Jair Bolsonaro. “Há um projeto liberal eficaz para o Brasil”, afirmam Marina e Lucas Carnelós Fonseca.  “Não concordamos 100% com as falas do candidato, mas ele tem o melhor projeto para o Brasil.”

Todos eles falaram um pouco sobre os desafios de explicar para o estrangeiro o que se passa hoje no Brasil e relatam a indignação de alguns deles diante do candidato favorito, Jair Bolsonaro.

“Quando falo dos delitos que estão acontecendo contra as mulheres, a comunidade LGTB, os negros, sobre as fake news, todos assimilam isso com a subida de Hitler. Aqui na Alemanha se fala muito sobre o passado nas escolas, para que isso não se repita. Por isso a maioria é muito consciente nesse assunto”, afirma Julia Nobling Souza, estudante em Berlim. “Nós sabemos as consequências de tudo isso”.

Bandeira do Brasil e céu nublado em Brasília. Cenário político atual indica tempos difíceis à frente para pautas de direitos humanos no país.
Crédito: Rodrigo Veronezi/MigraMundo

Um “Trump dos trópicos”

“Um Trump dos Trópicos” é como o principal portal de noticias da Letônia , “Delfi”, descreve Bolsonaro em um pequeno perfil publicado dias antes das eleições.

“Parece ser a melhor analogia”, afirma o paulistano Tales Rosa, 33 anos, consultor e que mora em Riga, capital de um país que vê o Brasil como uma “terra distante e exótica”.

Morador há cinco anos do gélido país báltico, Tales diz que seu termômetro politico em relação ao debate politico no Brasil é tao frio quanto o país em que vive. “Estou dissociado do calor do debate. Vivo num país frio e meu termômetro político está igualmente frio”.

Ele acompanha as notícias e fala com familiares nas redes sociais, mas diz não ser a mesma coisa do que se estivesse in loco. “Acompanho diariamente as principais notícias em portais brasileiros e nas redes sociais, mas não estou com a turma na padaria, não ouço comentário do taxista, não sei qual é a última piada sobre o Bolsonaro.

Sobre estar longe do Brasil em um momento delicado e importante, ele diz se sentir aliviado. “‘Que bom que não estou aí’ é uma frase que usei algumas vezes em conversas via WhatsApp nos últimos meses”, afirma. “É um sentimento muito egoísta, mas visceralmente verdadeiro. Estou eternamente ligado ao futuro da minha terra natal mas, neste momento, é um tremendo alívio não fazer parte da discussão política”.

Revolta

Tales não pode votar no primeiro turno, nem votará no próximo domingo (28). Mas o consultor, que se declara de centro-esquerda, faz duras criticas ao PT e também repudia o discurso de Jair Bolsonaro.

“País nenhum merece Bolsonaro como presidente, e a ideia de ter outro poste eleito pelo Lula, que comandaria o país da cadeia é repugnante”. E acrescenta. “Considero o Haddad tolerável como político, mas a bagagem que ele carrega como representante de Lula e do PT é tao inaceitável quanto a de Bolsonaro”.

Tal revolta é compartilhada pelo casal Marina, 27 anos e administradora financeira, e Lucas Carnelós Fonseca, 30 anos e veterinário. Eles moram há mais de 1,6 mil quilômetros de Riga, na cidade inglesa de Bournemouth, e deixaram o Brasil há pouco mais de um ano. Para Marina, “o PT se mostra hoje como salvador da Pátria culpando o atual presidente da República, Michel Temer pela situação precária e absurda do Brasil”.

Marina diz ter lido as propostas de ambos os candidatos, e hoje declara o seu apoio ao candidato Jair Bolsonaro. “O plano de Bolsonaro é um plano democrático liberal, com base, estrutura e dizendo como fará para atingir os objetivos propostos. Digo que se ele fizer 50% do que está em seu plano, já fará uma diferença gigante no país”, afirmou ela em post em sua página no Facebook.

“As opiniões dele como pessoa também não me agradam, porém não preciso de uma pessoa no governo, preciso de uma equipe, inteligente, focada e administradores no governo. Essa equipe o Sr. Bolsonaro já montou”, acrescentou.

Marina e Lucas conversaram com o MigraMundo sobre algumas declarações feitas pelo candidato contra migrantes no Brasil, como os refugiados que foram chamados de “escória do mundo” pelo candidato de extrema direita. Marina e Lucas não concordam 100% com as declarações do candidato e citam o Brexit como uma resposta democrática à questão migratória.

“Porém, uma única pessoa não consegue criar leis e excluir pessoas de um país. Vivo hoje na Inglaterra, onde os mesmos também com o Brexit gostariam de evitar migrantes a seu próprio modo. Meu voto é do Bolsonaro porque acho que nele teremos mudanças para melhor no país”.

O futuro

Face à probabilidade do candidato Bolsonaro obter o poder no Brasil, o paulistano Tales, há 10.533 quilômetros de sua terra natal, ainda se mostra esperançoso.

“Veja os EUA com Donald Trump. O país não explodiu em chamas, as pessoas continuam vivendo suas vidas e a economia vai bem. Apesar de odiar Bolsonaro e o que ele representa, quero acreditar que nossa democracia, minorias e meio-ambiente vão sobreviver a ele”.

Já Camila não tem tantas certezas assim. Como Tales, ela deixou o Brasil definitivamente nos anos 2000 e já está há 15 anos na Alemanha com sua família. “Eu me pergunto o tempo todo, com essa hostilidade entre as pessoas, como vai ficar a situação do país depois das eleições, independente do candidato vencedor”.

Ela conta que acompanhou de perto, como todos os anos, as eleições no Brasil. “Mas dessa vez foi diferente. Senti um clima pesado e de certa forma hostil desde o início, especialmente em relação aos partidos envolvidos nos escândalos de corrupção e uma certa descrença de pessoas que não acreditam mais na política.”

Camila conversou com seu marido alemão sobre a ascensão da extrema direita e de seu discurso radical, e ele teria respondido: “As pessoas não estão pensando”. E ela ressoa com o marido: “Tudo é regido pela emoção no debate político no Brasil, algo difícil para um alemão compreender”.

A Alemanha viu nascer no começo do século XX no seio de seu debate politico um discurso extremista de direita que ficou conhecido como Nazismo. Abalado em sua identidade e em sua economia após a Primeira Guerra Mundial, o país deu espaço e apoio a um dos personagens mais cruéis da História Contemporânea, Adolf Hitler, que pregava o ódio e o extermínio de minorias como judeus, ciganos e homossexuais. No poder, Hitler operou uma máquina de perseguição e extermínio de mais de 10 milhões de seres humanos que não se enquadravam no que ele chamaria mais tarde de supremacia da raça ariana.

“Eu moro em Berlim, uma cidade que passou por ambos extremos do Nazismo e do Comunismo e até hoje nós podemos ver as consequências disso”, diz Julia, filha de Camila, que mora em Berlim, onde estuda a cultura e a língua chinesa na Universidade Livre de Berlim. Julia deixou o Brasil ainda adolescente, há 15 anos.

“O sentimento que tenho sobre a ascensão do radicalismo de direita no Brasil é de tristeza, ver tanta gente votando com ódio, as pessoas estão cegas. A história no mundo inteiro mostra quantos erros foram cometidos pelo ódio, e as pessoas ainda não aprenderam, isso me decepciona muito”, afirma ela.

“Eu já conheci alguns idosos que viveram a Segunda Guerra Mundial, assim como a época do Muro de Berlim, e elas sempre me contaram histórias. Fico muito triste ao ver que os brasileiros intencionam votar em um senhor com ideias loucas e sem proposta apenas por ódio ao PT”, afirma Julia, que se sente envergonhada com a ascensão de Jair Bolsonaro, candidato que para ela tem “uma agressividade absurda”.

Tristeza e decepção

Camila se diz indignada pela desinformação do brasileiro e por discursos da extrema direita, que “colocam nazismo, fascismo e comunismo no mesmo saco e que tolera a tortura”. Camila diz também estar confusa em um misto de tristeza e decepção.

“Tristeza por ver um país dividido e fechado ao diálogo e decepção por ver pessoas inteligentes e preparadas, que pensei que teriam a clareza necessária para analisar o momento com objetividade, se deixarem levar por emoções.”

Ambas, filha e mãe, vão votar no próximo domingo, 28. “Bolsonaro bate de frente em muitas coisas que acredito e considero fundamentais, direitos humanos, por exemplo. Além de ter um discurso agressivo, nada conciliador. Meu medo em relação a ele não é somente o que ele pode fazer – até porque ainda temos um Congresso. Mas antes de tudo aquilo que seu discurso já faz: despertar o pior nas pessoas”, acrescenta Camila.

Para Júlia, sua filha, Bolsonaro não estaria na política se fosse alemão. “Vejo suas entrevistas e fico pensando, se um politico alemão falasse certas coisas, não poderia nem estar se candidatando na Alemanha. Se o politico aparecesse em vídeos, mesmo que antigos, em qual banaliza estupro, violência, é homofóbico etc acho que ele já até estaria preso ou pelo menos afastado da política”, afirma. “Eu vi um vídeo, em que Bolsonaro fala que quer “fuzilar a petralhada”. Para mim isso é ameaça, e isso aqui seria crime.”

Como explicar o Brasil?

Camila, na Alemanha, conta que muitos alemães a questionam sobre o que estaria acontecendo em seu país. “E é claro que os alemães estão atentos. Não sei quantas vezes já ouvi a pergunta: “o que está acontecendo no seu país?” A repercussão não é boa”, afirma.

“A imprensa (tanto de direita quanto de esquerda, veja aqui o FAZ, Zeit, Süddeutschezeitung) fala na possível eleição de um político de extrema direita que faz comentários contra minorias: comunidade LGTBQ, negros, índios, mulheres. Extrema direita aqui tem uma conotação péssima pois é um termo usado para partidos como a AFD, um partido extremamente radical, e também para movimentos nazistas”, afirma ela, que acrescentou que se envergonhou com as declarações de alguns militantes brasileiros de que o Nazismo de Hitler foi um movimento da esquerda e não da direita. “Alguns vieram me dizer: “mas as pessoas não sabem que os primeiros a serem presos e assassinados foram os comunistas?”

Tales, na Letônia, discute limitadamente com seus clientes letos o cenário politico brasileiro. “Letos em geral enxergam o Brasil como um país muito distante e exótico, por isso poucas pessoas têm consciência da situação politica e suas nuances”, afirma. “Ouço dizer que há pouca consciência inclusive em relação ao que está acontecendo com os nossos vizinhos, Polônia e Hungria. O Brasil, portanto, passa longe da mente da população local.

Em conversas com seus amigos alemães, Julia diz falar dos prós e dos contras de Haddad e Bolsonaro. “Não se fala muito disso aqui na televisão, mas quando conto como Bolsonaro e o PT são, ficam horrorizados. Mas todos dizem que preferem votar em um partido corrupto em qual possa depois ser livre, protestar etc. ao invés de votar em um fascista, no governo do qual não terão liberdade nem direitos se não for da elite branca°, afirma Júlia.

Exclusão do debate

Alguns deles também retraram a exclusão que sofrem de brasileiros no Brasil quando tentam falar sobre política. “Tenho que ouvir várias vezes amigos e familiares falando que por morar longe e desconhecer a situação do país, eu não tenho direito de opinar sobre política”, afirma Julia. “Mas exatamente por este motivo é que acho que, quem mora fora tem uma cabeça mais aberta, mais clara para enxergar essa situação delicada”, acrescenta. “A sensação que eu tenho, quando falo sobre o Brasil, é que sou uma terceira pessoa, uma observadora.”

Paula D´Ávila também já ouviu de brasileiros que ela não poderia opinar por morar longe. “Esse argumento não faz sentido nenhum, pois tudo o que eu tenho, meus amigos, meus familiares, meus investimentos, estao todos no Brasil.” Paula hoje mora em Dublin, na Irlanda, onde é supervisora de hospitalidade.

Como Tales, seu vizinho de pouco mais de 872 quilômetros morador na Letônia, Camila e Júlia se sentem aliviadas de não estarem no Brasil. “ Pelo que ouço o clima está muito tenso no Brasil e as pessoas, quando não se ofendem descaradamente, pisam em ovos. Por outro lado gostaria muito de estar lá participando mais ativamente de tudo o que está acontecendo”, afirma Camila.

O mesmo acontece com Paula. “Eu não queria estar lá, mas sinto falta de participar ativamente como fazia quando morava no Brasil”, afirma a carioca, que saiu há 1,7 ano do Brasil. Mas apesar de não estar no Rio de Janeiro, seu estado natal, para protestar ela afirma que já declarou “sua oposição ao candidato Jair Bolsonaro” nas redes sociais. “Antes eu discutia com meus familiares e amigos, mas comecou a dar muita briga e decidimos que nao se falava mais nisso.” Paula se descreve como alguém que sente um “profundo desespero” ao pensar no futuro do Brasil. “Eu tinha planos de voltar, mas agora esses planos foram postergados para no minimo quatro anos.”

De acordo com dados consulares, os brasileiros residentes na Alemanha e Letônia, onde moram Camila, Julia e Tales, votaram em sua maioria em Ciro Gomes no primeiro turno. Já na Inglaterra, principalmente em Londres, alguns quilômetros próxima da cidade onde moram Marina e Lucas, 53% votou em Bolsonaro no primeiro turno.

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