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quarta-feira, abril 17, 2024

Brasileiros na Irlanda: entre o “complexo de vira-lata” e oportunidades inexploradas

Se a Irlanda tem uma escassez crítica de vários tipos de profissionais, por que tantos brasileiros no país trabalham em funções de baixa qualificação?

Por Sarah O’Sullivan, diretora da Consultoria SOS Education

Cada vez que volto para visitar minha família na Irlanda, fico surpresa com a quantidade de brasileiros que povoam as ruas de nossas maiores cidades. Como carioca adotada, é divertido poder falar português com quem faz meu café ou o check-in em hotéis e que me ajudam enquanto encho minhas malas com roupas da Penneys (um paraíso de moda acessível).

Os números mostram que cerca de 12 mil brasileiros se mudaram para a Irlanda para estudar inglês em 2022. A Ilha Esmeralda é um destino super atraente. Não só é acolhedor para os jovens (os irlandeses são conhecidos como os ‘brasileiros da Europa’ devido à natureza descontraída e gosto por festas), mas é relativamente fácil estudar inglês no local, com o governo concedendo permissão para trabalhar meio período enquanto estuda.

Expectativa x realidade

Mas a triste realidade é que milhares de brasileiros qualificados não têm um trabalho do mesmo nível de sua escolaridade na Irlanda. Um farmacêutico qualificado do Rio de Janeiro deixou o país europeu exausto de trabalhar simultaneamente em três empregos, de servir mesas a lavar pratos, enquanto frequentava as aulas obrigatórias de inglês todas as manhãs. O grande problema é que ele optou por um programa de idiomas barato e seu professor não era falante nativo de inglês. Depois de dois anos, o seu nível no idioma ainda é básico, impossibilitando-lhe o acesso a empregos na sua área, independentemente das suas qualificações acadêmicas.

Ninguém sabe ao certo quantos brasileiros vivem atualmente na Irlanda. De acordo com estatísticas oficiais irlandesas, havia mais de 27 mil residentes em 2022, 80% deles entre 23 e 43 anos. Já a Embaixada do Brasil em Dublin estimou que poderia haver até 70 mil, mas esses dados não são oficiais.

Embora quatro em cada dez brasileiros que residem oficialmente na Irlanda possuam bacharelado, não há dados que mostram as áreas de emprego destas pessoas. Em 2016, estatísticas oficiais do governo mostraram que mais de um quinto (22%) dos nativos do Brasil que trabalhavam se encaixam no setor de catering (restaurantes, bares e etc), sendo mais de quatro vezes a média nacional do país.

Mas, apesar dos números, nem todos são destinados a empregos que pagam pouco. Quase 10 mil brasileiros receberam autorização de trabalho do governo irlandês desde 2020. A Irlanda tem uma escassez crítica de vários tipos de profissionais e há vistos disponíveis para aqueles que se enquadram em determinadas categorias identificadas pelo governo. Entre as necessidades estão profissionais de TI, engenheiros, arquitetos e profissionais da saúde. A lista é longa e existem oportunidades incríveis com salários elevados. Por que mais brasileiros não aproveitam disso?

Obstáculos e caminhos

O maior erro que muitos brasileiros cometem quando viajam para a Irlanda é escolher o curso de inglês mais barato possível. Muitos estão mais interessados na permissão de trabalho do que na motivação para adquirir fluência no idioma. Não há necessidade de tantos brasileiros ocuparem empregos que pagam pouco na Irlanda, pelo menos não depois de terem aperfeiçoado o inglês. Estudar em uma escola de idiomas de qualidade permitirá que a proficiência seja alcançada com muito mais rapidez e, com isso, avançar na carreira.

Os brasileiros já formados em uma universidade ou curso técnico devem buscar a fluência como objetivo urgente, mesmo que isso signifique pagar um pouco mais por uma boa escola com professores nativos de inglês. Com isso, podem ser considerados para ingressar no terceiro ano de um programa de graduação na Irlanda, ou ingressar em programas de mestrado.

Investir em si mesmo é o melhor caminho ao planejar sua aventura na Irlanda. Encontre as melhores escolas, investigue oportunidades de emprego e entre em contato com as universidades irlandesas. Já se passaram quase setenta anos desde que o jornalista Nelson Rodrigues definiu o ‘complexo de vira-lata’ como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Os brasileiros valem muito mais!

Sobre a autora

Sarah O’Sullivan é diretora da Consultoria SOS Education com sede no Rio de Janeiro.

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