Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
Foi isso que se viu recentemente na cidade de Ceuta. Trata-se de um enclave espanhol no território de Marrocos, do outro lado do mar Mediterrâneo. Embora pertença à Espanha, a cidade localiza-se na margem africana, próxima ao estreito de Gibraltar. Dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria jovens do sexo masculino, cruzaram as águas a nado e desembarcaram em Ceuta. O pânico logo se espalhou, primeiro entre as autoridades espanholas, depois por toda a Comunidade Europeia.
Retorna com força redobrada a temática das migrações sul-norte. Esta rota, na verdade, vinha sendo suplantada pela rota sul-sul, devido às legislações mais duras e intolerantes dos países do hemisfério Norte, de maneira particular nos Estados Unidos e na Europa. As deportações, por sua vez, inibiram ainda mais o sonho do Norte desenvolvido. Daí o aumento crescente dos deslocamentos intrarregionais. Ou seja, migrações no interior da América Latina e Caribe, no interior da África e no interior da Ásia. Por outro lado, com a intransigência e o endurecimento de vários governos de extrema direita acima da linha do Equador, os migrantes passaram a se dirigir sobretudo para as capitais dos países vizinhos, dentro da própria região.
Entretanto, sob as cinzas aparentemente extintas do rumo em direção aos países ricos e centrais, permanecia vivo e aceso o sonho do Eldorado. Como se, a exemplo do magnetismo da bússola, a travessia dos migrantes indicasse naturalmente o Norte. Aliás, a chama do sonho tende a se avivar e se fortalecer diante da pobreza e das desigualdades sociais cada vez mais acentuadas, como também diante das mudanças e crises climáticas extremas.
Enquanto riqueza e renda se concentram, cresce a exclusão social. Surgem milionários e bilionários, de um lado, e pobres indigentes, do outro. A miséria se escancara, agrava-se a fome, o desespero bate à porta. Como a água em ebulição, revolta e sonho fervem nas panelas de pressão e bolsões de escassez nos países pobres. Onde buscar alívio, onde construir o futuro, onde está a saída? Por que não arriscar o destino num território que, apesar de nominalmente europeu, está diante do nariz e dos olhos!?
É evidente que nesse caldeirão buliçoso e fervente, outros interesses se misturaram e se fundiram. A quem interessa desestabilizar a Espanha, em particular, e a Europa, em geral? Ademais, a quem interessa uma travessia arriscada, sim, mas que pode render lucros para os coyotes e traficantes de plantão? Com os sonhos legítimos de jovens e adolescentes, por um lado, e os interesses obtusos e obscuros, de outro, não é difícil criar uma corrente humana praticamente indomável. A conclusão é que, de uma maneira ou de outra, o desejo de vida – e vida sadia, justa e digna – segue movendo os passos dos migrantes. E, com eles, a própria história.
Sobre o autor
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Autor do livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.
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