Cidadãos dos EUA que vivem no Brasil falam sobre a vitória de Trump – e o que fazer a partir de agora

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Bandeira dos EUA no Empire State Building, em Nova York, em noite de nevoeiro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim - mai.2013/MigraMundo

Por Rodrigo Borges Delfim

“O dia 8 de novembro [de 2016] tem algo que quer te ensinar. Você vai ouvir?”

A afirmação, do historiador e missionário Greg Fischer, cidadão dos Estados Unidos que vive no Brasil, mostra o quão complexa é a situação que levou à eleição do republicano Donald Trump ao cargo de presidente do país e o grau de incerteza gerado a partir de então.

Esse cenário que ganha novos elementos a partir desta sexta (20), com a posse do magnata. E uma rápida conversa com cidadãos dos EUA residentes no Brasil (ou seja, imigrantes) ajuda a entender um pouco do que está por trás da temida ascensão de Trump e o que se pode aprender a partir desse episódio.

Vontade de mudanças

Candidato pelo Partido Republicano, Trump foi eleito com o slogan “Make America Great Again” (Fazer a América Grande de novo, em tradução livre), com um discurso baseado em preconceitos, sexismo, políticas e visões xenófobas e de isolamento em relação ao restante do mundo.

Na questão migratória, por exemplo, um dos pilares de sua campanha foi a promessa de construir um muro na fronteira com o México, com o objetivo de barrar o fluxo de pessoas que entram nos Estados Unidos a partir da fronteira com o país vizinho – e fazer com que os mexicanos paguem a conta. Também discriminou muçulmanos, saudou o Brexit (a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia) e acena positivamente para a política do governo israelense de ocupação de territórios palestinos.

Para chegar à Casa Branca, Trump venceu em uma disputa apertada contra Hillary Clinton, que representou o Partido Democrata após uma disputada prévia contra Bernie Sanders. E para o estudante Erik Katovich, que faz intercâmbio no Brasil e acompanhou o processo eleitoral desde as prévias nos partidos, parte da chave para entender o que aconteceu nos Estados Unidos está aí.

“Desde o início das candidaturas, a popularidade de Bernie Sanders na esquerda e de Donald Trump e Ted Cruz (pré-candidato republicano) na direita mostravam que os estadunidenses estavam querendo mudança. Apesar de Obama ter herdado a maior crise econômica do século e ter feito um trabalho razoavelmente bom ao enfrentá-la, o desemprego segue alto, os salários estagnaram e a desigualdade estourava”.

Katovich era apoiador de Sanders porque via a crise econômica enfrentada pelos Estados Unidos como fruto de um sistema capitalista predatório e desumano – e Sanders como alguém com ideias progressistas e inovadoras para combater essa situação. No entanto, segundo ele, outras pessoas no país se sentiam ameaçadas não só pela crise, mas também por mudanças culturais no país como a legalização do casamento gay, o crescimento do debate sobre a chegada de refugiados e questão étnico-racial. “Essas pessoas apoiavam o Trump”, completa Katovich. No entanto, o intercambista precisou se contentar com Hillary, considerada mais moderada por parte dos democratas e, por isso, mais apta a bater Trump na eleição presidencial.

Nascida em Long Beach, Califórnia, e residente no Brasil desde 2014, a estadunidense Samantha Serrano também apoiava Sanders e precisou se contentar com Hillary. “Eu queria Sanders, ele foi absolutamente a melhor opção em termos de políticas e história, mas perdeu [nas primárias democratas]. E entre Hillary e Trump, eu sempre escolheria a Hillary. Trump dava e dá muito mais medo. Não tem experiência alguma na política e quer tratar os Estados Unidos como se fosse uma empresa. Quer tirar as opções públicas de saúde dos Estados Unidos, não acredita no aquecimento global e é abertamente sexista, xenófobo, anti-islâmico, homofóbico e elitista. Votei na Hillary porque ela foi a melhor das opções péssimas disponíveis”.

Apesar do desejo de mudança presente no lado progressista como conservador, a vitória de Hillary matou boa parte do entusiasmo dos democratas apoiadores de Sanders. “Muitos como eu nos resignamos a votar em Hillary porque ela era 100% melhor que a alternativa Trump. Mas não tínhamos entusiasmo. Ela era representante do status quo em um ano em que todos os lados queriam uma mudança radical”, ressalta Katovich.

Ao mesmo tempo, a candidatura Trump canalizava outra legião de descontentes com a gestão Obama. “Trump era tipo um id coletivo que desencadeou todas as coisas feias que as pessoas estavam reprimindo. Todo o ódio, medo, intolerância e racismo. Os apoiadores dele amavam quando ele insultava as elites. Eles não se interessavam com a verdade, ou com fatos, ou mesmo pelas coisas horríveis que o Trump falou. Cada pessoa famosa, cada jornal que o denunciava só deixava ele e esses apoiadores mais felizes. Qualquer pessoa educada, usando argumentos com fatos, era taxada de ‘elite”, explica Katovich.

Fischer, que também votou em Hillary por falta de melhor opção, lembra ainda que a eleição de Trump nos Estados Unidos não é um caso isolado. E cita a ascensão de forças conservadoras e populistas em outros países, como o Duterte nas Filipinas e o maior espaço dos partidos nacionalistas em países europeus.

“A tendência é global, e nos Estados Unidos estamos sujeitos às mesmas tribulações enfrentadas por outros países. Isso significa que nós, como um país propenso a promover o “Excepcionalíssimo Americano”, não somos diferentes ou melhores que o resto do mundo. Produzimos um candidato que encarna esta tendência [populista e conservadora]. O mundo está passando por uma mudança fundamental”.

Hora de refletir e agir

A eleição de Trump deixa uma série de incertezas no ar – que podem até mesmo ser agravadas de acordo com as decisões que o magnata tomar à frente da Casa Branca.

“Qualquer cenário em que penso não é bom. Já escutei histórias de amigos que passaram por experiências sexistas, racistas e anti-imigrantes desde a eleição por causa de apoiadores de Trump. Não dá para fugir do racismo e do sexismo no país. As pessoas sentem que têm permissão total para serem ignorantes, racistas, anti-LGBT e sexistas. Não é que a situação era boa antes, mas demos muitos passos para trás”, lamenta Samantha.

Katovich lembra que cresceu nos Estados Unidos com amigos de diversos países e em uma família que ensinava a importância de escutar aos outros e se colocar no lugar outro antes de qualquer julgamento, mas sentiu essa visão abalada após a vitória de Trump. “Aprendi na noite do dia 8 de novembro que cresci, talvez, numa ilusão. Aprendi que meus vizinhos preferem ódio e medo a amor e solidariedade”.

Apesar do sentimento de decepção e de incerteza, a eleição de Trump deixa lições valiosas e o aprendizado a partir delas precisa ser colocado em prática o quanto antes. Um deles é o de passar da lamentação para refletir e agir.

“Nós podemos não compreender o que motivou quase metade dos Estados Unidos a votar no Trump, e é bem fácil reduzir as ações ao escárnio. Mas em vez de lamentar o resultado ou a situação, saia e descubra por que outras pessoas estão sofrendo em vez de dissimular. Vamos aprender a ver através dos olhos do outro”, opina Fischer.

Passar à ação e defender as causas nas quais acredita é também a visão de Katovich, apesar da decepção com a eleição de Trump. “Enfrentaremos quatro anos na defensiva. Vamos ter de lutar cada dia para proteger os direitos e progressos alcançados nos últimos anos. Será duro e longo. Ao final, o racismo e a xenofobia, o ódio e o medo são instrumentos usados pelos dominadores para nos dividir e enfraquecer. Acho que o melhor jeito de sanar o país será mostrar que nossos valores de inclusão e igualdade persistem mesmo em momentos assim”.

A partir desta sexta-feira, 20 de janeiro de 2017, essa luta ganha novos capítulos. E todo o suporte é bem vindo, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar.

Leia também: Com a vitória de Trump nos EUA, novos muros se levantam; e é preciso se preparar para agir

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