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sábado, fevereiro 24, 2024

Cinco países correm o risco de sumir por conta das mudanças climáticas; veja quais são

Casos exemplificam o caráter crítico dessas alterações no planeta e suas consequências, que já incluem deslocamentos forçados

Por Maria Eduarda Matarazzo

O que Maldivas, Tuvalu, Ilhas Marshall, Nauru e Kiribati têm em comum? Além de serem ilhas ou arquipélagos, esses cinco países podem se tornar inabitáveis ou simplesmente desaparecerem territorialmente até 2100.

Essa previsão foi feita em 2021 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. De acordo com a entidade, o nível do mar já aumentou entre 15 cm e 25 cm desde 1900 e a tendência é que suba cada vez mais em menos tempo.

Desde então, a situação só se agravou, o que faz com que a projeção sombria fique cada vez mais concreta e próxima. Pelo menos 600 mil pessoas podem se tornar refugiados climáticos em razão do aumento do nível dos oceanos sobre esses países.

O MigraMundo preparou uma lista na qual fala um pouco mais sobre o risco vivenciado por essas nações e o que tem sido feito (ou não) para mitigar os efeitos das mudanças climáticas em cada um deles.

Vale ressaltar que a lista de áreas sob forte risco no mundo em razão das mudanças climáticas é bem mais extensa e inclui grandes metrópoles ou mesmo capitais em todo o mundo. Em fevereiro de 2023, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que 900 milhões de pessoas em todo o mundo estão ameaçadas pela elevação do nível dos oceanos.

Esses cinco países abaixo exemplificam o caráter crítico dessas alterações no planeta e suas consequências.

Tuvalu

Formado por um conjunto de nove ilhas no meio do Oceano Pacífico e com apenas 11 mil habitantes, Tuvalu tem sido citado como o primeiro país que pode perder completamente seu território para o Oceano Pacífico. Seu ponto mais alto está a apenas cinco metros acima do nível do mar.

A população vem se adaptando às mudanças climáticas há algum tempo, porém a situação atual é crítica, uma vez que as áreas de plantio vem diminuindo com a invasão da água salgada e a pesca não atende as necessidades da população.

Em 2021, durante a COP 26, o ministro Simon Kofe fez um discurso impactante, gravado de dentro do mar, evidenciando os efeitos imediatos das mudanças climáticas em seu país. Aliás, desde a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2009 (COP 15) que Tuvalu vem instando os países em desenvolvimento a assumirem o compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Podendo ser o primeiro país a sumir por completo, Tuvalu anunciou uma ação curiosa em 2023: a intenção de se tornar a “primeira nação digital do mundo“. Para tal, quer “digitalizar” para o “metaverso” desde a configuração física das ilhas até as danças tradicionais dos moradores. E mais, que digitalmente, a população participe das eleições.

“À medida que a nossa terra desaparece, não temos outra escolha além de nos tornar a primeira nação digital do mundo. Nossa terra, nosso oceano e nossa cultura são os bens mais preciosos do nosso povo. Para mantê-los protegidos de danos, não importa o que aconteça no mundo físico, iremos movê-los para a nuvem”, informou o governo.

Além disso, Tuvalu também assinou um acordo com a Austrália para receber os refugiados climáticos tuvaluanos que devem perder suas terras no futuro.

Maldivas

O pequeno país na Ásia Meridional composto por 1190 ilhas é um destino turístico muito requisitado por pessoas do mundo todo. Porém, cientistas preveem que 80% do país esteja submerso até 2100, uma vez que essa porcentagem do arquipélago está apenas um metro acima do nível do mar.

Desde 2008 o país já vem adotando medidas para lidar com as mudanças climáticas. Inicialmente, a ideia era comprar terras em outros lugares para que seus cerca de 500 mil cidadãos pudessem ser realojados caso as ilhas ficassem submersas. Entretanto, esse plano deu lugar a uma estratégia que consiste em construir empreendimentos urbanos flutuantes, como a ilha artificial chamada de Hulhumalé, localizada a aproximadamente 8 km da capital, Malé.

O projeto visa resolver questões sociais e ambientais nas Maldivas, como a dispersão dos habitantes pelo arquipélago e uma taxa de desemprego entre os jovens superior a 15%, conforme relatório de 2020 do Banco Mundial.

A nova ilha está programada para abrigar até 240 mil pessoas, visando reduzir a superlotação em Malé. O processo de aterramento marítimo contínuo, utilizando milhões de metros cúbicos de areia do fundo do oceano, elevou a ilha a mais de 2 metros acima do nível do mar, proporcionando resiliência ao menos temporária diante dos desafios ambientais enfrentados pela região.

Além disso, as Maldivas enfrentam desafios relacionados à erosão costeira, o que ameaça 70% de sua infraestrutura. Há também preocupações com a invasão da água salgada do mar, a contaminação de fontes de água doce e o risco de desastres naturais imprevisíveis. O arquipélago foi um dos afetados pelo tsunami de 2004, por exemplo, que gerou destruição e mortes em países da Ásia e da África.

Cidade flutuante nas Maldivas, uma das alternativas buscadas pelo país para lidar com o aumento do nível do oceano. (Foto: Maldives Floating City/Dutch Docklands)

Nauru

Também conhecido como menor país insular do mundo, Nauru é mais uma nação da Oceania ameaçada de desaparecer neste século. O país possui cerca de 12 mil habitantes em uma uma área de apenas 21 km². Para se ter uma ideia, é uma porção de terra um pouco maior do que o município de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, com 15,3 km².

Nauru está entre as nações menos visitadas do mundo, sendo que a pesca, o mergulho e a natação são as principais atividades exercidas no país. A água potável e a maioria dos alimentos da ilha são obtidos por meio de de importações.

Na década de 1970, Nauru começou a arrecadar milhões de dólares com a exportação de fosfato para todo o mundo, chegando a atingir a segunda renda per capita do planeta. Porém, na década de 1990 o recurso esgotou-se e o país foi abandonado pelas indústrias. Como resultado, veio um empobrecimento generalizado da nação, que atualmente tem o segundo menor PIB do mundo (ficando atrás apenas de Tuvalu).

Vale ressaltar que hoje Nauru também é o país com maior sobrepeso do mundo. Ao todo, 94% da população possui sobrepeso e o diabetes afeta 66% das pessoas com 55 anos. Existem várias teorias para o crescimento dessas doenças no país, porém as duas mais conhecidas são de que com a pobreza promovida pelo fim da exploração de fosfato o sobrepeso virou status social. Ou seja, quem tem condições de obter comida come em excesso; e a outra é de que o processo de aculturação, além do terreno, minou a cultura de um povo que abraçou o estilo de vida (que promoveu o sedentarismo) e a alimentação ocidentais.

Como orgulho nacional recente, Nauru ficou conhecido como um dos únicos locais que não registrou casos de Covid-19.

Vista aérea da ilha de Nauru, um dos menores países do mundo. (Foto: Wikimedia Commons)

Ilhas Marshall

Constituído por mais de mil ilhas no Oceano Pacifíco, localizada na Oceania, as Ilhas Marshall formam um dos menores países do Mundo, com apenas 181 km² e cerca de 42 mil habitantes, segundo o Banco Mundial. A economia é pouco desenvolvida e depende de ajuda financeira de países como os Estados Unidos. A agricultura local consiste no cultivo de coco, mandioca e batata. O setor industrial é restrito aos segmentos alimentício, vestuário e naval.

O país ficou muito conhecido nos anos de 1950 quando os Estados Unidos utilizaram dois atóis, Bikini e Enuetak, para testes nucleares. As explosões aconteceram com uma potência devastadora 100 vezes superior à da bomba atômica de Hiroshima. O impacto resultou no aumento significativo da temperatura da água, além de desencadear a formação de uma cratera com 2 quilômetros de diâmetro. Isso culminou na transformação do país em uma das regiões mais contaminadas por radioatividade em todo o mundo. Até os dias atuais o governo americano se recusou a reparar os danos causados.

Entre 1977 e 1980, os EUA armazenaram materiais radioativos, incluindo areia, lodo e solo irradiado, em uma estrutura de concreto chamada Runit Dome, localizada em Enewetak Atoll. Esta estrutura também abriga contaminantes de testes clandestinos de armas biológicas norte-americanas. Conhecida como a “Tumba”, a Runit Dome foi negligenciada pelos EUA ao longo do tempo. Um relatório de 2019 do Los Angeles Times revelou que a estrutura está vazando devido ao aumento da maré e a falta de monitoramento e manutenção adequados. Esses vazamentos têm causado danos ecológicos significativos ao redor da Ilha de Runit, incluindo branqueamento de corais, morte de peixes e florescimento maciço de algas.

Com o aumento gradativo da maré e os problemas de radioatividade da região, o deslocamento dos habitantes das Ilhas Marshall deve ocorrer logo. Porém, nenhuma autoridade se propôs a fazer um plano ou abrigar as pessoas que precisam deixar o arquipélago.

Vista de uma das ilhas que compõem as Ilhas Marshall, outro país ameraçado seriamente pelas mudanças climáticas. (Foto: Pexels)

Kiribati

Também na Oceania, Kiribati compreende 33 ilhas e atóis coralinos, totalizando 726 km², próximo das Ilhas Marshall, Ilhas Cook e Tuvalu. Com uma população de 100,8 mil habitantes, enfrenta ameaças de tornar-se inabitável devido ao aquecimento global e aumento do nível do mar, tornando-o vulnerável a inundações.

A economia é pouco desenvolvida, com um PIB de US$ 130 milhões, concentrando-se em setores como alimentos, produtos químicos, móveis, vestuário e exploração de fosfato. Kiribati é um dos países mais remotos e vulneráveis às mudanças climáticas, enfrentando impactos na saúde devido a doenças transmissíveis, não transmissíveis e efeitos ambientais.

O país experimenta aumento de temperatura, tempestades, erosão, seca e inundações. Em 2022, declarou estado de emergência devido à seca, afetando o acesso à água potável. A carga de doenças é elevada, com altas taxas de tuberculose, hanseníase, diabetes e mortalidade infantil.

A localização remota de Kiribati dificulta a oferta de cuidados de saúde abrangentes, agravada pela escassez de profissionais médicos qualificados. Muitos migraram para oportunidades no exterior, impactando ainda o fornecimento de medicamentos e suprimentos médicos essenciais.

Inundação em South Tarawa, capital de Kiribati. País está ameaçado de desaparecer devido às mudanças climáticas
Inundação em South Tarawa, capital de Kiribati. País está ameaçado de desaparecer devido às mudanças climáticas. (Foto: Humans of Kiribati)

A situação em Kiribati é grave a ponto de Ioanne Teitiota, um nacional do arquipélago do Pacífico Sul, ter pedido refúgio na Nova Zelândia, onde vive desde 2013. Ele alegou ter sido forçado a migrar devido à situação instável que a elevação do mar tem causado em sua terra natal, levando ao desaparecimento de ilhas e inviabilizando a atividade econômica em outras.

O pedido acabou negado pela Nova Zelândia e o caso chegou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, que se manifestou sobre a questão em janeiro de 2020. O Comitê concordou com a decisão neozelandesa de não conceder o refúgio, sob o argumento de que há tempo hábil para reverter as consequências das mudanças climáticas em Kiribati. E que, portanto, Ioanne não correria risco iminente de vida.

No entanto, este entendimento do Comitê gerou um precedente importante na abordagem dos deslocamentos forçados: a de que degradações ambientais causadas por mudanças climáticas e desenvolvimento insustentável constituem grave violação aos direitos humanos. O Comitê da ONU ainda declarou que “sem esforços nacionais e internacionais robustos, os efeitos das mudanças climáticas nos estados podem expor os indivíduos a uma violação de seus direitos desencadeando assim as obrigações de non-refoulement (não-devolução) dos Estados”.

Embora decisões elaboradas pelo Comitê da ONU não possuam força legal, especialistas consideraram que ela estabelece um importante precedente global na questão dos deslocados por questões climáticas.

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