Com ascensão do Taleban, ONU pede acolhimento e proteção a refugiados e deslocados do Afeganistão

Na comunidade internacional, ONU e ativistas pedem acolhida aos deslocados e refugiados do Afeganistão; governos vão do aceno positivo à indiferença

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Avanço do Taleban causa deslocamentos forçados no Afeganistão e, potencialmente, refugiados em outros países. (Foto: Edris Lutfi/ACNUR)

Por Lya Maeda e Rodrigo Veronezi

A tomada de Cabul pelo grupo extremista Taleban, no último domingo (15), e sua volta ao poder após 20 anos, colocou nas manchetes da imprensa internacional e nas falas de líderes mundiais uma situação que já se desenhava pelo menos há meses. Segundo dados do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), pelo menos 400 mil pessoas já foram deslocadas internamente no Afeganistão desde o começo deste ano. 

Essa população vai se somar às cerca de 2,9 milhões de pessoas que já estavam deslocadas internamente ao final de 2020, de acordo com a agência das Nações Unidas. Parte desse grupo já tentava cruzar a fronteira com países vizinhos, como o Paquistão e o Irã, em busca de proteção internacional.

Uma população especialmente vulnerável é a de mulheres, que sob o regime anterior do Taleban (1996-2001) tiveram diversos direitos básicos negados, como o de obter uma educação e trabalhar. As mulheres e crianças respondem por nada menos que 80% do total de deslocados no país desde maio, segundo o ACNUR.

Apelos das Nações Unidas

“O ACNUR exorta a comunidade internacional a aumentar urgentemente seu apoio para responder a esta última crise de deslocamento do Afeganistão”, disse a agência em comunicado à imprensa.

A esse coro se soma um dos mais conhecidos exemplos de restrição de direitos a mulheres promovido pelo Taleban, o da ativista política Malala Yousafzai. Ganhadora do prêmio Nobel da Paz, ela foi baleada na cabeça pelo grupo extremista quando regressava da escola para sua casa, em 2012, quando tinha apenas 15 anos de idade. 

“Assistimos em completo choque enquanto o Taleban assume o controle do Afeganistão. Estou profundamente preocupada com as mulheres, as minorias e os defensores dos direitos humanos. As potências globais, regionais e locais devem exigir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis”, escreveu a ativista por meio do Twitter.

Segundo a rede de TV AlJazeera, o Taleban anunciou uma “anistia” aos funcionários do agora antigo governo afegão e chamou as mulheres a também fazerem parte da nova administração – o que é visto, no mínimo, com desconfiança pela comunidade internacional, a partir do histórico do grupo extremista.

As cenas de pessoas que lotaram o aeroporto de Cabul na tentativa de deixar o país em algum dos aviões enviados por outros países para retirar seus cidadãos são apenas um exemplo do caos e da incerteza espalhados pelo Afeganistão.

Em discurso proferido na segunda-feira (16), o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu a todos os países para que estejam dispostos a receber refugiados afegãos, bem como que não procedam com sua deportação. “Nós não podemos, nem devemos abandonar a população do Afeganistão”.

Respostas de governos

O presidente da França, Emmanuel Macron, não pareceu ouvir as palavras de Guterres. Em pronunciamento na Segunda, ele afirmou que o país “deveria se antecipar e se proteger dos fluxos migratórios irregulares ‘que viriam do Afeganistão”. A fala fez o político ser comparado com Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa e notória defensora de políticas xenófobas – o que chegou a figurar nos Trending Topics do Twitter.

Outros governos, por outro lado, mostraram uma postura – ao menos por enquanto – mais sensível à questão afegã. O Canadá anunciou que vai receber 20 mil afegãos em um programa de reassentamento, mas sem especificar como ou quando. Já a Câmara Municipal de Lisboa, capital de Portugal, se colocou à disposição para receber pessoas do país asiático.

No entanto, considerando o influxo de pessoas que já tentam deixar o país, é necessário que mais governos demonstrem interesse e disposição política em abrir suas fronteiras aos afegãos, decisão ainda mais difícil considerando a atual pandemia da Covid-19.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que está monitorando a situação do Afeganistão e afirmou que não tem registro de brasileiros vivendo no local do conflito. Não há, até o momento, qualquer movimentação pública da chancelaria brasileira quanto ao acolhimento de pessoas do Afeganistão.


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