Com luta pelo direito ao voto, migrantes se juntam à sociedade no pedido de nova Constituinte

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O Plebiscito Popular pela Constituinte mobilizou milhões de pessoas em locais de votação físicos e virtuais espalhados por todo o Brasil. E as comunidades migrantes também tomaram parte no processo, endossando o desejo de mudança do sistema político brasileiro e incluindo a reivindicação do direito ao voto.

Neste fim de semana, as urnas disponibilizadas na rua Coimbra (sábado) e na praça Kantuta (domingo) – ambos locais de São Paulo conhecidos pela concentração de imigrantes – tiveram como objetivo tanto colher adesões ao plebiscito quanto servir de nova etapa para a campanha Aqui Vivo, Aqui Voto. Nos dois dias era possível notar filas junto às urnas.

Os números oficiais do plebiscito sairão em breve, assim como o balanço da participação dos imigrantes na consulta popular.

Público vota em urna instalada na rua Coimbra, em São Paulo. Crédito: Paulo Illes
Público vota em urna instalada na rua Coimbra, em São Paulo.
Crédito: Paulo Illes

“Brasileiro ou estrangeiro, a luta é igual”

Tanto brasileiros natos como imigrantes de diversas origens e descendentes diretos tomaram parte na votação. Em comum, o desejo de expressar a vontade de ver um país melhor e com um novo sistema político – sistema esse que inclua os imigrantes no processo eleitoral. O país é o único da América do Sul a não permitir o voto do imigrante.

“Seja brasileiro ou estrangeiro, a luta é igual. Creio que está na hora de mudar. Os parlamentares que aí estão não trabalham para o povo. Os imigrantes também estão dizendo que junto com o sistema político se coloque também o direito ao voto”, diz Carmelo Muñoz Cardozo, brasileiro de origem boliviana e argentina e presidente da Associação de Residentes Bolivianos (ADRB).

Urna do plebiscito na praça Kantuta. Independente da origem, público presente fez fila para prestar apoio à consulta. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Urna do plebiscito na praça Kantuta. Independente da origem, público presente fez fila para prestar apoio à consulta.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Cardozo cita ainda como exemplo outros países do continente americano, nos quais já se permite a participação imigrante nas eleições oficiais. “Na Argentina se vota, nos Estados Unidos se vota – e lá a comunidade hispânica até ajuda a eleger presidentes. Se aqui trabalhamos e vivemos, estamos ajudando a construir essa grande nação”, completa.

Boliviana de nascimento, a dubladora Monica Rulo destaca o plebiscito como forma de expressar esse desejo de mudança e de ser reconhecido como parte da sociedade. “Se nós não lutamos, não vamos conseguir nada. E o plebiscito é uma ferramenta que ajuda tanto o brasileiro como o imigrante a expressar a vontade de mudar a Constituição, do imigrante ter direito ao voto. Os imigrantes também são parte do Brasil”.

“Todos queremos ver um Brasil melhor”

Embora a praça Kantuta e a rua Coimbra sejam locais tradicionais da comunidade latino-americana em São Paulo (especialmente a boliviana), brasileiros e imigrantes de outras partes do mundo também reforçaram o coro por mudanças na política e nas leis do país, permitindo que todos aqueles que vivem no Brasil, independente da origem, possam participar oficialmente das decisões no país.

Dentre as pessoas que tomaram parte na votação ontem está a estudante italiana Francesca Cosentino, que faz um chamado direto e permanente à própria comunidade. “Acho importante que todos participem. Não são só imigrantes da América Latina, mas também tem imigrantes da Europa, África, Haiti… os italianos também têm de participar, por exemplo. Não podemos e não temos que ficar fora disso”.

Plebiscito Popular pela Constituinte mobilizou todo o país na primeira semana de setembro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Plebiscito Popular pela Constituinte mobilizou todo o país na primeira semana de setembro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

O programador brasileiro Gunther Aleksander também prestou apoio ao plebiscito. Ele acredita que a votação representa uma maior abertura do Brasil para outros povos, mas vai além. “Também sou a favor de um mundo sem fronteiras, que não  tenha Estados nacionais brigando entre si”.

A tecnóloga em automação industrial Carolina Fernández vê o plebiscito como consequência direta de outro acontecimento recente no país, os protestos de junho de 2013. “É a nossa forma de responder, mostrando nossa vontade de mudar. servindo como resposta da sociedade às promessas não cumpridas naquela época.”

Carolina é brasileira de nascimento, mas sua família tem raízes no Chile, Peru e Bolívia. Seus pais não podem votar e ela gostaria de ver um país no qual eles também pudessem tomar parte no processo eleitoral. “Todos nós queremos um Brasil melhor, então todos os que estão vivendo aqui têm direito ao voto”.

Para relembrar

O ato deste fim de semana se junta a outras manifestações ocorridas neste ano relacionadas à participação dos migrantes na sociedade brasileira.

Em 31 de março deste ano, as comunidades migrantes de São Paulo se mobilizaram em torno da eleição de representantes para os Conselhos Participativos municipais. O pleito elegeu 20 imigrantes de 13 diferentes nacionalidades.

Saiba como foi a eleição para os Conselhos Participativos

Veja quem foram os imigrantes eleitos

A participação expressiva serviu como recado à sociedade brasileira, mostrando o interesse dessas comunidades em fazer parte também do processo oficial – era possível ver filas de pessoas ao longo do dia esperando para votar. Mas também muitos dos migrantes presentes deixaram claro que a votação aos conselhos era um primeiro passo em direção ao direito pleno do voto.

Existe ainda no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 347, de autoria do deputado Carlos Zarattini (PT-SP), que prevê a possibilidade de imigrantes votarem e serem votados no Brasil.

 

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