Como brasileiros no exterior reagiram às falas de Bolsonaro sobre migração

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Viver no exterior não deve ser empecilho para que o brasileiro opine sobre seu país. Crédito: Arquivo/Agência Brasil

MigraMundo ouviu tanto brasileiros que residem nos EUA como em outros países

Por Rodrigo Veronezi e Victória Brotto
Em São Paulo e Estrasburgo (França)

Em visita oficial aos Estados Unidos nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro deu declarações polêmicas a respeito de imigrantes brasileiros que vivem em situação indocumentada no país.

Durante entrevista à emissora FoxNews em Washington nesta terça (19), Bolsonaro afirmou que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer fazer o bem ao povo americano”. Pouco depois, afirmou a jornalistas brasileiros que “cometeu um equívoco“.

As declarações de Bolsonaro ganham peso diante do tamanho da comunidade brasileira no país – estimada em pelo menos 1 milhão de pessoas – e no grande apoio que o presidente recebeu dela nas eleições de 2018 – no 2º turno, Bolsonaro levou nada menos que 81% dos votos, segundo o TSE.

No dia anterior, o filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, já havia feito o mesmo movimento de crítica e recuo sobre imigrantes. Primeiro, afirmou que “imigrantes brasileiros em situação ilegal eram “uma vergonha nossa”. Pouco depois, contemporizou: “A declaração foi para dizer que o Brasil tem responsabilidade com seus nacionais e não vai ficar permitindo que brasileiros entrem, facilitando, melhor dizendo, a entrada de brasileiro em qualquer lugar que não seja da maneira legal”, disse o deputado.

Alinhado política e ideologicamente com o presidente dos EUA, Donald Trump, Bolsonaro é defensor notório de medidas mais duras em relação às migrações. Na visita a Washington, Bolsonaro elogiou o endurecimento da política migratória de Trump e defendeu a construção de um muro na fronteira do país com o México.

Também durante a visita, Bolsonaro anunciou de forma unilateral a isenção de visto de turista para cidadãos dos EUA, Canadá, Japão e Austrália, sob o argumento de fomentar o turismo no Brasil. Estes países, no entanto, em princípio continuarão a exigir visto de entrada dos brasileiros.

Em janeiro, ainda em sua primeira semana de mandato, Bolsonaro ordenou a saída do Brasil do Pacto Global para a Migração, costurado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como uma forma de se buscar soluções globais para a temática migratória. O país havia firmado o compromisso semanas antes, ainda sob o governo de Michel Temer.

A saída do Brasil do Pacto já foi considerada um elemento que fragiliza o poder de negociação do país na defesa de seus cidadãos no exterior.

“Estamos acostumados a defender nossa comunidade da perseguição, discriminação e da xenofobia do governo norte-americano. Nós nunca pensaríamos que precisaríamos defender os brasileiros do governo brasileiro. Nós exigimos um pronunciamento do Congresso brasileiro. Vergonha é os brasileiros preferirem viver indocumentados nos Estados Unidos porque o Brasil não cria condições para que vivam dignamente em seu próprio país”, disse em nota o Grupo Mulher Brasileira, que atua na região do Estado de Massachusetts – que concentra boa parte da comunidade brasileira no país.

Repercussão

Nas redes sociais, as ações de Bolsonaro dividiram os brasileiros. As falas fizeram com que pessoas que discordam do posicionamento do presidente usassem a hashtag #BolsonaroEnvergonhaOBrasil; ao mesmo tempo, seus apoiadores se manifestaram com #BolsonaroOrgulhaOBrasil. Ambas figuraram entre os Trending Topics do Twitter ao longo do dia.

Entre os brasileiros ouvidos pelo MigraMundo nos EUA não foi diferente.

“O buraco é bem mais fundo e envolve outras questões além do turismo. Essas questões devem estar bem definidas antes de qualquer coisa. Analisar a política de outros países é fundamental pra entender o processo”, afirmou a arquiteta Millene Noca, residente da cidade de San Diego (Califórnia) desde 2008. ”O Canadá, por exemplo, tem uma política muito legal para quem é de fora, mas isso não significa que estão com livre acesso. Só é um processo diferente dos EUA”, acrescentou Noca.

“Eu sou brasileira e norte-americana, sempre tento olhar os dois lados das coisas. No papel e nas promessas tudo é muito fácil. Na vida real tudo é sempre bem diferente”, acrescenta a corretora Tatiana Valadares, que vive Sarasota, no estado da Flórida.

Para Valadares, o controle migratório implementado pelo governo dos EUA não tem a ver com preconceito, racismo ou perseguição, mas sim com segurança. “São as laranjas podres no meio desta fruteira toda que causam estas precauções necessárias e infelizmente elas existem e sempre vão existir”.

No entanto, para ela a real vergonha é o Brasil não oferecer condições dignas para sua população, levando-a a buscar melhor qualidade de vida fora do país. “Eu me arrisco dizer que a maioria deles nunca teria vindo se o Brasil tivesse mais condições de vida e se o trabalho duro deles fosse mais reconhecido.”

A pesquisadora Ana Cernov, mestre em Ciências Sociais e militante do Coletivo Por Um Brasil Democrático de Los Angeles, afirma que a política migratória dos EUA – mais restritiva sob o governo Trump – dificulta nesse processo de regularização.

“Ninguém quer ser indocumentado, porque isso traz uma série de vulnerabilidades para seu dia-a-dia. Certamente todos prefeririam estar com seus vistos em dia, mas os EUA caminham no sentido contrário”, afirmou a pesquisadora. ”O governo norte-americano não abre oportunidades para que as pessoas possam ajustar seus status legal. Além disso, precisamos lembrar dos custos desse processo”, acrescentou.

Para Alvaro Lima, pesquisador da Boston Planning and Development Agency e estudioso da comunidade brasileira nos EUA, há uma divisão entre os brasileiros no país em relação ao status migratório.

“Aqui há uma divisão grande entre alguns imigrantes brasileiros de classe média com visto ou naturalizados, brancos, que se acham diferente do que eles chamam de esta gente, ou seja os brasileiros de classe trabalhadora, muitos indocumentados”.

Lima é um dos autores do livro “Brasileiros nos Estados Unidos – Meio século (re)fazendo a América (1960 – 2010)”, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão – vinculada ao Itamaraty – e disponível para download gratuito – baixe aqui.

Para o empresário Guilherme Tigan, 29 anos, Bolsonaro ”não tem a menor ideia do que se passa” nos EUA.

”Como eu não vou querer o bem de um povo que me acolheu? (E vejo muito dos meus amigos brasileiros com o mesmo pensamento)”, afirmou. ”Ao invés de não querer o bem, na verdade, nós nos sentimos em dívida por todas as oportunidades que nos são dadas por aqui”, acrescentou Guilherme, que mora hoje em San Diego, no estado da Califórnia.

Guilherme tenta sanar essa dívida fazendo ”o seu melhor no país que o acolheu. ”É mais ou menos como funciona, sendo você brasileiro ou norte-americano”, explicou ele, que disse não ter se ofendido com o comentário de Bolsonaro. ”Comentar de fora é muito fácil”.

Já Marina de Abreu, 32 anos, advogada no estado da Flórida , concorda com o presidente Jair Bolsonaro.”A fala de Bolsonaro retrata o que acontece na Flórida frequentemente”, afirma ela.

” Algumas pessoas chegam para melhorarem sua própria vida, adquirir renda e desfrutar de tudo o que o Estado oferece. Mas poucos pensam em projetos que realmente agregue valor ao país que escolheram morar”, acrescenta, ligando esses migrantes a uma filosofia de vida do ”se dar bem custe o que custar”.

Para a advogada, os migrantes brasileiros indocumentados ”entram indevidamente nos EUA para usufruir sem compromisso”. ”No meu ponto de vista, prazer sem responsabilidade inclusive fiscal não soa justo nem agradável à nenhuma nação.”

Na Europa

As declarações de Bolsonaro também geraram reações em brasileiros que vivem em outros países.

“O conceito racional da fala do presidente não faz sentido”, afirmou Suedemborg Franco, 36 anos, engenheiro que mora na Suiça. ”Como engenheiro, você não pode afirmar algo sem ter dados e fatos. Baseada em quais critérios e fatos históricos essa afirmação foi feita?”.

Para ele, a fala não faz sentido porque ”o imigrante que sai de seu país o faz para buscar algo melhor”, o qual ele só conseguirá ”se não fizer nenhum mal à comunidade/sociedade na qual ele está se inserindo.”

O consultor Tales Rosa, morador da capital Riga (Letônia), vê a fala do presidente do Brasil como ”um aceno político que espelha os cumprimentos que Trump faz a ditadores mundo afora.”

”Instruído sobre o público que assiste FoxNews, Bolsonaro quis ganhar pontos com a audiência do canal e com Trump. Soa mais como afago ao mandatário americano e menos como convicção política”.

Já para Camila Nobling, moradora na Alemanha há mais de 15 anos, “a fala de Bolsonaro pode ser definida com muitas palavras, mas nenhuma positiva”. Ela critica ainda o fato das declarações virem poucos dias após um atentado terrorista matar 50 pessoas em mesquitas no sul da Nova Zelândia – motivado por questões de ódio e xenofobia que encontram eco em políticas e declarações como as do presidente brasileiro.

“É muito perigoso tratar a imigração de forma tão negativa [como faz Bolsonaro] dias depois que o ódio engendrou um massacre a essa população.”

Em Berlim, o administrador de sistemas de informática na área financeira, Dimas Souza, 41 anos, chama o discurso de Bolsonaro de ”facada nas costas” que o deixou ”profundamente ofendido”.

”Não consigo entender qual o objetivo dele em proferir tal frase. Ele obviamente não refletiu que isso poderia trazer consequências negativas para seus compatriotas vivendo legalmente nos EUA”, afirmou. Para ele, ser estrangeiro já é algo difícil. E ter de ”aguentar tal discurso do representante do país é quase uma violência.”

  

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