Comunidade africana repudia comentário de Ana Maria Braga sobre comida queniana

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No último dia 27 de abril, no programa Mais Você da Rede Globo, a apresentadora Ana Maria Braga e o jornalista Thiago Oliveira, em atitudes discriminatórias e xenófobas; comunidade africana como um todo reagiu.

Alex André Vargem*

“Quando se diz que não há preconceito, mas se julga pela aparência, ainda que seja o alimento, fica escancarada a limitação de enxergar que o bom da vida é ser e provar do diferente. Quando se fala em sua própria descontração, mas se usa de escárnio, fica configurado o desrespeito e o preconceito. Tolo é aquele que não percebe que o bonito da vida é saber enxergar, conhecer e provar o diferente e, sobretudo, respeitar, especialmente todos os seres humanos, independentemente de suas origens”, reflete o moçambicano João Adriano Mucuapera, Diretor Cultural da Bibli-ASPA, referente ao episódio da culinária africana discriminada em rede nacional na última semana.

No último dia 27 de abril, no programa Mais Você da Rede Globo, a apresentadora Ana Maria Braga e o jornalista Thiago Oliveira, em atitudes discriminatórias e xenófobas, debocharam da culinária africana, em especial, produzida pelo camaronês Chef Sam, residente no Brasil. Ele possui um restaurante na zona leste da cidade de São Paulo e foi convidado a apresentar a culinária típica do Quênia em rede nacional, comida que fornece os nutrientes necessários aos atletas quenianos, muitos dos quais, corredores e campeões de inúmeras maratonas esportivas ao redor do mundo.

Ao provarem o ugali, comida feita a base de água e farinha, acompanhado de um molho, culinária presente também nos diversos países da África e que pode receber outros nomes como gauli, gima, fufu, ubugali, Ana Maria Braga e o jornalista Thiago Oliveira, debocharam do ingrediente, o formato, a densidade e as cores das especiarias. No momento de iniciar a degustação, Ana Maria Braga disse aos risos, “Vamos juntos, pois se a gente passar mal, a gente passa mal juntos”. O jornalista Thiago reforçou, “Boa sorte, Ana! Qualquer coisa eu também te amo e a gente se vê algum dia”, numa alusão de que iriam morrer ao comer o ugali. Quando experimentaram, era externalizada a zombaria, “É feio, hein”, declarou Ana Maria Braga. “Não tem gosto de nada, é farinha e água”, disse aos sucessivos risos, “está difícil de engolir”. Ao comentar do livro Nuvem de Terra, do jornalista esportivo Plácido Berci, primeiro correspondente brasileiro esportivo no Quênia, a apresentadora continuou a desprezar a culinária africana, ”Espero que gostem da viagem, é melhor que o ugali”, ambos deram gargalhadas.

A reação as falas preconceituosas foram imediatas. O Chef congolês Pitchou Luambo do restaurante Congolinária, iniciou um movimento de apoio ao Chef Sam e a contestação ao programa Mais Você. Ele fez um vídeo já visto por milhares de pessoas, criticou firmemente a discriminação. Ressaltou a ignorância, o racismo e a xenofobia dos apresentadores e sobretudo, que era uma matéria elaborada no qual o Chef Sam foi convidado a colaborar de forma gratuita para a valorização da cultura africana no Brasil. “Isso foi para tentar humilhar ele em rede nacional, humilhar a nossa cultura! Se fosse essas comidas que vocês comem todos os dias da culinária europeia, vocês fariam isso?”, indaga Pitchou Luambo.

Como forma de apoio, a jornalista congolesa, Claudine Shindany, que participou no ano de 2019 junto dos seus parentes do Famílias Frente a Frente, programa de culinária exibido no SBT, conduzido pelo apresentador Tiago Abravanel, apresentou na época o prato típico do seu país, o fufu, a base de água e farinha, como o ugali, elogiado pelo apresentador e o júri participante. Como resposta, ela fez um vídeo direcionado a apresentadora Ana Maria Braga, “Crescemos comendo esta comida. Sua atitude foi muito preconceituosa. Você sabe o quanto a mídia tem influência numa sociedade, numa comunidade? Você falando isso, sabe quantas pessoas você ofendeu? Você tem que pedir perdão na comunidade africana em geral”, reforça.

Numa atitude pedagógica para se compreender as características do prato africano, a ativista e modelo congolesa Prudence Kalambay, fez uma live no último fim de semana, no qual mostrou como se faz o fufu e rechaçou os comentários depreciativos expostos em rede nacional, ”Quando soube da atitude da Ana Maria Braga e do Thiago Oliveira eu fiquei muito triste e por isso, hoje, eu fiz uma receita para algumas pessoas que não sabem do que se trata. Esta comida não mata. Eu nasci e cresci comendo está comida”, e crítica “De novo a mídia, num momento em que estamos lutando pela empatia, pela solidariedade. A Globo é assistida no mundo inteiro”, lamenta Prudence.

Em outro vídeo, organizado pelo escritor angolano João Canda, fundador do LiterÁfrica, diversos profissionais africanos residentes no Brasil participaram e repudiaram o preconceito da Ana Maria Braga e do jornalista Thiago Oliveira. Participaram a jornalista Rudmira Fula (Angola), o estilista Maycon Clinton (Angola), o artista plástico Fabrício Dom (Angola), a advogada Hortense Mbuyi(República Democrática do Congo), o especialista em geopolítica Prosper Dinganga (República Democrática do Congo), o escritor Isidro Sanene(Angola), o Diretor Cultural do Bibli-ASPA, João Adriano Mucuapera (Moçambique), o modelo BiapaBakeu (República dos Camarões), a modelo Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), todos se posicionaram frente ao absurdodas falas que desprezaram a culinária e a cultura africana. “Na televisão brasileira está recheado de apresentadores xenófobos, racistas e preconceituosos e simplesmente um pedido de desculpas, basta! Ana Maria Braga, num país que conhece a sua história, num país que valoriza a sua memória, num país que respeita a sua cultura, você e tantos outros seriam demitidos, consideradas pessoas nocivas ao bem comum. Vocês não entenderam, mas o recado está dado por profissionais, artistas, produtores culturais e empreendedores africanos. A nossa comida, a nossa cultura africana é tão bonita e saudável, assim, como a natureza a nossa volta. A nossa África, a nossa voz!”, reflete João Canda.

No contexto em que o movimento Black Lives Matter “Vidas Negras Importam”, ganhou uma dimensão global por conta do assassinato do afro-americano George Floyd por um policial branco, fato que impulsionou no último ano uma conjunção de temas ligados ao combate ao racismo estrutural no país e no mundo, algumas instituições do setor público, privado, do terceiro setor representado pelas ONGs, refletiram, ainda que a revelia, a representatividade e o protagonismo de mulheres e homens negros no âmbito de suas instituições.

A grande mídia concedeu um mínimo de espaço para aprofundar a temática racial negra e a resistência antirracista, num país cuja maioria da população é de 56%, mas ainda sub-representada em diversos setores da sociedade, principalmente em cargos de decisão. Considerando também que no Brasil, a multiplicidade de temas referentes aos países africanos na grade televisiva diária é quase nula. Tudo isto aconteceu no contexto da pandemia de Covid-19, que atenuou diferenças econômicas entre os extratos sociais e que alguns viram no empreendedorismo uma forma de manter alguma renda familiar, incluindo os imigrantes e refugiados, entre os quais, aqueles que vendem comidas típicas.

Grupo de Estudos das Relações Étnicos Raciais e o Serviço Social, composto por assistentes sociais afro-brasileiros, fizeram nota de repúdio ao caso. ( Crédito: Arquivo pessoal)

De acordo com Lúcia Udemezue, cientista social e ativista pela causa imigrante, filha de nigeriano e pesquisadora da área de culinária afro afetiva pelo projeto Flor de Obi. “Em um momento em que estamos dando visibilidade as pautas sobre o combate ao racismo estrutural e enfrentando os séculos de desinformação sobre a cultura africana, fundante do nosso país e que não está presente nas escolas e muito menos na mídia, assistimos uma cena constrangedora onde um prato tradicional do Quênia, base de fortalecimento nutricional de atletas é apresentado de forma desrespeitosa e com deboche, fortalecendo ainda mais o preconceito e imagem negativa que a mídia insiste em empregar as pautas sobre os países africanos. O agravante é colocar em xeque a qualidade deste alimento feito por um chefe de renome e de referência quando se trata de restaurantes que servem comidas típicas africanas”, enfatiza.

A cientista social ainda comenta das contradições da emissora em incentivar o empreendedorismo e por outro lado, a forma objetiva de discriminar imigrantes africanos empreendedores ao vivo em plena rede nacional e internacional, “Em uma contradição enorme, a emissora promove e incentiva o empreendedorismo nos intervalos de seus programas, porém foi capaz de promover essa tragédia transmitida em rede nacional e para países internacionais, desestimulando um público que poderia ser estimulado a conhecer a rede de empreendedores imigrantes da comunidade africana que investem na área da culinária.  Foi um acontecimento muito grave e que deve ter uma retratação pública”, aponta Lúcia Udemezue.

Consternado, o Chef Sam encontra-se na África por conta do falecimento de sua irmã, divulgou em suas redes sociais um comunicado, “Muito obrigado a todos vocês. Eu entendi a indignação de todos. Mas na vida Deus fala para aprender e perdoar. Eu sei que todos têm o seu ponto de vista. Mas obrigado a todos os comentários e a sua força, seu tempo para escrever uma palavra para mim”. Ele aguarda um pedido de desculpas pública por parte da apresentadora e do jornalista, “Thiago me ligou para me pedir desculpas, eu falei que aceito suas desculpas se ele vai falar isso para o público que está bravo com a atitude dele. Ana Maria deve fazer isso também, pedir desculpas a vocês, povo brasileiro. Então, estamos aguardando a desculpa de vocês!”, conclui.

A reação ao episódio vergonhoso também veio por parte de grupos que se manifestaram sobre a atitude racista e xenofóbica, como o Grupo de Estudos das Relações Étnicos Raciais e o Serviço Social (GERESS), composto por profissionais assistentes sociais, mulheres e homens afro-brasileiros. Eles fizeram uma nota de repúdio ao caso, com atenção aos estereótipos a serem superados e a necessidade do universo da cultura africana, rica e pujante ser valorizada no país. Cobram uma retratação por parte da apresentadora e do jornalista.

“Vale ressaltar que o Estado Brasileiro é signatário de tratados internacionais e documentos  importantes como a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos e outros instrumentos jurídicos importantes, além de conter no seu ordenamento jurídico pátrio, leis que definem os crimes resultantes de preconceito, raça ou cor (Lei 9.459/1997) e o Estatuto da Igualdade Racial – Lei (12.288/2010) que versa sobre o combate à discriminação racial e às demais formas de intolerância étnica.

Como enfrentamos as variadas formas de discriminação no âmbito do racismo estrutural, lutamos por uma sociedade justa, democrática, na busca de uma equidade social e racial. É de suma importância uma retratação pública da apresentadora Ana Maria Braga e do jornalista Thiago Oliveira frente aos acontecimentos que discriminaram e atingiram toda uma coletividade”, finaliza a nota de repúdio.

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*Alex André Vargem – Sociólogo – Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp. Desenvolve trabalho social junto às comunidades africanas no Brasil há mais de 20 anos.

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