Comunidade armênia de São Paulo mantém luta global pelo reconhecimento de genocídio

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Grupo protesta em São Paulo em frente ao Consulado da Turquia, em São Paulo. Crédito: Lya Amanda Rossa

Em atos, filmes e exposições, armênios e descendentes lutam pelo reconhecimento do genocídio sofrido no século passado. Eles também chamam a atenção para outros genocídios recentes e em curso no planeta

Por Lya Amanda Rossa
De São Paulo (SP)

“Nesse exato momento, pelas redes sociais, o mundo inteiro está sabendo que estamos aqui. São 102 anos de luta. O significado da gente estar aqui é um compromisso não só com a luta da Armênia, mas com as nações que sofrem. Conversávamos há pouco a respeito dos refugiados, o mundo hoje, como acontecem as coisas na Síria. Nós que somos descendentes de refugiados temos que prestar a nossa solidariedade.  Todos nós saímos de Aleppo, todos nós passamos por Aleppo, direta ou indiretamente. O leste europeu estava cheio de armênios refugiados, que esperavam um mês por um prato de comida.” Assim foi dado início ao Ato pelo Reconhecimento do Genocídio Armênio em frente ao Consulado-Geral da Turquia em São Paulo, 102 anos depois.

A fala do professor James Onnig Tamdjian, professor da FACAMP, descendente e militante da causa armênia, situa o contexto de luta mundial por reconhecimento do primeiro genocídio do século XX, com protestos que ocorreram em diversos países e também em São Paulo, no último dia 26 de abril.

Placas dos manifestantes durante ato em São Paulo pelo reconhecimento do genocídio armênio.
Crédito: Lya Amanda Rossa

“Há 12 anos atrás, quando o genocídio completava 90 anos, as novas gerações descendentes de armênios, de terceira e quarta geração, perceberam que o tema passou para os livros, e não mais no campo político. E ao passar para os livros, existe uma passividade em relação a esse assunto, então um grupo de jovens passou a se mobilizar”, explica o professor. O primeiro ato realizado em São Paulo ocorreu em 2005 e contava com apenas sete pessoas, mas a adesão do ato deste ano levou cerca de cem pessoas à praça Califórnia que cantavam, entoavam palavras de ordem e situavam a importância do acontecimento na atualidade, mesmo sob uma chuva tipicamente paulistana.

O calendário de atividades em protesto pelo aniversário do Genocídio Armênio também contou com um flash mob de sensibilização na Avenida Paulista, no dia 9 de abril, organizado pela Juventude Armênia de São Paulo, além de celebrações religiosas e de uma procissão ao Monumento em Homenagem aos Mártires Armênios, na Praça Armênia.

“Essa geração começa a lutar para que outros genocídios não aconteçam. O caráter humanista da manifestação é, antes de mais nada, contra o governo turco negacionista. Mas mais do que isso, é para que a população do mundo todo saiba que por causa do não reconhecimento do genocídio armênio, outros genocídios aconteceram – o holocausto judeu, a mortandade no Camboja, o massacre em Ruanda, na Bósnia, e o que acontece hoje na Síria. Se a Comunidade das Nações na Primeira Guerra Mundial tivesse tomado uma atitude mais consistente para prevenir os genocídios, talvez o mundo fosse outro hoje, talvez o mundo seria diferente”, ponderou o professor Onnig.

Grupo protesta em São Paulo em frente ao Consulado da Turquia, em São Paulo.
Crédito: Lya Amanda Rossa

A atualidade da discussão e reconhecimento do genocídio armênio é inegável no panorama mundial contemporâneo, em que guerras, medo, migrações e controle de fronteiras são temas que estão na ordem do dia. O resgate e a luta pelo reconhecimento do genocídio armênio é também tema do filme  “A Promessa”, que estreia em 11 de maio em todo o Brasil. Em entrevista para o Sunday Times, o diretor do filme, Terry George, afirma que os refugiados de hoje são recebidos com ódio, e que o objetivo do filme é despertar os espectadores para o fato de que eles não são diferentes dos armênios ou das “massas amontoadas” de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos nos séculos passados, em referência ao poema inscrito na base da Estátua da Liberdade. A arrecadação da exibição do filme será destinada a organizações de direitos humanos no Sudão do Sul e em outros países do mundo, e a divulgação do filme também alerta para a situação do Mianmar e da Síria.

Armênios em São Paulo

A diáspora armênia cruzou o mundo e chegou ao Brasil em busca de uma vida nova. Parte dessa história ainda deixa marcas na cidade de São Paulo e também em cidades vizinhas, como em Osasco. Lá, degustando uma esfiha de queijo com bastermã, iguaria típica Ian, pude conhecer um pouco melhor a hospitalidade e a importância da memória no restaurante Dozza, estabelecimento familiar que funciona desde 1956. O local, ornado com fotos turísticas da cidade de Yerevan, capital armênia, estava lotado de clientes, que eram cumprimentados de mesa em mesa, recebendo  detalhes sobre os pratos e a melhor forma de saboreá-los.

O guia turístico da visita, Elias Luiz Kurkdjian, um descendente armênio de 4ª geração, me acompanhou dando relatos emocionados sobre a sua visita ao país em dezembro 2016, quando cruzou por terra a fronteira de Noordoz, entre o Irã e a Armênia, e próximo do Narquichevão, uma República Autônoma do Azerbaijão. Ao cruzar a pé pela cidade de Agharak, sem um roteiro pré-determinado e procurando um lugar para passar a noite, trocou mímicas com um russo que o levou até Meghri. “Fiquei hospedado em uma cidadezinha cercada por montanhas, na casa de uma senhora que era exatamente igual a minha avó, descendente de armênios e que nasceu no Brasil. Apesar de não podermos nos comunicar em nenhum idioma, eu compreendia exatamente tudo o que ela me dizia”.

Restabelecer a conexão com as origens é desejo de muitos imigrantes e seus descendentes, que ao retornarem para visitar o país, encontram fragmentos de um passado afetivo, narrado por seus familiares. A busca desse passado é também tema da exposição “O Poder Do Vazio – Conversando com as Pedras na Armênia Histórica”, que segue até 27 de junho na Imã Foto Galeria e tem entrada franca. O autor das obras, o fotógrafo Stepan Norair Chahinian, fotografou diversas partes do país e de seu antigo território que hoje pertencem à Turquia. O retorno aconteceu em busca de uma memória pessoal: um recado deixado pelo bisavô de Norair aos seus irmãos, após terem realizado um pacto de que caso se separassem ao fugir, o primeiro a retornar à antiga casa deixaria uma mensagem informando para onde teria emigrado. A mensagem fotografada está na exposição, e revela que o escrevente havia emigrado para Alepo, na Síria. Se o bisavô de Norair partiu para o Brasil, muitas famílias hoje partem também da Síria para cá, fazendo com que a história se repita.

Sobre o panorama atual de migrações no mundo, perguntei ao professor James Onnig sua opinião. “Eu sou brasileiro, sou armênio, sou baiano, sou paulista, e tudo cabe num coração grande… Eu não posso esquecer de nenhuma dessas lutas”, disse. “Eu acho que o hoje o mundo está preparado para um outro estágio, porque na verdade nós precisamos abrir as fronteiras, e não fechá-las. Há uma necessidade enorme de solidariedade. Eu sou geógrafo e fui aluno do Milton Santos [famoso geógrafo brasileiro], e como ele dizia, precisamos de uma outra globalização. Que não seja uma globalização do dinheiro, da mercadoria, mas a globalização da solidariedade, do amor, da saúde. Não são palavras de palanque, são palavras que precisam ser efetivadas e é por isso que nós estamos aqui. Discursos xenófobos, radicais, discursos misóginos, discursos de todo o tipo que estão circulando por aí podem se transformar num perigo enorme. A questão dos refugiados para nós é muito importante, porque nós somos netos de refugiados. Eles eram feirantes, eram mascates, eles não vendiam nas lojas das fazendas dos ricos fazendeiros.”, ponderou Onnig, situação que também podemos observar entre muitos dos refugiados e imigrantes hoje, que trabalham com venda de mercadorias nas ruas, como “novos” mascates.

Onnig prosseguiu: “Nós fomos amparados pelo trabalhador do campo, pelos operários das fábricas, então nós não podemos esquecer dessa realidade. Nós fazemos parte do povo, e isso faz com que nós tenhamos uma consideração enorme pelo caso dos refugiados, que nos obriga a ser solidários, por compromisso moral e ético, porque eles precisam da nossa ajuda também.”

Exposição “O Poder do Vazio”, de Stepan Norair Chahinian (até 27/06).
Local: Ímã Foto Galeria – Rua Fradique Coutinho, 1239 – Vila Madalena, São Paulo (SP)
Horário: Segunda à sexta, das 10 às 20h; sábados, das 10 às 17h
Entrada franca
Informações: clique aqui

Assista o trailer do filme “A Promessa”, com estreia no Brasil em 11/05/2017

 

 

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