Comunidade nigeriana em SP faz ato em solidariedade à situação no país de origem e pede #endSARS

Centenas de nigerianos residentes em São Paulo foram às ruas mostrar apoio à mobilização global #endSARS, que pede o fim da violência policial no país e conta com o apoio de celebridades

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Ato de solidariedade em São Paulo frente a atual situação política na Nigéria (Foto: Alex Vargem)

Por Alex André Vargem*

Cerca de 300 nigerianos, mulheres e homens, se mobilizaram e caminharam pelas ruas do centro de São Paulo na tarde da última sexta (23) para prestar solidariedade a atual situação política e social da Nigéria, país mais populoso do continente africano, com mais de 200 milhões de habitantes. Com cantos e exibição de cartazes eles pediam a reforma do sistema de segurança nigeriano, no caso, a extinção do SARS – Special Anti-Robbery Squad (Esquadrão Especial Anti-Roubo). Clamaram também pelo fim dos assassinatos e demais violências na Nigéria, fizeram homenagens aos mortos, além de se posicionarem com mensagens pela liberdade, igualdade e justiça com críticas à atuação do governo nigeriano.

“Este ato em São Paulo e as diversas manifestações no mundo, são formas de expressão da solidariedade aos povos nigerianos que são vítimas das forças de segurança do governo nigeriano. Houve um massacre que aconteceu em 22 de outubro no qual 80 vidas foram perdidas nas mãos de seus soldados, os militares mataram manifestantes desarmados e isso aconteceu em muitas partes do país onde manifestantes são controlados ou mortos”, destaca o nigeriano Joseph Obioma, residente no Brasil.

Os atos foram motivados por um conjunto de protestos que têm mobilizado os povos nigerianos pelo mundo nas últimas semanas, depois que um vídeo circulou mostrando um homem sendo espancado, aparentemente por policiais do SARS, no qual há denúncias que seus agentes atuam sem identificação e cometem diversos abusos como torturas, assassinatos, incluindo violações contra mulheres.

O Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, anunciou nos últimos dias no canal SkyNews, que havia dissolvido o polêmico SARS e pediu aos manifestantes que parassem de se manifestar e se engajar contra o governo. A declaração não surtiu efeito, e nigerianos que residem na Nigéria e em outros países, como o Brasil, protestaram contra a atual situação no país.

Nigerianos em São Paulo pedem a reforma e fim da brutalidade policial na Terra Natal (Foto: Alex Vargem)

O movimento #endSARS

Desde 2017 um movimento chamado #endSARS pede o fim da unidade especial da polícia nigeriana. Durante os protestos dos últimos dias na Nigéria, segundo organizações internacionais, dezenas de pessoas morreram e centenas ficaram feridas por conta do uso da força do governo nigeriano que atirou contra a população.

A Anistia Internacional publicou um relatório em junho deste ano (acesse aqui) sobre as arbitrariedades, torturas e assassinatos provocados pelos policiais ao longo dos anos.

“A força do #endsars acabou com o Esquadrão Especial Anti-Roubo, e o nome mudou agora para SWAT, o que significa que são as mesmas pessoas. Estamos clamando pelo fim do SARS, fim do golpe, fim da má governança”, aponta Obioma.

Ato de solidariedade dos nigerianos em São Paulo. Pelo fim da violência na Nigéria (Foto: Alex Vargem)

Pressão internacional

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, condenou a força excessiva e desproporcional das forças armadas nigerianas na região de Lekki, localizada no Estado de Lagos (onde também fica a cidade homônima, a maior da Nigéria.

Bachelet alertou as autoridades nigerianas a tomar medidas urgentes para lidar de forma decisiva com o problema de violações persistentes cometidas pelas forças de segurança, e fazer um esforço muito mais forte para trazer a polícia e o pessoal do exército culpados de crimes contra civis à justiça, no qual destacou o “uso excessivo de força, resultando em mortes ilegais com munição real pelas forças armadas nigerianas” contra manifestantes na cidade de Lagos.

Solidariedade a atual situação da Nigéria em São Paulo (Foto: Alex Vargem)

Petições públicas foram criadas para pressionar o governo nigeriano a recuar e tomar uma posição. A International Organization for Peace Building and Social Justice, criou na plataforma norte-americana Change, uma petição que já conta com mais de 40 mil assinaturas, com o intuito de pressionar o presidente Muhammadu Buhari, que ele ponha um fim aos assassinatos.

Ato em São Paulo de solidariedade a atual situação política na Nigéria. (Foto: Alex Vargem)

Há pressão também em outros países como o Reino Unido, por parte do Parlamento Britânico, que realiza uma petição pública que já tem o apoio de mais de 215 mil assinaturas, cujo objetivo é de que haja sanções contra o governo nigeriano por violar os direitos humanos dos seus cidadãos.

Já a Plataforma CitizenGo, sediada em Madri (Espanha) contabiliza quase 50 mil assinaturas e almeja a reforma da polícia nigeriana.

Ato em São Paulo – Homenagem aos mortos na Nigéria (Foto: Alex Vargem)

Apoio de celebridades

Celebridades do mundo esportivo e da música se posicionaram nos últimos dias, aderindo a #endsars em suas plataformas digitais.

O piloto inglês e hexacampeão mundial da Fórmula 1, Lewis Hamilton, que vem apoiando mobilizações sociais como Black Lives Matter, estava com uma camiseta estampada com a mensagem #endSARS no último final de semana, quando disputou o GP de Portugal.

Também aderiram ao movimento global contra a violência na Nigéria as cantoras pop Beyoncé e Rihanna; Odion Ighal, jogador de futebol do Manchester United; e Anthony Joshua, boxeador inglês campeão mundial dos pesos-pesados, entre outros.

Tal apoio amplifica as diversas situações vivenciadas pelos nigerianos no país de origem e criticam a posição do governo nigeriano no uso excessivo da força.

Sobre o autor

*Alex André Vargem é doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro da Cátedra Sérgio Vieira de Mello – Unicamp, com mais de 18 anos de trabalho social junto a diversos grupos africanos no Brasil.


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