Conflito no Iêmen desloca milhares de pessoas em ”pior catástrofe humanitária mundial”

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Abrigos para deslocados em Khamer, na província iemenita de Amran. Crédito: OCHA/Philippe Kropf

ONU alerta Conselho de Segurança para risco de cólera entre 300 mil novos deslocados; relatório internacional prevê cenários sombrios para o país

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Um milhão de deslocados, 14 milhões de pessoas sob o risco de fome, 6.872 civis mortos e 10.768 feridos. Esses são os números divulgados pelas Nações Unidas e pela ONG The Human Rights Watch sobre a situação no Iêmen engendrada pelo conflito armado entre forças separatistas, anteriormente lideradas pelo ex-presidente Ali Abdullah Saleh, e forças militares do atual governo aliadas à Arábia Saudita, aos Estados Unidos e reconhecidas pela comunidade internacional.

O conflito já dura cinco anos (desde 2014) e foi chamado pelas Nações Unidas de “pior catástrofe humanitária do mundo”. No último dia 20 de agosto, o enviado especial da ONU ao país, Martin Griffiths, falou ao Conselho de Segurança da ONU (órgão máximo da entidade com poder de decisão sobre possíveis intervenções militares).

Presente na sessão, a secretária-geral assistente para os Assuntos Humanitários, Ursula Mueller, disse que 300 mil deslocados estão sob o risco de um surto de cólera devido às interrupções de serviços de água e saneamento.

”A fragmentação do Iêmen está se tornando uma ameaça mais forte e dramática”, alertou o enviado especial Griffiths, dizendo ”não haver tempo a perder” nas negociações pela paz (Leia aqui a declaração em português ) .

Griffiths destacou as frustrações ao longo das negociações, como por exemplo a não-chegada de aviões com ajuda humanitária, apesar da reabertura do aeroporto de de Sanaa, negociada por meses, além da necessidade de incluir grupos separatistas do sul nas discussões.

Violações de direitos humanos

As violações de direitos humanos no Iêmen foram tema de um relatório (leia aqui em inglês e português) da ONG The Human Right Watch.

Tais violações incluiriam prisão, tortura e estupro de migrantes, bloqueio de ajuda humanitária, além de violações de leis de guerra, incluindo prisão de jornalistas e bombardeios aéreos mirando a população civil.

De acordo com a HRW, as bombas usadas nos bombardeios foram vendidas por países como o Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.

”O conflito armado tem um terrível impacto na população civil. Bombardeios aéreos desproporcionais matam milhares de pessoas e objetos civis violando assim as leis de guerra, usando munições vendidas pelos Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e outros, incluindo armas proibidas como bombas clusters”, denuncia o relatório baseado em práticas flagradas em 2019.

As bombas cluster (ou bombas de fragmentação) são armas que, quando disparadas, se abrem e dispersam. Assim, criam centenas de munições menores, ampliando seu poder de alcance e atingindo uma área equivalente a diversos campos de futebol, segundo a Coalizão de Munições Cluster (CMC, na sigla em inglês).

“O uso dessa munição foi documentado 18 vezes no Iêmen e, em duas delas, analistas constataram que a procedência das armas era brasileira”, disse à BBC Brasil Maria Laura Canineu, diretora da Human Rights Watch no Brasil.

Perspectivas sombrias

Um estudo feito em parceria entre a ONU e a Universidade de Denver (Colorado, EUA) prevê ao menos 102 mil novas mortes decorridas do conflito. Divulgado no início deste ano, o relatório “Analisando os efeitos da guerra sobre o desenvolvimento do Iêmen” aponta ainda que o impacto do conflito ”é pior do que o imaginado”. Leia aqui a versão em inglês.

De acordo com o estudo, o número total de mortes causadas direta (confrontos) ou indiretamente (doenças, deslocamentos, etc) é de 233 mil pessoas, ou 0,8% da população iemenita – de 30 milhões de habitantes.

”É um dos conflitos internos com maior impacto desde o final da Guerra Fria, comparável aos do Iraque, Serra Leoa, Libéria e República Democrática do Congo – conflitos que impactaram o desenvolvimento local por gerações”, afirmou Jonathan Moyer, professor responsável pela pesquisa.

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