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sábado, maio 25, 2024

Conhece-te a ti mesmo, no país de origem e no país de destino

O que uma ferramenta da psicologia conhecida como Janela de Johari pode contribuir com Global Mobility, no sentido de conhecer melhor a si e o local para onde está indo

Por Danyel Andre Margarido

Um dos mais conhecidos – e repetidos – aforismos da história é o socrático “Conhece-te a ti mesmo”, o qual não foi dito por Sócrates, mas se faz presente na sua história e causa comoções até hoje.

A mente humana ainda tem muito a ser visto, e muito mais a ser estudado. Conhecer a si mesmo é um desafio ainda maior, com tanto acesso a informação que está disponível na palma das nossas mãos – qualquer assunto está à um clique de distância, o que é maravilhoso. Mas, com tanto barulho, às vezes (quase sempre) é dificil ouvir a própria voz.

Mas o barulho a nossa volta é realmente de todo mal? Além de ouvirmos nossa própria voz, é imporante ouvir o que nos rodeia, para saber se estamos no lugar certo, se estamos com as pessoas certas, se estamos no tempo certo, e se estamos no país certo – sim, conhecer a si mesmo impacta na Mobilidade Global.

Conhecer a si mesmo é importante, inclusive, para se proteger de modas que podem ser danosas, como a moda do “o que eu compro no mercado de Lisboa com apenas 10 Euros” que vende uma imagem de facilidade quase inexistente na mudança para outro país. E ter idéia dos vários “eu” que nos compõem pode ser uma importante ferramenta no alargamento de horizonte que é o processo de expatriação.

Lidando com vistos, e em como sou visto

Muito em um processo de expatriação ocorre ao mesmo tempo. Isso em qualquer tipo de expatriação, desde a expatriação forçada, como em um processo de Refúgio, como uma expatriação eletiva, como um processo de Mobilidade Global; muitos temas acontecem ao mesmo tempo, e a perda de controle é igualmente rápida. Nas expatriações eletivas ainda há o luxo do tempo, pois, por mais que algum dos vários temas aconteçam paralelamente, pode-se refazer algum passo em caso de erro…

Por se tratar de um processo que lida com muitas demandas, será necessário trabalhar em seu autoconhecimento antes da expatriação começar, uma expatriação se inicia muito antes da aplicação do visto. Isso por que um processo como esse demandará da pessoa expatriada, e das pessoas que a acompanham, muito tempo e dedicação, muita atenção a temas diferentes, tanto externos como internos.

Conhecer a si mesmo fará com que você saiba se é o momento certo de mudar para outro país, ou se é uma pressão externa que não reflete seus planos de carreira e de vida. Isso pois, expatriar alguém não é somente um processo profissional, mas um processo de vida.

A Janela de Johari

Em paralelo aos processos administrativos referentes em que a expatriação acontece, uma ferramenta simples pode ajudar no autoconhecimento, impulsionando o processo de Mobilidade Global, e ajudando na aclimatação e na experiencia do expatriado: a Janela de Johari.

Trata-se de uma ferramenta criada em 1955, desenvolvida pelo psicólogo americano Joseph Luft (“Jo”) e pelo psicólogo inglês Harry Ingham (“Hari”), usada para ajudar as pessoas a aumentar sua autoconsciência e melhorar sua comunicação e relacionamentos interpessoais.

É uma “Janela”, pois é representada por uma grade dividida em quatro quadrantes, cada um dos quais representa diferentes aspectos da autoconsciência e da comunicação interpessoal. E como uma ferramenta de autoconhecimento (e comunicação) pode ser aplicada na Mobilidade Global pois mudar para um novo país envolve mudanças significativas na vida pessoal e na vida profissional, o que afeta a autoconsciência e o relacionamento com os outros, sejam esses os que ficaram no país de origem, os que acompanharam na expatrição e as pessoas que passam a ser parte da vida do expatriado.

A Janela de Johari pode ajudar os indivíduos a entender como essas mudanças afetam seu conhecimento de si mesmo e a forma como eles interagem com os outros.

Todos nós concordamos nisso.

O primeiro quadrante (vidraça?) desta janela é chamada de Eu Aberto. A Janela de Johari conta com quatro “Eu”, e o primeiro fala, essencialmente, sobre o que Eu conheço e o que os Outros conhecem. As características que todos os envolvidos em qualquer tipo de relacionamento vêem ao mesmo tempo. É a área em que a pessoa está disposta a compartilhar informações sobre si mesma com os outros, e onde há uma comunicação aberta e transparente.

Quando se muda de país, a primeira coisa que aparece em uma relação nova é que o expatrtiado é um estrangeiro. E, dependendo da cultura, isso pode ser interpretado de muitas formas, e, às vezes de maneira não tão positiva. É um alerta para que a empresa, através do Advisor de Mobilidade Global, possa ter uma abordagem próxima ao expatriado e sua família, pois há de se facilitar a transição do expatriado – eles sempre serão estrangeiros, é verdade – mas podem estar mais inseridos na nova cultura, navegando melhor sobre as diferenças culturais e fazendo com que, apesar de serem estrangeiros, sejam recebidos no novo espaço, e recebam das pessoas que de lá são naturais.

O Expatriado e cada membro da família estão em um novo território, até então desconhecido – ou, antes, somente conhecido do ponto de vista do turismo – e saber abrir essa nova janela, por assim dizer, para o desconhecido, traz uma melhor experiência na expatriação. A Expatriação é uma possibilidade de se expor para outros mercados e novas experiências, é necessário saber quem é você e tudo o que compõe sua personalidade.

E você não me contou?

A segunda parte da Janela de Johari é o  Eu Cego, que representa informações sobre uma pessoa que os outros conhecem, mas a pessoa em questão não tem consciência. Em outras palavras, é a área em que a pessoa pode ter comportamentos ou características que são óbvias para os outros, mas que ela não percebe em si mesma.

Há de se tomar cuidado para que, quando se olha pela Janela, não entender que essa parte dá o direito de trazer fofocas ou “feedbacks” não solicitados à pessoa. Mas entender que há impressões e características que passamos à outras pessoas sem que percebamos, ou, mesmo que, do nosso ponto de vista, nem saibamos que assim somos percebidos.

Algumas características ou ações somente são percebidas pelos outros – e como o Homem não é uma ilha – em meio a uma sociedade vamos deixar impressões em outras pessoas que não conseguimos identificar em nós mesmos sozinhos.

Em uma mudança de país, de cultura, podemos ser inundados pelo novo, e parar de prestar atenção em características comuns ao nosso dia a dia, em nosso país de origem, que, no país de destino, sobressaem acima de todo o resto. Para um brasileiro, tocar alguém para chamar a atenção é normal, para outras culturas ser tocado por desconhecidos pode ser visto como uma invasão de espaço pessoal.

Essa segunda parte da Janela é percebida muitas vezes no dia-a-dia da expatriação, quando se ainda está na descoberta do novo território, onde o expatriado escuta um comentário sobre algo que lhe é comum, mas que para os nativos do país de destino é algo novo: um costume, uma maneira de falar algo, uma percepção… 

O jeito franco de um estadounidense, por exemplo, pode ser visto como invasivo em uma cultura asiática. Para o estadounidense é algo que não é perceptivel, mas seus colegas asiáticos podem levar este estilo como uma afronta. Sem espaço para comunicação, essa situação pode evoluir para uma ferida, e, comentários que minam a relação para todas as partes (neste momento as empresas de treinamento intercultural são lembradas, o que já pode ser tarde, infelizmente.).

Ainda, um ponto simples e pouco discutido – e por isso cabe neste Eu – é que o expatriado pouco sabe sobre o custo da expatriação, então algumas situações, como pedidos além da cobertura da Política, perante a empresa podem ser pesados com a balança do custo, ao invés da balança da necessidade, e cabe ao Global Mobility advisor ser estratégico nesta gestão.

Agora você vê, agora você não vê mais

A terceira parte da Janela de Johari, o Eu Oculto, representa informações sobre uma pessoa que ela não compartilha com os outros e que os outros também não têm conhecimento. Em outras palavras, é a área de pensamentos, sentimentos, medos, desejos ou informações pessoais que a pessoa mantém em segredo.

É nesta parte da janela que está o sucesso de uma expatriação, pois é nela que está (ou, pelo menos deveria estar) o motivo pelo qual o expatriado aceitou a oferta de Mobilidade Global da empresa. Seja para garantir uma educação melhor para os filhos, seja para ter mais bagagem cultural, seja para apostar na carreira, é no Eu Oculto que se encontram.

O importante é que, na Mobilidade Global, os interesses do expatriado (e os interesses de sua família), estejam alinhados com o interesse da empresa, se não congruentes, para que ambos possam extrair o máximo desta jornada.

Ainda, é nesta área que podem se esconder problemas pessoais do expatriado, como alguma dificuldade na adaptacão ou a saudade, e a relação do expatriado com o seu Advisor de Mobilidade Global deve estar no mesmo tom, justamente para que ações possam ser tomadas, e possíveis problemas possam ser evitados.

Mapa não é território

A ultima parte da Janela de Johari pode soar misteriosa, com o nome de Eu Desconhecido, mas é a parte que representa as informações que não são conhecidas pelo expatriado nem pelos outros. Essa área inclui sentimentos, pensamentos, habilidades ou traços de personalidade que ainda não foram explorados e descobertos.

O potencial humano está nesta parte da Janela, pois aqui estão as habilidades que ninguém conhece, e precisam ser exploradas. E é neste estado que se inicia a expatriação. Com habilidades, sentimento, e tantas outras coisas que serão descobertas durante a expatriação. O expatriado e sua família, seja a que o acompanha seja a que o espera no país de origem, acabam tendo que lidar com tantas situações novas, que acabam se desenvolvendo de maneiras diferentes.

É nesta área da Janela que as empresas apostam. Quando enviam alguém para outro país enviam para o desenvolvimento pessoal e/ou o desenvolvimento das pessoas que receberão este profissional. Lideram com equipes com estilos de trabalho diferentes, gestão a distância, assíncrona, e outros percalços que acabam resultando no crescimento dos envolvidos.

Claro, é aqui que as empresas (e o expatriado) precisam investir tempo e recursos, com cursos e experiências que exponham o profissional ao novo – não só a uma nova localização, mas a um novo jeito de trabalhar, de modo que a empresa e o profissional cresçam juntos. Resultando na movimentação do que se descobre no Eu Desconhecido para os outros Eus da Janela de Johari.

Dentro da Janela de Johari, um dos principais alvos é que o Eu Aberto seja o mais abrangente possível, em que todas as características pertencentes à pessoa sejam vistas por todos – não de uma maneira expositória – de modo que estejam cientes do que está acontecendo e de onde são capazes de contribuir.

A expatriação é o momento onde várias stakeholders fazem um investimento, além do financeiro, para que se veja o seu retorno. E quanto mais o expatriado investir no seu autoconhecimento, trazendo cada vez mais características, conhecimentos, desejos, temperamentos, experiências para o Eu Aberto.

Conhece-te a ti mesmo antes de embarcar na Jornada da Expatriação, aprendendo a movimentar o que está oculto e o que vocë muitas vezes não consegue ver para onde todos possam ver, sabendo lidar com o desconhecido. O advisor de Mobilidade Global precisa saber ver tais questões na população sob a sua responsabilidade, atuando de maneira estratégica em situações que possam vir a trazer algum dano ou alguma experiëncia ruim para o expatriado e sua família, auxiliando no movimento até o Eu Aberto do expatriado.

Sobre o autor

Danyel Andre Margarido possui mais de dez anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na EMDOC, e fundador da Altiore Experience. Atualmente no setor de Global Mobility do Prysmian Group, já realizou a movimentação de mais de 2.000 famílias pelo mundo. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito. Tem MBA em Recursos Humanos, pela Anhembi Morumbi, e um mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais, pela Rome Business School.

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