“Conhecimento abriu meus olhos”, diz filha de imigrantes bolivianos que vai se formar na USP

Jaqueline Cortes aponta o conhecimento como uma ferramenta de libertação e se engaja em atividades voluntárias

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Jaqueline Cuevas Cortes, filha caçula de imigrantes bolivianos que vai se formar na USP em 2021.
Jaqueline Cuevas Cortes, filha caçula de imigrantes bolivianos que vai se formar na USP em 2021. (Foto: Arquivo pessoal)

Entrar na universidade representou não apenas uma conquista pessoal para Jaqueline Cuevas Cortes, 22. Nascida em Ferraz de Vasconcelos (SP) e filha de imigrantes bolivianos de La Paz, a caçula de cinco irmãos enfrentou uma série de preconceitos e objeções comuns a outras crianças imigrantes ou filhas de famílias imigrantes no Brasil.

A aprovação para o curso de Relações Públicas na ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), no qual atualmente está no quarto ano, também serviu para cicatrizar algumas feridas.

“Basicamente toda minha vida escolar foi com agressões físicas e psicológicas. Eu não sentia orgulho do que eu era. Me sentia muito bizarra. Quando terminei o ensino médio fiz dois anos de cursinho popular. O conhecimento abriu os meus olhos. Por meio desse conhecimento fui pesquisar e percebi que cada pessoa tem seu legado e fui me conhecendo como pessoa por meio da educação.”

Intercambista?

Mesmo já no ambiente universitário, a presença de Jaqueline também despertou reações que mostraram à jovem que, ao entrar na USP, ela havia rompido uma bolha.

“No primeiro ano eles [os colegas de turma] achavam que eu era intercambista”, resume a estudante de Relações Públicas.

Entrar em uma das mais conceituadas universidades do país também colocou a jovem numa posição desfavorável. Percebeu que era a única de sua turma que não tinha grande conhecimento em inglês.

“Foi um choque muito grande, achei que não ia estar na mesma altura dos meus colegas. Acho que sou a única que não tem inglês fluente. Foi um choque cultural, econômico e social.

Para compensar, Jaqueline ingressou em um programa de ensino da língua inglesa, o Soul Bilíngue, oferecido a partir de Suzano, na Grande São Paulo.

O esforço tem valido a pena. No final de 2020 a jovem foi considerada a melhor aluna de sua turma, o que rendeu a ela como prêmio um intercâmbio para estudar inglês no exterior – a ser realizado em 2023, provavelmente sem o peso das restrições atuais em razão da pandemia. Caso possa escolher, já elegeu seu destino favorito: a Inglaterra.

Atividades voluntárias

Já na reta final da graduação, Jaqueline trilha um caminho diferente da maioria dos colegas. Em vez de pleitear uma vaga de trainee em uma grande empresa, ela optou por se engajar em atividades voluntárias dentro e fora da USP – além da graduação, ela é estagiária na ECA.

Entre as atividades da jovem está a função de captadora de recursos no projeto ambiental Folhas Que Salvam. Ela também integra as mídias sociais do Astrominas e Cecília, ambos projetos da USP de cunho científico e voltados a estudantes da rede pública de ensino.

Jaqueline também foi uma das 65 pessoas escolhidas para integrar o rol de embaixadores do Mapa Educação, em meio a cerca de 2 mil inscrições.

“São coisas que quero como norte para a minha carreira. Descobri que gosto muito mais de projetos sociais e quero aproveitar esse ano para realizar mais coisas”.


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