Copa Gringos agita e surpreende comunidades migrantes de São Paulo

2
501

Uma Copa para a qual não foi preciso fazer nenhum estádio novo, mais barata e acessível ao público, e muito mais democrática e inclusiva que o Mundial organizado pela Fifa. Essas são apenas algumas das características da primeira Copa Gringos, torneio de futebol amador society que teve seu início neste domingo (13) e disputado por 24 times formados por imigrantes que vivem no Brasil.

Durante todo o dia, independente dos resultados dos jogos, foi possível acompanhar torcedores e jogadores empenhados em apoiar e representar seu país de origem, mas também uma bela e importante forma de integração com outras comunidades presentes. “Tem todo esse povo em São Paulo, mas eles dificilmente se cruzam. E depois dos jogos eles podem tomar uma cervejinha, assistir um jogo lado a lado”, diz o francês Stephane Darmani, organizador da Copa Gringos.

Com a palavra, torcedores e jogadores

“Tem perfis muito diferentes aqui, de executivos e funcionários de multinacionais a estudantes, refugiados políticos, operários. Não é só uma mistura de nacionalidades, é também uma mistura social e isso é o que acho legal. Todo mundo em campo é igual, e é isso que eu gosto no futebol, algo universal. Aqui pelos menos eles podem se cruzar e o futebol amador ainda permite isso”, explica Darmani.

Seleção do Paraguai em vitória sobre a Itália na Copa Gringos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Seleção do Paraguai após vitória sobre a Itália na Copa Gringos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Jogadores e torcedores, aliás, foram unânimes em elogiar a iniciativa e a organização. “Nossa, é da hora poder representar seu país. Se a Bolívia não vai para a Copa, pelo menos em algum lugar você pode torcer por ela e representar”, disse o goleiro do time boliviano, o mecânico Wilfredo Macias.

O economista argentino Sebastián Rodríguez, há 15 anos no Brasil, também destacou a oportunidade de representar o próprio país e de ter contato com outras pessoas. “Primeiro, é interessante por poder juntar gente da Argentina no mesmo time. E depois, no ano da Copa do Mundo, é legal poder representar o seu país no futebol. Mas primeiro o mais importante é a camaradagem entre as equipes, conhecer outras pessoas de outros países que moram aqui em São Paulo, é muito bacana”.

“Esse é o objetivo da Copa Gringos, fazer os gringos se encontrarem para jogar futebol, fazer novas amizades, entre os austríacos, suíços e outros povos. Já fomos até chamados para festas de outras comunidades”, diz Stefan Nemetz, vice-cônsul comercial da Áustria em São Paulo e integrante da seleção alpina (combinado entre Áustria e Suíça).

No mesmo espaço, as seleções da Argentina, Bélgica e Portugal. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
No mesmo espaço, as seleções da Argentina, Bélgica e Portugal.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

A diversidade de nacionalidades presentes surpreendeu o alemão Bastian Barnbeck, que está há apenas três meses no Brasil e trabalha em uma companhia chilena. “A primeira vez que cheguei aqui vi pessoas de muitos países, não sabia que tinha tanta gente de tantos lugares aqui no Brasil. Espero que seja a mesma coisa em 2015”.

Quer sentir um pouco de como foi a festa do primeiro dia? Veja abaixo o vídeo da torcida de Camarões, uma das mais animadas.

O desafio de montar os times

Organizar e formar os times foram dois dos grandes desafios da Copa. “Conseguimos nos acréscimos do segundo tempo fechar dois ou três times para chegarmos aos 24 e estou muito feliz porque não foi fácil. Para alguns deles não foi fácil conseguir contatos e jogadores. Foi uma luta que começou em setembro”, lembra Darmani.

Uma das seleções formadas no apagar das luzes para as inscrições foi a batizada de Esperanto, uma mistura de vários países que não conseguiram formar um time. “Tentei juntar o time polonês, mas não deu. Então os organizadores resolveram juntar os jogadores sem time para montar um time internacional. Achei a ideia muito boa e deu a oportunidade para jogar esse evento que é muito interessante. E dá para sentir a emoção de jogar uma Copa do Mundo”, diz o polonês Marek Zarzycki, funcionário da Embaixada do país no Brasil. O time Esperanto conta ainda com jogadores da Turquia, República Tcheca, Egito e Irlanda.

Camisa da seleção Esperanto para a Copa Gringos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Camisa da seleção Esperanto para a Copa Gringos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Outra seleção formada às vésperas do torneio foi a chilena, em grande parte graças ao empenho de Maghie Contreras, presidente do grupo folclórico QuinchamaLi de Chile. “Peraí, estamos em ano de Copa do Mundo, como não vamos montar uma seleção chilena? Fui chamando um por um, batemos de porta em porta. Até recentemente não tínhamos sete chilenos par montar o time, e agora temos 14 chilenos e um brasileiro no time”, explica.

Time chileno comemora gol contra a Alemanha pela Copa Gringos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Time chileno comemora gol contra a Alemanha pela Copa Gringos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Uma regra da Copa Gringos permite que cada time possa contar com até dois brasileiros natos e outros dois com dupla nacionalidade. Foi o caso do operador de Bolsa Júlio Moraes Muller, que atua como goleiro da seleção alpina (combinado entre Áustria e Suíça), e crê que os brasileiros podiam saber mais sobre o torneio. “Para a próxima edição a organização podia alugar um estádio, tentar chamar mais gente, para o brasileiro ver que existem mais comunidades aqui em São Paulo”.

Darmani destaca o interesse que a competição tem despertado pouco a pouco na mídia e nas comunidades e mostra otimismo com os rumos da Copa Gringos. “Aqui eu acho que só vai crescer. Alguns times só se inscreveram no final, então acho que muita gente das comunidades ainda não sabe. Mas a mídia tá se interessando bastante e isso vai ajudar a divulgar e chamar mais torcedores dessas comunidades para apoiar”.

Resultados do primeiro dia

A rodada de estreia da Copa Gringos teve um pouco de tudo, entre jogos disputados e cheios de viradas, verdadeiros “chocolates” e lances de efeito – de gols de letra a furos e frangos de todo o tipo. Na abertura da série, enquanto Equador e o combinado Alpino tiveram o único empate do dia (em 5 a 5), o Peru aplicou nada menos que 14 a 2 na seleção espanhola. “Temos que ganhar, com certeza. Se não, estamos fora,” disse com bom humor o espanhol e executivo do setor hoteleiro Roberto José Perez, já se referindo à rodada seguinte, quando o adversário será a República Democrática do Congo.

Outros grandes “chocolates” do torneio couberam à França, que fez 12 a 1 no Canadá, e China, com 9 a 1 sobre a seleção Esperanto – isso, é claro, sem contar as goleadas menores. Outro destaque cabe à Bolívia, apontada como uma das favoritas e a única seleção a não sofrer gols na rodada de estreia – venceu a Bélgica por 4 a 0.

Inglaterra e República Democrática do Congo dão o pontapé inicial para uma das partidas da Copa Gringos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Inglaterra e República Democrática do Congo dão o pontapé inicial para uma das partidas da Copa Gringos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

A relação completa dos resultados da primeira rodada, assim como os próximos adversários de cada seleção, podem ser vistos no site da Copa Gringos. A rodada seguinte está marcada para o dia 27 de abril, com jogos das 10h30 às 15h30 nas quadras 4 e 6 do Playball Pompeia, ao lado do viaduto Pompeia, em São Paulo.

Ao final da primeira fase, 16 times seguirão para as oitavas de final. Mas a brincadeira não termina para as demais seleções, que vão disputar um torneio paralelo chamado Série Prata. A final da Copa está marcada para 8 de junho e será disputada no Parque da Aclimação, próxima à região central da cidade, com maior capacidade para receber os torcedores.

Os resultados das partidas, no entanto, são meros detalhes diante dos reais objetivos da Copa Gringos, que é permitir a integração dos imigrantes que aqui vivem, independente da origem, ocupação profissional ou situação migratória.

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui