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sexta-feira, dezembro 2, 2022

COVID e perpetuação de vulnerabilidades: a crise sanitária vista por refugiados sírios na França

Artigo traz os primeiros resultados da pesquisa MOCOMI, que analisa o impacto da pandemia de Covid-19 sobre refugiados sírios na França

Por Anaik Pian, Victoria Brotto e Salomé Labé *

A Europa foi, tal qual outras regiões do mundo, amplamente atingida pela pandemia de COVID-19. Na França, as populações estrangeiras, imigrantes e de minorias étnicas foram, assim como observado em outras partes do mundo, particularmente expostas ao COVID devido a condições de vida precárias e à alta exposição a fatores de risco (Gaille e Terral, 2020; Brun e Simon, 2020). Durante a primeira onda da epidemia na França, entre março e abril de 2020, observa-se, entre as pessoas nascidas no estrangeiro, um aumento de óbitos duas vezes mais elevado do que no resto da população, conforme dados apontados pelo Instituto Francês de Estatística e de Estudos Econômicos [INSEE, na sigla em francês].   A pesquisa MOCOMI (Mortes por COVID em Contexto Migratório) financiada pelo Institut Convergences Migrations e coordenado por Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, retrata, a partir da crise sanitária, a experiência da morte em contextos migratórios. Uma das temáticas do estudo MOCOMI, dirigido por Anaik Pian, trata da relação entre o risco do COVID e a experiência da crise sanitária sob a ótica de refugiados sírios recentemente instalados na região Grand Est [região francesa na fronteira alemã]. Esta região foi particularmente atingida pela primeira onda da epidemia que, entre março e abril de 2020, assolou a França.  

No contexto do programa MOCOMI, por mais de 10 meses, entre fevereiro e dezembro de 2021, cerca de quarenta refugiados sírios foram entrevistados em seus respectivos locais de residência. A crise sanitária atinge essa população após um longo percurso até a chegada na França, marcado pelos diferentes riscos ligados aos conflitos armados e à guerra na Síria. Para uma grande parte dos refugiados entrevistados, a crise sanitária contribui para a fragilização de uma situação socioeconômica já bastante precária na França, marcada por uma acentuada queda de níveis sociais. Tal queda tem início já na saída da Síria, em direção à Turquia, ao Líbano ou à Jordânia.    

Sucessivas quedas de nível social  

Realmente, dentre os sírios entrevistados na região Grand Est, muitos viveram – alguns meses ou anos – na Turquia, no Líbano ou na Jordânia antes da chegada à França. Que eles tenham vindo à França em um contexto de programas de reinstalação de refugiados, de corredores humanitários, de admissão humanitária ou por seus próprios meios (atravessando o Mediterrâneo e os Balcãs, ou por via aérea), muitos deles, não encontraram, na França, o mesmo nível de vida de que dispunham na Síria. É este o caso dos sírios que exerciam, originalmente, as profissões de médico, de dentista, de farmacêutico, de professor, de jornalista etc., mas também daqueles que trabalhavam como autônomos (donos de comércios alimentícios etc.) e daqueles que detinham vastas terras agrícolas na Síria.    

Muitos deles se viram desempregados. Outros, buscam retomar os estudos para tentar ou obter a equivalência de diplomas ou mudar de profissão. É preciso considerar ainda a barreira da língua. Além disso, há ainda aqueles que encontraram diversos trabalhos no setor de restaurantes ou da construção civil. Durante os sucessivos confinamentos, o fechamento de hotéis, de restaurantes e de comércios denominados como “não-essenciais” acarretou o desemprego ou a não renovação de contratos precários. Estes setores, que foram duramente atingidos pelos efeitos da pandemia, são setores nos quais alguns refugiados já tinham tido experiências anteriores na Jordânia, na Turquia ou no Líbano.     

Na França, eles esperavam poder exercer uma profissão em uma área próxima de sua formação e de suas qualificações para beneficiar de um melhor nível de vida. A crise sanitária tem impactos sobre as expectativas e as projeções em relação ao futuro e complica os procedimentos necessários à procura de emprego. A modalidade “à distância” [imposta pela crise sanitária] e a comunicação escrita são problemáticas para aqueles cujo domínio do francês é insuficiente.  

O caso de Hayyan, um refugiado de 31 anos, permite ilustrar estas formas de sucessivas quedas de nível de vida. Em 2015, o estudante de química de uma família de classe média, cujo pai é professor de língua árabe na universidade, é forçado a deixar a Síria para escapar à obrigatoriedade do serviço militar que coincidiria com a obtenção de seu diploma. Hayyan foi à Turquia, onde trabalhou durante 3 anos como tradutor e recepcionista de um hotel. Em 2018, ele deixou a Turquia para vir à França pelo programa de reinstalação de refugiados do ACNUR. Depois de ter feito aulas de francês no Instituto Internacional de Estudos Franceses (IIEF), ele tenta entrar na faculdade de química em Estrasburgo. Porém, a crise sanitária e suas consequências (a ausência de empregos para estudantes, o atraso na obtenção de equivalência de diploma, o medo de não conseguir financiar o aluguel da moradia) o levaram a, novamente, abandonar os estudos em química para privilegiar formações mais curtas, tal qual os BTS [na França, equivalente a diplomas de cursos técnicos], para poder trabalhar mais rapidamente e estabilizar sua situação. Sem bolsa de estudos e sem trabalho, Hayyan se vê obrigado a viver de suas economias, que diminuem consideravelmente com o passar do tempo. Ele consegue se alimentar graças às distribuições de alimentos de associações beneficentes. 

Durante os confinamentos, a interrupção das aulas de idioma em associações é vista pelos refugiados como um atraso no aprendizado do francês, já que este é entendido como fundamental à inserção profissional efetiva. Ainda assim, a crise sanitária pode ter tido, em alguns casos, efeitos benéficos em termos de empregabilidade. Samara saiu do Líbano e chegou à França em 2016 pelo programa europeu de reinstalação de refugiados, com seu marido e seus 3 filhos de 23, 16 e 14 anos, assim como a tia de seu marido, em situação de deficiência física e mental. Proprietário de um comércio em Damasco, seu marido começou a atuar como vendedor informal em Beirute, enquanto seu filho encontrou um trabalho de garçom na capital libanesa. Em 2017, alguns meses após a instalação na região Grand Est, Samara encontrou um emprego temporário como cozinheira em um centro de assistência para adultos deficientes. Antes temporário, o emprego se torna definitivo e em tempo integral durante a pandemia, dada a necessidade de mão-de-obra neste setor de atividade. Para Samara, que nunca havia sido assalariada, este emprego significa uma verdadeira emancipação.  

Procedimentos administrativos mais complexos 

A crise sanitária contribuiu à complexificação de alguns procedimentos administrativos (como pedido de habitação social, esperas para atendimentos na prefeitura, procedimentos de reagrupamento familiar etc.), dado que o setor público fechou as portas em um contexto de avanço da disseminação do coronavírus. 

Contribuindo ao acirramento da precariedade da situação de diversos refugiados, a suspensão destes serviços gerou intenso estresse, como coloca Omar, doutor em literatura e escritor. Omar chegou à França em 2020, após ter deixado sua esposa e seus filhos na Turquia. Ele espera que sua família possa vir à França a partir do reagrupamento familiar. Abrigado pelo centro de acolhimento de urgência devido à falta de vagas em estruturas para solicitantes de refúgio e após ter dormido várias noites na rua durante o primeiro confinamento, ele relata sua experiência durante abril de 2020: “Eu vivia um confinamento dentro do confinamento […] Eu não podia agir. Eu não podia tomar decisões. Se algo acontecesse à minha família na Turquia, eu não poderia estar lá para apoiá-los. Eu vivia em um confinamento dentro de mim. Para falar de 2020, eu espero encontrar uma língua capaz de expressar meu sofrimento. Eu não podia mais respirar, eu tinha espasmos nos lábios, hipertensão. Eu não tenho medo de morrer porque todos nós morreremos um dia, mas tenho medo de morrer longe da minha esposa e dos meus filhos, sobretudo do mais novo”.   

Confinamento, traumas e o poderoso olhar sobre si 

Se o primeiro confinamento foi capaz de reviver traumas ligados à guerra para alguns, ele pode ter sido vivido de maneira mais positiva por outros. O período de isolamento permitiu um contato maior com a família após um grande período de separação marcada pelo conflito armado e pelo exílio. Ele também pode ser visto como uma oportunidade de olhar para si, pela tomada de distância do mundo ao redor, considerado bruto e agressivo. Henry, originalmente jornalista de profissão, exerce agora a profissão de jardineiro e diz ter se tornado sensível a sons, depois de ter sido torturado em prisões na Síria por ter escrito sobre a pobreza causada pelo regime de Bashar Al Assad. Em uma entrevista, ele destaca que ter ficado confinado com sua esposa em um apartamento de dois cômodos na cidade de Estrasburgo o permitiu de se desconectar de um mundo exterior muito “barulhento”, que ele enxerga como causador de ansiedade.     

Para além dos efeitos deletérios – de um ponto de vista socioeconômico e administrativo – da crise sanitária sobre os refugiados sírios entrevistados, a maior parte deles – que não foi atingida pelas formas graves da doença – relativizam o risco de morte por COVID na França, apesar de todos os riscos a que foram expostos. 

Sobre as autoras

Anaïk Pian é professora de sociologia na Universidade de Estrasburgo, no laboratório LinCS (UMR 7069) e membro do Institut Convergences Migrations. Salomé Labé e Victoria Brotto foram estagiárias do Programa MOCOMI durante o segundo ano do programa de mestrado “Intervenções sociais, cooperação europeia e migrações”, realizado na Faculdade de Ciências Sociais de Estrasburgo. Victoria Brotto é atualmente mestranda no Instituto de Estudos Políticos de Estrasburgo.  

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