De au pair a engenheira civil: brasileira conta sua trajetória na Alemanha

Após reprovação na Fuvest, Larissa contorna dificuldades até desenvolver tese inovadora em universidade de primeira linha

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A brasileira brasileira Larissa Ziesmann, mestranda no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), Alemanha. Crédito: Kevin Vargas

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Com três prêmios Nobel (Engenharia, Física e Matemática), o inventor do carro figurando entre seus ex-alunos e um orçamento de 884 milhões de euros, o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) está entre as 60 melhores faculdades de Engenharia do mundo.

É nessa instituição, exigente com os candidatos e mais ainda com os seus alunos, que estuda a brasileira Larissa Ziesmann, 28. Ela não só conseguiu se formar em Engenharia Civil, um dos cursos mais concorridos do KIT, como concluiu sua tese de mestrado sobre estruturas mais ecológicas contra a erosão dos solos de rios.

Hoje cidadã alemã, Larissa se prepara para ingressar no mercado de trabalho do país. Segundo o ranking mundial de universidades, o KIT é considerado como excelente por 92,4% das empresas alemãs.

O MigraMundo conta o caminho da brasileira, que trabalhou como au pair, como caixa de supermercado por nove meses nos turnos da noite e depois como assistente do laboratório da universidade para bancar seus estudos.

”Foi bem difícil, os estudos eram puxados e eu ainda me pressionava por medo de perder o emprego no supermercado. Eu também tive que aprender a lidar com a solidão”, contou ela, afirmando que aprendeu a ser mais independente e a lidar com o jeito ”extremamente direto” dos alemães.

”Hoje quando eu visito o Brasil, minha mãe é quem me fala: ‘Nossa, Larissa, mas você ficou grossa né?”’, acrescentou a brasileira entre risadas.

”Sem dinheiro, comecei a pesquisar voos”

Após não ter passado em Engenharia Civil na Fuvest, vestibular que dá acesso à Universidade de São Paulo (USP), Larissa passou a levar a sério uma ideia antiga de ir estudar na Alemanha. Por ter pai alemão e ser egressa de uma escola alemã, tentar uma vaga em um universidade no país poderia ser mais fácil.

Para prestar o Abitur, Larissa precisaria pagar mais um ano de estudos. Uma espécie de Enem local, é o exame obrigatório para quem quer se candidatar à qualquer universidade na Alemanha. Com notas de 5 a 1, sendo a melhor 1, o aluno faz provas ao longo de uma semana e, com a nota final, ele pode se candidatar para cursos de graduação em todo o território alemão.)

”Minha mãe tinha perdido o emprego. Eu fui pedir bolsa de estudos e a escola me deu 60%. Minha mãe não tinha como pagar os 40%, mas mesmo assim ela assinou o termo de responsabilidade.”

”Larissa, eu estou desempregada, como vai ser isso?”, minha mãe me perguntou. Eu respondi: ”Mãe, se Deus quer que dê certo, vai dar certo,” contou a brasileira, que se professa cristã . ”Semanas depois, minha mãe achou um trabalho temporário de um ano.” Era novembro de 2009.

Após um ano, Larissa tirou 2.5 em seu Abitur, o que lhe permitiu ser admitida em universidades como o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, além de universidades em Berlim e Hannover.

Mas agora uma questão se erguia no horizonte: como bancar o voo, além da estadia na Alemanha?

”Eu só poderia ter alguma ajuda do governo como estudante quando a minha cidadania fosse reconhecida, o que aconteceria só depois de três anos vivendo na Alemanha. Mas e até lá?”.

”Eu não sabia, mas comecei a pesquisar voos”, contou.

Um dia no trabalho, uma das colegas de sua mãe falou sobre a possibilidade de cuidar de crianças em troca de salário e moradia (trabalho conhecido como au pair e comum entre estudantes europeus).

”Comecei a pesquisar e achei uma família no Norte da Alemanha que procurava alguém para cuidar dos seus quatro filhos”, contou ela. ”E eles pagariam pelo meu voo!”

Larissa em Berlim, capital alemã. Ela começou sua jornada pelo país europeu como au pair. Crédito: Marli Waldow/Arquivo pessoal

“Choque de toda ordem”

”O começo foi um choque de toda a ordem”, contou Larissa. ”Era tudo organizado, tudo limpo. Até as árvores do lado das ruas eram alinhadas…”, disse a brasileira, que morou quatro meses em um vilarejo de mil habitantes no norte da Alemanha. Larissa se surpreendeu com o comportamento das crianças no país.

”Eu achei as crianças alemãs muito respondonas, e era difícil porque eu não estava acostumada com crianças respondonas desse jeito”, disse. ”Mas as crianças são educadas desse jeito aqui, por um lado cria-se pessoas mais independentes e com uma opinião mais sólida, sem precisar se esconder atrás dos outros.”

Trabalho e estudos

Ao se aproximar o início das aulas, Larissa deixou o trabalho como au pair e se mudou para Karlsruhe, fixando-se em uma república de estudantes.

”Eu tinha agora total liberdade, mas também muita pressão”, conta ela, que ainda não sabia se a sua cidadania seria reconhecida. E nem se encontraria emprego para bancar seus estudos.

O governo alemão disponibiliza bolsas-empréstimos para os estudantes alemães e/ou europeus durante o tempo de seus estudos. O valor mensal pode chegar até 800 euros.

Com tal valor, pressupõe-se que o estudante poderá se dedicar integralmente aos estudos. De acordo com o Ministério da Educação alemão, um quarto dos estudantes recebem esse tipo de bolsa do governo.

O que não foi o caso de Larissa, que na época não havia sido reconhecida cidadã alemã.

”Sem a bolsa, eu precisaria procurar trabalho, mas eu não sabia quais documentos eu precisaria. Por eu não ter cara de estrangeira, as pessoas achavam que eu tinha o dever de saber”, disse.

E acrescentou: ”O grande choque na Alemanha é as pessoas serem bem diretas. E isso me soava agressivo no começo. Se você é alemão é a sua responsabilidade saber das coisas. As estruturas funcionam, você tem internet. Se você não sabe é porque você não quer”, disse Larissa.

Os primeiros trabalhos de Larissa foram semelhantes aos de outros migrantes brasileiros que iniciam a jornada para ganhar a vida mundo afora. ”Comecei com trabalhos bem básicos, limpeza, ajudante de cozinha, etc. E então consegui um trabalho como caixa de supermercado de três a quatro vezes na semana.”

Larissa conta que ficou no emprego nove meses e que durante a semana trabalhava das 16h às 22h para poder ir às aulas pela manhã e aos sábados, período integral.”Eu poderia ter no máximo três sábados livres”.

Larissa acordava às 6h da manhã para entrar na aula às 8h, saindo à tarde para chegar ao trabalho às 16h. ”Eu trabalhava 80 horas por mês. Aqui os estudos são bem puxados e eu ainda tive que aprender muita coisa nova no trabalho”, contou.

” Tinha muito nome de fruta e vegetal que eu não sabia. A numeração e o peso das coisas também eram outros desafios”, acrescentou.

”Foi um tempo difícil, porque eu não estava conseguindo me concentrar, eu me cobrava muito e ainda tinha medo de perder o trabalho porque eu pensava que era como no Brasil, onde há muita gente querendo esses trabalhos básicos.”

Estágio

Até que Larissa conseguiu trabalhar no laboratório de solos e rochas da universidade. ”Eu consegui a vaga no laboratório, mas o pessoal do mercado me pediu para ficar, me ofereceram aumento e tudo”, contou Larissa, que recusou a oferta, iniciando, assim, uma nova etapa que duraria seis anos.

”Era um trabalho de estudante, no qual você ajudava com os experimentos e pesquisas. Os dados coletados eram usados para melhorar equações que previam o comportamento do solo sob cargas”, explicou. E acrescentou: ”Era um trabalho de estudante, mas se o chefe via que você era esforçado ele investia em você”.

Larissa ficou. E ao final, as teses de bacharelado e mestrado estavam sob a sua tutela. O que a brasileira ganhava no laboratório, mais as ajudas vindas do Brasil, lhe permitiram terminar a sua graduação.

Até que em 2013 ela teve a cidadania alemã reconhecida, o que lhe dava o direito a uma bolsa de estudos para o mestrado, que ela faria em 2016 no departamento de solos e rochas.

”Depois que obtive a bolsa de estudos, a ajuda vinda do Brasil parou – até porque eu não precisava mais”; conta. ”Eu sou muito agradecida à pessoa que me ajudou, teria sido muito mais difícil sem ela.”

Larissa ao lado de outros estudantes do KIT, em Karlsruhe.
Crédito: Arquivo pessoal

Tese inovadora

Hoje, Larissa termina sua tese. Sobre o quê? ”Ai ai ai. Vamos ver se eu consigo explicar com o meu português”, brincou.

A tese é sobre estruturas mais ecológicas que evitam a erosão do solo dos rios. ”Aqui, 90% dos rios foram mudados, eles colocaram rios dentro de canos para construir cidades em cima, fizeram o rio ficar reto e etc”, contou. ” E quando você deixa o rio reto, por exemplo, a água corre mais rápido e nisso a erosão aumenta”, explicou ela.

”Tentou-se conter a erosão utilizando pedras grandes, porém elas impediam o desenvolvimento da fauna e da flora aquáticas.” Larissa pesquisa uma estrutura mais ecológica, atendendo os novos anseios europeus de preservação do meio ambiente.

Em vez de uma estrutura de proteção, a proposta estudada pela brasileira consiste em reorientar a correnteza por novos caminhos, deixando para trás os velhos, com risco de erosão.

”Apesar de ser de pedra, a nova estrutura é bem mais rasa e ao invés de proteger as margens do rio, ela vai reconduzir a correnteza criando um novo fluxo”, explicou. ”Com isso, o que antes era uma estrutura que tratava o sintoma, agora é uma estrutura que vai tratar a causa do problema”, acrescentou.

Sete anos depois

Larissa afirmou gostar de viver na Alemanha pela ”eficiência, pela honestidade nas interações pessoais e pela qualidade de vida”. Porém, ela sente falta do otimismo do brasileiro e da natureza.

”Eu gosto da Alemanha porque aqui as coisas funcionam, se você escreve um e-mail, faz uma ligação você recebe a resposta. Gosto da honestidade também, porque as pessoas sabem onde estão com você, eles dizem na cara e são mais estáveis e fiéis”, afirmou.

”Mas eu sinto falta da natureza, das praias, e também do otimismo brasileiro, aqui os alemães reclamam muito, nada está bom. Eu mando eles passearam, porque eu sei que os brasileiros, com muito menos recursos, são mais gratos e mais alegres pelas coisas”, acrescentou ela, que não hesita em rir dos extremos do jeito alemão:

”Às vezes você só quer descansar e conversar de coisas leves, mas é difícil achar alguém, porque eles são muito ocupados e não conseguem ser flexíveis. Eles precisam ter tudo planejado antes, se demorar mais tempo do que o previsto, por exemplo, é uma catástrofe, estraga o plano do dia”, contou ela.

”Eu já escutei coisas engraçadas de alemães, como um estudante que morava comigo que planejava o dia dele separando uma hora para imprevistos”, contou Larissa. ”Eu perguntei para ele o que ele faria se o imprevisto tomasse mais tempo do que o planejado, e ele me respondeu que seria o caos”, acrescentou ela, entre risadas.

Brasil cheio de potencial

”Quando eu fico sabendo sobre o Brasil, eu fico muito triste de ver tantos jovens inteligentes que desistiram de morar no país. O Brasil tem muitos recursos e muito potencial que poderiam fazer dele um país super bom para o seu povo”, disse ela. ”Mas eu vejo também na cultura brasileira uma preferência pelo mais fácil, pelo mais cômodo, uma cultura sem visão a longo prazo”, acrescentou.

Para Larissa, a necessidade de zelar pelo bem comum seria uma das razões para o progresso da Alemanha. ”Na visita a um campo de concentração, por exemplo, você consegue sentir o peso das atrocidades cometidas. Você percebe que um país precisa cuidar de sua nação e do bem-estar de todos para evitar que tudo aquilo se repita.”

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