Desinformação dificulta inserção de refugiados no mercado de trabalho, mostra pesquisa

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A questão laboral é um dos principais motivos que levam as pessoas a migrarem de um país para o outro. Crédito: Marcello Casal Jr/ABr

Levantamento inédito feito junto a profissionais de RH (Recursos Humanos) mostra que barreiras culturais e estereótipos ainda prevalecem, mas também caminhos possíveis para superá-los

Por Rodrigo Passoni
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 19h42 de 19/06/18

Na semana em que é lembrado o Dia Mundial do Refugiado (20/06), a falta de informação continua sendo uma barreira para um melhor entendimento da questão do refúgio. Uma situação que também tem seus reflexos no mercado de trabalho.

Essa foi uma das constatações obtidas a partir da pesquisa inédita “Caminhos para o Refúgio: Inserção Produtiva e Social de Refugiados”, coordenada pelo professor Leandro de Carvalho, pesquisador doutor da Universidade de Brasília, que será apresentada durante audiência pública nesta quarta-feira (20), às 11h, no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Rua General Jardim, 522 – 7º andar)

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Com recorte na região metropolitana de São Paulo, que concentra cerca 52% das pessoas reconhecidas como refugiadas no Brasil, a pesquisa indagou diretamente 386 profissionais de recrutamento e seleção das empresas, por meio de um questionário enviado durante os meses de fevereiro e março deste ano. O objetivo era entender como a imigração e a questão do refugiado estavam inseridas no ambiente empresarial.

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E as conclusões, embora fossem esperadas pelo pesquisador, surpreenderam pela dimensão: 64,7% dos profissionais de RH que responderam a pesquisa confundem o status de refugiado [gerada por perseguições e violações de direitos humanos] com a situação de imigrante empobrecido. Além disso, 91,2% dos que responderam ao questionário declararam não dominar os procedimentos para contratação de refugiados – ou seja, desconhecem que se tratam dos mesmos para contratação de brasileiros.

Pesquisa com profissionais de RH apontou barreiras no entendimento sobre a questão do refúgio.
Crédito: Marcello Casal Jr/ABr

Outro dado que espantou o pesquisador foi a associação dos recrutadores a determinadas qualidades e barreiras de acordo com a origem do indivíduo. Enquanto “força física” e “aceitar menores salários no início” apareciam associados a profissionais da África e América Central, menções à “capacidade de liderança” e “criatividade” eram relacionadas a profissionais de origem europeia.

“Ficava evidente que, por mais que existisse um debate sobre o tema e houvesse sensibilidade das pessoas, a informação se restringia às tragédias e a alguns casos de recomeço, mas circulava pouca informação sobre como apoiar de fato uma pessoa, ou família, que chega ao Brasil em busca de refúgio”, ressalta o pesquisador.

Em entrevista exclusiva ao MigraMundo, Carvalho dá maiores detalhes sobre o estudo e de que forma os dados nele contidos podem ajudar em uma mudança de olhar sobre os refugiados no mercado de trabalho. “Espero que as informações disponibilizadas sejam capazes de provocar uma reflexão profunda nos profissionais de RH e na população em geral. E que essa reflexão se transforme em mudança de atitude e, quem sabe, em engajamento para essa causa”.

MigraMundo: Como surgiu a ideia de fazer essa pesquisa junto aos setores de RH sobre refugiados?
Leandro de Carvalho: No segundo semestre de 2017 fui contratado por um grupo de empresas para ajudá-los a direcionar seus investimentos sociais e tinham como foco as organizações que atuavam junto aos refugiados e imigrantes mais vulneráveis. Nos meses que se seguiram e por meio das relações que foram construídas, um dos pontos principais das conversas com as organizações envolvia criar novos modelos para inserção produtiva dos imigrantes. Foi nessa busca por novos modelos que sentimos falta de informações que pudessem basear novas ideias: eram produzidas informações sobre o perfil dos imigrantes (suas origens, condição socioeconômica etc), mas não havia informações sobre como as empresas enxergavam esse grupo de pessoas.

Nos primeiros contatos com as associações de profissionais de recursos humanos, pude confirmar que não havia nenhuma outra iniciativa que tivesse como foco entender como os profissionais de recrutamento e seleção, a primeira porta das empresas, enxergavam os imigrantes mais vulneráveis. Havia o interesse, soube de uma tentativa de enquete no site de uma das associações de profissionais, mas nada que pudesse levantar o debate com dados mais rigorosos e nada com a extensão da pesquisa que estamos apresentando.


Por que exatamente o foco em refugiados, em vez de contemplar também pessoas em outras situações migratórias?

Para sustentar essa opção, dois pontos foram levados em conta: em primeiro lugar, o debate mais amplo sobre a questão migratória usa muito o termo “refugiado”, então a aproximação com os respondentes seria mais direta. Inclusive, percebemos na pesquisa que esse uso corriqueiro do termo gera muitas confusões sobre quais as condições para concessão do status de refúgio.

Outro ponto dessa opção está relacionado com os questionamentos que queríaamos fazer sobre o nível de conhecimento sobre os procedimentos de contratação. A hipótese era: se o profissional de RH não soubesse como contratar um refugiado  – que, como sabemos, já recebe todos os documentos necessários -, por consequência não saberia como fazer qualquer outra contratação que envolvesse um imigrante em outras condições. Se o recorte fosse imigrantes em geral, não poderíamos fazer essa extrapolação porque poderiam dizer, posteriormente, que entenderam se tratar da contratação de profissionais residentes em outros países ou de contratar alguém sem a regularização migratória concluída. No caso do refugiado, ou do solicitante de refúgio, essas controvérsias não caberiam e conseguiríamos produzir a informação rigorosa que precisávamos.

Imigrantes aguardam atendimento no CIC do Imigrante para cadastramento de currículos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – 26.jun.2015


À medida que a sua pesquisa evoluía, que tipo de impressão te saltou aos olhos com as respostas dos entrevistados?

Desde os primeiros testes do questionário e ao longo da pesquisa, o que mais me surpreendia era o desconhecimento dos profissionais sobre procedimentos que deveriam ser bastante simples. Ficava evidente que, por mais que existisse um debate sobre o tema e houvesse sensibilidade das pessoas, a informação se restringia às tragédias e a alguns casos de recomeço, mas circulava muito pouca informação sobre como apoiar de fato uma pessoa, ou família, que chega ao Brasil em busca de refúgio.

Poderia falar um pouco mais a respeito desse desconhecimento notado?
Como dado muito prático, ficou demonstrado que 62,5% confundem o status de refugiado com a situação do imigrante empobrecido. Para essas pessoas, refúgio tem relação com pobreza, tragédia, busca por emprego e não necessariamente com a questão da perseguição ou violação de direitos humanos. E esse primeiro dado repercute em todo o restante: por não compreender as razões para a chegada dessas pessoas, acabam por classificá-las como profissionais de baixa qualificação (atribuindo as dificuldades econômicas a esse fato imaginado) e afloram ai também diversos outros preconceitos que estão relacionados as origens desses imigrantes.

Um ponto chave na sua pesquisa é a associação que os entrevistados fazem entre regiões de origem e habilidades. Esse dado te surpreendeu? O que ele revela sobre a visão dos migrantes e refugiados no mercado de trabalho?
Confesso que tive especial interesse por essa questão enquanto ela era respondida. Queria consolidar logo os dados e encarar os resultados que viriam. E quando pude analisar os dados, já consolidados, foi assustador! Não era assustador por ser uma surpresa, mas justamente por ver ali materializado as situações que a gente presencia no dia a dia. Por mais que seja velado, sabemos que existe o preconceito étnico no país, e que esse preconceito evolui para a discriminação principalmente contra a população de pele negra, mas é assustador perceber como se manifesta. Foi ainda pior imaginar que esses preconceitos podem ter relação direta com as condições de trabalho que esses imigrantes poderão acessar.

Sabemos que se trata de uma situação mais complexa, que envolve outros fatores. Mas se um determinado grupo nunca é visto como capaz de liderar uma equipe, o que pode se esperar para a carreira dessa pessoa no Brasil? Se outro grupo é entendido como disposto a aceitar salários menores, como se dão essas negociações de salário para os imigrantes dessas regiões? Tudo isso a gente vê no cotidiano do nosso trabalho nas organizações, atendendo as pessoas que denunciam trabalho precarizado, quebra de contratos de trabalho etc.

Imigrantes e refugiados participam de mutirão de cadastro de currículos em Curitiba (dez/2017).
Crédito: Brunno Covello – dez/2017


Haverá uma continuidade do trabalho iniciado a partir dessa pesquisa? Qual a expectativa a partir de agora?

Em meio a tantas informações para refletirmos, uma que é bastante positiva tem relação com a vontade dos profissionais em buscar treinamento sobre os procedimentos de contratação de imigrantes: mais de 85% dos entrevistados manifestou interesse por treinamentos nessa temática. Uma das expectativas envolve conseguirmos criar os meios para capacitar esses profissionais e, quem sabe, transformá-los em aliados para essa causa. A Missão Paz, em São Paulo, está formatando um curso específico para esse fim, gratuito e com certificação, e os profissionais de recursos humanos já podem fazer sua pré-inscrição.

Outra expectativa é a mudança de comportamento. Espero que as informações disponibilizadas sejam capazes de provocar uma reflexão profunda nos profissionais de RH e na população em geral. E que essa reflexão se transforme em mudança de atitude e, quem sabe, em engajamento para essa causa.

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