Deslocamentos forçados de indígenas por queimadas no Brasil desmentem Bolsonaro na ONU

"Quem enfrenta um arco e flecha com espingarda, você sabe como é, né? Tudo isso é motivado pelo discurso do presidente da República”, diz líder indígena após fala de Bolsonaro na ONU

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Queimada no limite da aldeia Uru-Eu-Wau-Wau. (Foto: Ivaneide Suruí)

Na manhã desta terça-feira (22), o presidente da República Jair Bolsonaro disse, em discurso na Assembleia Geral da ONU, que as queimadas que ocorrem no país “são provocadas por caboclos e indígenas”. No entanto, fatos concretos fazem cair por terra essas alegações.

A afirmação de Bolsonaro ocorre no contexto em que o presidente diminuiu a devastação da Amazônia e do Pantanal. Ele defendeu a política ambiental de sua gestão, que é alvo constante de críticas da comunidade internacional. Ele reforça ainda que o Brasil é líder em conservação das florestas tropicais e produção de energia limpa.

No entanto, os dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram um cenário bem diferente do que é retratado pelo presidente. Até setembro de 2020, Brasil registrou o maior número de queimadas nos últimos 22 anos. Até o dia 21 deste mês, a Amazônia contabilizou 71.673 focos de fogo, ultrapassando o total acumulado durante o ano inteiro de 2018, que registrou 68.345.

Bolsonaro durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2019.
(Foto: ONU)

Ao contrário do que Bolsonaro disse, o grande número de incêndios no território brasileiro é o principal motivo que provoca deslocamentos de indígenas isolados — aqueles que não têm contato direto com a sociedade branca — para os fundos das florestas e até cidades, com a finalidade de se protegerem.

Segundo a indigenista da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, Ivaneide Bandeira, a situação pode ser considerada um genocídio. Ela também cita quem são os reais responsáveis pelo fogo que consome as florestas brasileiras e sua fauna.

“As queimadas estão avançando nos territórios indígenas. Os fazendeiros e os moradores no entorno tocam fogo, que logo avança sobre o território indígena, queimando as florestas, matando animais e provocando doenças respiratórias”. 

Animal queimado, na linha antes do território dos Paiter. (Foto: Leonardo Oyxaka Suruí)

Preocupação

O Brasil contabiliza, no total, 431 povos indígenas. Dentre eles, 175 são isolados. Os mais afetados são da terra do Uru-Eu-Wau-Wau: os Jupaú, Amondawa, Karipuna, além de mais 8 povos isolados.

“Especialmente os indígenas isolados estão sofrendo na Amazônia. Eles sabem que estão enfrentando a maior arma de todos os tempos. Quem enfrenta um arco e flecha com espingarda, você sabe como é, né? Tudo isso é motivado pelo discurso do presidente da República Jair Bolsonaro”, diz o líder indígena Almir Suruí.

Ainda segundo Suruí, muitos dos indígenas isolados que se deslocam para as cidades não são bem recebidos. Como forma de defesa, os povos que se concentram nas cidades atacam os deslocados, exceto quando o deslocamento envolve a opinião pública.

A indigenista Ivaneide conta que a situação preocupa ainda mais porque a população não sabe ao certo sobre a situação dos indígenas isolados:

“A vida deles está em risco. A gente precisa que a mídia também exponha a destruição que está havendo, como as queimadas prejudicam a vida dos indígenas.” 

Segundo o líder indígena Suruí, o Ministério Público Federal recomendou aos municípios para que não se enfrente os indígenas. Suruí também informa que continua cobrando autoridades como a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Polícia Federal e órgãos responsáveis para que possam dar suporte técnico, policial e antropológico. 

“Aqui estamos apenas pedindo que, como diz a Constituição Federal, o governo proteja os povos. Já que falamos um pouco de português, devemos defendê-los. Nossa posição é essa. É buscar proteção jurídica para proteger. Independente se é na cidade ou não, é preciso garantir proteção física e cultural do povo”, afirma Suruí.


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