Diante de movimentos antirrefugiados e xenofóbicos, como devemos responder?

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Marcha pela paz e solidariedade em Joanesburgo (África do Sul) em 2015, como resposta a uma série de ataques xenofóbicos que ocorreram no país naquele ano. Crédito: Bruna Kadletz

Muito embora tenhamos conhecimento da organização e fortalecimento desses movimentos, o confronto com esta realidade propicia o questionamento de como devemos responder a eles

Por Bruna Kadletz
Em São Paulo (SP)

No último dia 15 de dezembro, participei do II Seminário sobre Imigração, Refúgio e Direitos Humanos, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. À minha frente estava sentado um homem de aparência jovem, devia ter seus trinta e poucos anos, e bem vestido. Mas não foi sua aparência que chamou minha atenção, e sim seu comportamento.

Ele estava fazendo vídeos com seu celular e demonstrava uma certa tensão ao filmar. Olhava constantemente para os lados e para trás, como se estivesse se sentindo perseguido ou algo do tipo. Foram essas constantes olhadas e paranoia que chamou minha atenção e direcionou meus olhos para seu celular. Eu me calei e somente o observei.

Logo descobri a razão para seu receio em ser descoberto. Ele se dizia “infiltrado” em uma de suas conversas pelo WhatsApp. Estava compartilhando as falas dos palestrantes e fotos dos seus slides com grupos de extrema direita, conhecidos pela oposição aos direitos de refugiados e imigrantes.

De uma forma geral, o representante da extrema direita parecia entediado com as apresentações, salvo os momentos em que as falas poderiam gerar oportunidade para conflito. Seu entusiasmo culminou no momento em que um senhor se dirigiu ao microfone para contestar um comentário feito por uma das professoras sobre a opressão a qual palestinos são subordinados pelo Governo de Israel. Seu corpo tornou-se ereto, um sorriso foi desenhado no canto dos seus lábios e ele parecia estar em êxtase.

Obviamente o seminário é aberto ao público em geral, sendo um espaço para compartilhar conhecimento e gerar diálogo sobre o tema de refúgio e imigração. Contudo, pelo seu comportamento e comentários nos grupos de WhatsApp, ficou claro que o “infiltrado” não estava presente no seminário aberto para compreender o universo do outro ou esclarecer suas dúvidas sobre a nova Lei de Migração e quem sabe assim desmistificar o tema em seus grupos de convívio.

Uma das mesas do II Seminário sobre Imigração, Refúgio e Direitos Humanos, na USP (15.12.2017). Ainda não foram notadas imagens do “infiltrado” no evento.
Crédito: Bruna Kadletz

O tal sujeito infiltrado buscava polêmica. Dentro da sua lógica, qualquer frase ou comentário poderia ser descontextualizado para confirmar a teoria de que migrantes são ameaças à segurança nacional, ordem social e herança cultural. Pensei nesta possibilidade no momento em que uma das imigrantes bolivianas relatou sua história pessoal, compartilhando que ficou no Brasil por razões profissionais e econômicas. É como se o depoimento que toca o coração de alguns se tornasse munição nas mãos de outros.

O conhecimento que à minha frente estava um homem que se disponibilizou a passar um dia em um auditório somente para semear discórdia e revolta em tais grupos de extrema direita me parecia surreal. Mas esta é a realidade do atual clima tóxico no qual vivemos. Basta ler comentários polêmicos nas redes sociais que desumanizam refugiados e imigrantes, os associando com criminalidade e outras mazelas das sociedades, para perceber o quão tóxica a atmosfera está. Cada vez mais pessoas se disponibilizam a atacar os outros, distorcer a realidade e apresentá-la de uma forma que incite medo, intolerância e violência.

Há pouco mais de um mês estava andando nas ruas de Florianópolis com uma amiga que usava o véu islâmico, quando um homem sussurrou para nós ISIS – fazendo referência ao grupo terrorista autointitulado Estado Islâmico. Infelizmente, este não foi o único episódio no qual testemunhei violência verbal contra grupos refugiados e minorizados. Sobretudo contra mulheres. As mulheres refugiadas muçulmanas se tornam alvos facilmente identificados por sua distinção na vestimenta, sendo mais susceptíveis a ataques xenofóbicos e islamofóbicos.

Muito embora tenhamos conhecimento da organização e fortalecimento de movimentos antirrefugiados e xenofóbicos, o confronto com esta realidade propicia o questionamento de como devemos responder a tais movimentos.

Particularmente, eu não acredito que confrontar, engajar na discussão (principalmente on-line) ou reagir de forma agressiva seja o melhor caminho ou a melhor forma de direcionar nossa energia. Pois a escolha em trilhar este caminho somente perpetua a cultura da violência que desejamos transformar. Mesmo que o primeiro impulso seja xingar de voltar ou tentar convencer o outro de que populações refugiadas e imigrantes enriquecem sociedades e contribuem para o desenvolvimento das mesmas, é interessante nos centrarmos antes de respondermos.

Seguindo esta visão, um dos questionamentos mais relevantes ao se pensar em respostas apropriadas, sejam no âmbito individual ou coletivo, é como devemos ser para responder. Nosso impulso nos leva a ação sem o questionamento sobre qual o estado mental e emocional que move nossas ações. Sem este questionamento, podemos facilmente nos irritar e cair na armadilha do discurso do ódio, que mais parece uma entidade de vida própria que se alimenta do confronto entre os polos.

Marcha pela paz e solidariedade em Joanesburgo (África do Sul) em 2015, como resposta a uma série de ataques xenofóbicos que ocorreram no país naquele ano.
Crédito: Bruna Kadletz

Em tempos nos quais a hostilidade parece prevalecer a hospitalidade, a resistência e mudança social devem brotar de um espaço de resiliência enraizada na compaixão, receptividade e autorreflexão. Nesta visão reside o enfoque de qual o estado mental e emocional devemos cultivar dentro de nós para realmente sermos a mudança que desejamos ver no mundo.

Há diversos meios de se expandir os círculos de receptividade e inclusão a comunidades refugiadas e imigrantes. Seja por meio da educação, do cultivo da comunicação não violenta, ou pela criação de espaços para diálogo e conexão de comunidades migrantes e sociedades hospedeiras. Seja por meio de leis e políticas públicas, pela linguagem aplicada pelos veículos midiáticos ou desconstruindo a imagem estereotipada de refugiados e imigrantes. Seja por meio da representatividade e participação de comunidades refugiadas e imigrantes.

Todas estas, e muitas outras, são formas de resposta aos movimentos antirrefugiados e xenofóbicos. Lembrando novamente de sempre ter em mente o seguinte questionamento: como eu deve ser para responder, assim alinhamos a intenção com ação.

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