Direitos humanos e diversidade: entre vocação e especialização ou porque estudar um mestrado em migrações internacionais hoje

1
19
Abraço Cultural teve aulas de idiomas ministradas por pessoas em situação de refúgio. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Se nota uma clara consciência da importância da proteção dos direitos humanos e da necessidade de se trabalhar em prol das pessoas que sofrem as consequências das desigualdades por razões de etnia/raça, gênero e classe social em um mundo cada vez mais globalizado

Texto faz parte da parceria entre o MigraMundo e o CER-M, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e Universidade de Barcelona (UB)

Por Dra. Alisa Petroff
Coordenadora acadêmica do Mestrado Interuniversitário em Migrações Contemporâneas
Cer Migracions (CER-M)
Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e Universidade de Barcelona (UB)
Tradução de Thales Speroni

Por que estudar um mestrado especializado em migrações internacionais? Esta questão não só acomete estudantes do último ano de graduação, mas também profissionais que buscam uma maior especialização no campo dos direitos humanos e da gestão da diversidade. Além disso, essa é uma pergunta que a direção de qualquer pós-graduação deve se colocar constantemente.

Segundo um estudo realizado em 2007 com estudantes do último ano de graduação em ciências sociais e história de universidades espanholas (Sanchez Herrera et al. 2009), as motivações para a escolha de um mestrado são agrupadas em torno de três categorias. Um primeiro grupo (39,24% da amostra) reconhece ter escolhido um mestrado com o objetivo de abrir seu próprio negócio, conhecer profissionais influentes, ascender rapidamente em sua carreira, aumentar a sua faixa de renda ou suas expectativas de promoção laboral. Um segundo grupo (38,91%), não menos importante, destaca a oportunidade de aprender novos matérias que trazem maior especialização do que a formação universitária precedente e o acesso a primeiras oportunidades de emprego em um segmento de interesse pessoal. Finalmente, um terceiro grupo (21,85%) refere-se a razões mais pragmáticas, tais como a incapacidade de competir no mercado de trabalho sem um mestrado, as recomendações recebidas em seu trabalho, ou do fato de que outros colegas de graduação tenham concluído o mestrado.

A experiência do Mestrado Interuniversitário em Migrações Contemporâneas é que cursam mestrados como esse estudantes e profissionais de distintas áreas das ciências sociais e humanas, como sociologia, jornalismo, direito, comunicação, pedagogia, antropologia etc. Em geral, em nosso heterogêneo perfil de estudantes predominam as razões do segundo grupo do estudo acima mencionado. Nomeadamente, se nota uma clara consciência da importância da proteção dos direitos humanos e da necessidade de se trabalhar em prol das pessoas que sofrem as consequências das desigualdades por razões de etnia/raça, gênero e classe social em um mundo cada vez mais globalizado.

Certamente, essas motivações não resultam, em sua natureza, nem novas nem surpreendentes. De fato, ao logo das dez edições de nosso mestrado, é evidente que o componente vocacional é um elemento sumamente importante (se não o principal) na hora de se optar por um mestrado em migrações. É verdade que essa aspiração se combina com uma expectativa de um melhor posicionamento no mercado de trabalho ou uma maior possibilidade de promoção profissional. Eu acrescentaria, como uma opinião pessoal, que junto a esses aspectos, a maior parte dos estudantes demonstra uma genuína preocupação com a aquisição de novos conhecimentos, habilidades e competências. No entanto, os estudantes são muito menos conscientes de que os estudos de mestrado deveriam permitir a eles ampliar sua rede de contatos, essa constelação de relações pessoais e profissionais (que possibilita o famoso networking) que leva ao acesso de quase 80% dos postos de trabalho (Relatório Adecco, 2014). Para muitos de nossos estudantes, todos os três elementos anteriormente referidos são relativamente indissociáveis.

Nos últimos tempos, ademais, a crescente importância que tem adquirido o fenômeno social da imigração na Espanha e nos países latino-americanos e, muito recentemente, a denominada “crise dos refugiados”, atraiu aos mestrados especializados em direitos humanos, imigração e diversidade, um perfil de alunos muito próximos ao ativismo. Em muitas ocasiões se trata de pessoas com ampla experiência de intervenção social, que buscam conteúdos teóricos que reforcem as suas habilidades e competências, assim como validar credenciais e expertises nesses temas. Simultaneamente, esses alunos buscam programas que permitam cimentar e dar maior consistências a suas carreiras profissionais que, frequentemente, emergem a partir do voluntariado.

Uma das perguntas mais frequentes dos estudantes que acabaram a sua graduação e nos pedem informações sobre os nossos programas é: Quais são as possibilidades laborais de um mestrado em migrações internacionais? Aí está a importância, segundo a nossa perspectiva, de um mestrado que se define como profissionalizante e que aposta de maneira firme por oferecer: primeiro, uma abordagem crítica e reflexiva ao conjunto de conhecimentos teóricos de cada temática, e que tais conhecimentos se relacionem diretamente com a realidade, mediante a incorporação de profissionais com experiência direta na gestão das migrações a partir de diferentes níveis e com metodologias de estudo de caso, etc. Segundo, o contato, no decorrer dos distintos módulos de ensino, com docentes acadêmicos procedentes de múltiplas disciplinas e com profissionais que representam a diversidade de atores que jogam um papel relevante na gestão das migrações (administrações públicas, ONGs, think tanks, associações e coletivos de migrantes, sociedade civil, consultorias etc.). Terceiro, oferecer um módulo de estágio em entidades e organismos de diferentes tipos, que, segundo nossa experiência, podem ser uma potencial porta de entrada para oportunidades laborais futuras. E, por último, promover a formação em aspectos relacionados com o desenvolvimento pessoal, tal como as atitudes, capacidades (proatividade, capacidade analítica, etc.) e habilidades profissionais. Sem dúvida, o componente pessoal é tão ou mais importante que as ferramentas teóricas e analíticas para a inserção laboral. Nossa experiência deixa claro que a conjunção de todos esses fatores é chave para o bom desempenho profissional e acadêmico de nossos estudantes.

A complexidade do fenômeno migratório, a gestão multinível (local, nacional, supranacional) que exige, assim como as normativas e regulamentos que a regem, não estão isentos de debate e polêmica (dado seu interesse político e sua carga ideológica) e são temas indispensáveis que devem fazer parte da especialização de futuros profissionais. Pensamos que somente assim se pode gerar e desenvolver o espírito crítico que as pessoas dedicadas ao tema das migrações necessitam para a prática profissional em alto nível.

Finalmente, acreditamos que é cada vez mais importante situar os estudos de pós-graduação e de mestrado na linha do denominado aprendizado ao longo da vida ou long-life learning, no sentido de que esse tipo de formação deve oferecer a possibilidade de atualizar conhecimentos a perfis técnicos já especializados em migrações. Se trata de oferecer a alunos e profissionais que já se encontram trabalhando nesse âmbito uma atualização de conhecimentos, espaços de reflexão e inclusive de contribuição a reflexão acadêmica (seminários, preparação de publicações acadêmicas e não acadêmicas, participação em projetos de investigação, etc.), ou de forma mais específica, aumentar suas possibilidades de ascensão profissional.

Em relação a perspectivas de futuro, apesar do fato que a crise impactou negativamente a formação e especialização de profissionais no setor social, começamos a observar que as administrações públicas e a sociedade civil estão recuperando, na Espanha e Europa, músculo econômico, o que, logicamente, nos leva a pensar que o investimento em capital humano também retornará. Os desafios migratórios a nível local e nacional não cessam em aumentar, tanto no contexto espanhol e europeu como em outras partes do mundo (Estados Unidos, norte da África e América Latina, para mencionar regiões em que nosso programa de mestrado centra seu foco).

Um fenômeno de tanta complexidade e tão exposto a transformação social como a mobilidade humana, com tantas implicações para as políticas públicas, exige contar com profissionais especializados, com conhecimentos permanentemente atualizados, com sólidos princípios e valores e com uma verdadeira vontade de transformação social. É aí que radica, no fundo, a chave que deve guiar tanto os profissionais para estudar uma pós-graduação, como a nós, equipe docente e coordenação desses mestrados, para oferecer uma formação a altura das expectativas e da responsabilidade social.

Referências:

Relatório Infoempleo Adecco (2014). Nota de prensa disponível no seguinte link:
http://www.adecco.es/_data/NotasPrensa/pdf/678.pdf

Sánchez Herrera, Joaquín; Pintado Blanco, Teresa; Talledo Flores Hernán e Carcelén García Sonia (2009): “La educación de posgrado en España. Un estudio empírico de la estructura de motivaciones latentes”, Revista Innovar Edición Especial en Educación, p.131-140.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.