Diretor de Birdman usa palco do Oscar para defender direitos dos imigrantes nos EUA

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Por Ricardo Rossetto

No último ato da edição 2015 do Oscar, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu fez história.

Ao receber quatro prêmios pelo filme Birdman, ele se tornou o mais influente diretor de cinema de língua espanhola. Além disso, no palco da mais importante premiação do cinema, Iñárritu aproveitou a imensa visibilidade do evento e dedicou o seu discurso em favor dos direitos dos seus compatriotas, que vivem em condições precárias nos Estados Unidos.

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O diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu aproveitou o Oscar para jogar luz sobre os problemas vividos pelos imigrantes mexicanos. Crédito: Tarlen Handayani's account on Flickr under the Creative Commons license
O diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu aproveitou o Oscar para jogar luz sobre os problemas vividos pelos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos.
Crédito: Tarlen Handayani’s account on Flickr under the Creative Commons license

“Para os mexicanos que vivem nesse país, que fazem parte da nossa última geração de imigrantes, peço apenas que eles possam ser tratados com a mesma dignidade e respeito que seus familiares que vieram antes e ajudaram a construir essa incrível nação de imigrantes”, disse. A bola estava quicando na área e Iñárritu chutou. No ângulo. A pauta da imigração é uma das principais preocupações do governo Obama.

Em novembro de 2014, o presidente americano anunciou um plano de reforma migratória que visa proteger cerca de 5 milhões de estrangeiros sem documentação no país, permitindo que eles estudem ou trabalhem nos EUA sem correr o risco de deportação. Para isso, baste que a pessoa não tenha antecedentes criminais, more naquele território há mais de cinco anos, tenha um filho com cidadania americana, e, para os jovens, que tenha chegado ao país antes dos 16 anos de idade. Uma pesquisa feita pelo The Wall Street Journal mostrou que 57% da população americana é a favor de garantir cidadania aos imigrantes indocumentados. Esse número sobe para 74% caso os estrangeiros paguem os impostos devidos.

Porém, essa que caminhava para ser uma lei moderna e que atenderia parte das revindicações dos estrangeiros sem papéis nos EUA foi temporariamente suspensa no dia 26 de janeiro por um juiz federal do Estado do Texas, que afirmou que Obama não tem o poder de mudar a legislação sobre imigração por meio de um “decreto presidencial”, sem consultar o Congresso. Em resposta, o presidente discordou da decisão e anunciou que o Departamento de Justiça entraria com um recurso. “Eu acredito que a lei e a história estão do nosso lado”, disse.

Monumento aos mortos na fronteira México-EUA, entre as cidades de Tijuana e San Diego. Crédito: Tomas Castelazo
Monumento em homenagem aos mortos na tentativa de atravessar a fronteira México-EUA, entre as cidades de Tijuana e San Diego.
Crédito: Tomas Castelazo

De acordo com o Pew Research Center, calcula-se que 11 milhões de pessoas vivam de maneira irregular nos EUA, sendo a grande maioria de origem latino-americana – incluindo, aí, centenas ou até milhares de brasileiros. Ao menos 60% deles vivem em seis estados: Califórnia, Flórida, Illinois, Nova Jersey, Nova York e Texas. Quase a metade do total dos imigrantes sem documentação é de origem mexicana, que conseguem empregos que o americano não quer, de baixa remuneração no setor de serviços.

Desde que Obama assumiu a presidência, em 2008, quase dois milhões de estrangeiros irregulares foram deportados, número em grande parte devido às prisões de pessoas que cometeram crimes ou são consideradas “potencialmente perigosas ao país”. Em 2013, 438 mil pessoas foram expatriadas dos EUA pelo Departamento de Segurança Nacional, um recorde. Mas, desde o início de 2014, o presidente tem protegido as crianças, jovens e famílias da expulsão do país, enquanto aguarda a plena implementação da sua reforma imigratória.

Reforma migratória proposta pelo presidente Obama encontra resistência nos EUA. Crédito: TWH/Fotos Públicas (19/02/2015)
Reforma migratória proposta pelo presidente Obama encontra resistência nos EUA.
Crédito: TWH/Fotos Públicas (19/02/2015)

Por um lado, enquanto Obama luta no Congresso e no Senado para dobrar a resistência dos políticos do Partido Republicano – historicamente conservadores em temas relacionados à imigração, em nome da preservação do mercado de trabalho e da cultura “própria” americana – afim de aprovar a nova lei, é interessantíssimo um diretor de cinema como Iñárritu utilizar o seu “megafone” para atrair e sensibilizar a opinião pública para um assunto de pouco apelo popular. Não que os artistas sejam obrigados a se engajar em causas humanitárias, mas pessoas como Alejandro têm espaço garantido na mídia e é muito valioso quando utilizam essa evidência espontânea para falar de homossexualismo, desigualdade de gênero, racismo e bullying, por exemplo.

Cerimônias como a do Oscar (assistida e fartamente comentada em mais de 100 países) ganham relevância política e social quando o foco da cobertura sai dos vestido das atrizes ou das piadas sem graça dos apresentadores e se transforma em um poderoso diálogo que cobra respostas de políticos frente aos problemas da sociedade e defende os direitos básicos de qualquer pessoa.

 

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