Diversidade e clamor por fronteiras livres marcam festival cultural de imigrantes

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A chilena Renata, durante apresentação que rendeu um dos prêmios do festival. Crédito: MigraMundo

7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes abre espaço para discussão de problemas enfrentados diariamente por imigrantes que vivem em São Paulo e levanta questões de gênero e cidadania

Por Antonella Vilugrón Pulcinelli
Em São Paulo (SP)

Mesmo com o frio do último domingo (26) em São Paulo, imigrantes se reuniram na Praça Kantuta para expressar um pouco de suas alegrias, tristezas e cultura no 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante (CAMI).

O festival tem como objetivo abrir espaço para toda a comunidade migrante, seja artistas e poetas já formandos, seja pessoas que nunca cantaram em público ou sequer pensavam em escrever uma poesia. O importante era usar a arte para compartilhar sobre sua experiência como imigrante.

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Para este ano o lema foi “Um grito pela Liberdade – Pelo fim da Invisibilidade dos Imigrantes”, que deveria ser abordado por meio de cinco temáticas: Lei de Migração, trabalho escravo, tráfico de pessoas, fronteiras livres e igualdade de gênero.

Participantes de diferentes nacionalidades se apresentaram no festival.
Crédito: MigraMundo

“O que nós fazemos é abrir espaço onde os imigrantes possam ir e ser eles mesmos, dizer o que eles pensam, por que diante do patrão, da sociedade brasileira eles nem sempre podem se manifestar. Por isso nós trabalhamos com tema o grito de liberdade, subir no palco é se soltar de todas as amarras”, explicou Roque Patussi, diretor do CAMI.

De acordo com a entidade, aproximadamente 600 pessoas passaram pelo evento durante todo o dia para prestigiar as expressões culturais que estavam acontecendo. Entre os participantes estavam músicos e poetas  – amadores ou não de Bolívia, Chile, Peru, Brasil e Nigéria.

As apresentações dos inscritos eram mescladas com outras atrações culturais. Tiveram participação especial a cantora salvadorenha Celina Castro, o grupo boliviano Salay, o grupo ganês-senegalês Projeto Mundo e a União Nacional Dança de Leão & Dragão, de folclore chinês.

Fronteiras livres

Cada um dos inscritos recebeu um certificado de participação do evento, que foi até o começo da noite de domingo. As apresentações foram avaliadas por uma banca de jurados composta por Soledad Requena (Peru), Rudmira Fula (Angola), Celina Castro (El Salvador) e Hugo Villavicenzio (Bolívia).

Na categoria música o prêmio foi para a cantora chilena Renata Fernanda Espoz Verez, que falou sobre pertencimento e ter liberdade de cruzar as fronteiras. Veja abaixo trecho da letra da música apresentada pela cantora:

“Vamos a conversar sobre las fronteras
Tu vives ala…yo vivo aca
Pero yo no naci aqui
Mis raíces estan cruzando la frontera, lejos de aqui
Yo quiero tener la liberdad de poder ama, donde yo quiera estar…”

A chilena Renata, durante apresentação que rendeu um dos prêmios do festival.
Crédito: MigraMundo

“Eu tô muito feliz de estar participando aqui dessa oportunidade de poder compartilhar minha arte, minha música, de compartilhar com pessoas de tantos lugares do mundo. É importante esse espaço porque geralmente por ser imigrantes não somos tão inclusos nas programações musicais, e como nossas raízes musicais são diferentes também isso não fica tão legal, ainda mais no Brasil que é um país ainda muito fechado musicalmente, agora está se abrindo um pouco mais”, contou Renata, que está no Brasil há dois anos.

É preciso falar de gênero

Já na categoria poesia o primeiro lugar ficou com Florência Manzoni Roca, transformista representada pelo boliviano Remberto Suárez Roca, que vive no Brasil há quatro anos e tratou questões como diversidade de gênero e tudo que enfrenta como imigrante e ativista. Foi a sua primeira poesia autoral.

“Eu faço com que essas pessoas se conheçam entre si, eu falo sobre prevenção de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), distribuo preservativos e explico a importância da mulher usar e ter o controle sobre ter ou não filhos. É uma educação sexual que a gente tem que dar”, contou Florência. Esse evento é uma oportunidade para que a comunidade me conheça ainda mais e que me abra espaço para tratar desses assuntos. Além de muito bom poder falar um pouco sobre o que eu já passei sendo imigrante”.

Leia abaixo trecho da poesia declamada por Florência:

“Basta de explotarme!
Basta de humillarme!
De discriminarme! Reclame!
Donde están mis documentos?
Porque no me aceptan?
Porque no me respetan?
O será que es por mi gênero?…
Muchas mujeres son muertas aqui em Brasil por feminicidio!
Son Matratadas! Traficadas! Com crueldad!…
Como artista e transformista quiero dar um grito de visibilidad
que gracias ahora aqui mi ¡transformidad!
Quiero dar amor e alegria y paz para toda mi comunidad”, declarava uma parte de sua poesia.

Renata e Florência, as vencedoras do 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes.
Crédito: MigraMundo

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