Documentário revela dificuldades enfrentadas por crianças imigrantes na escola

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Minidoc “Migração como direito humano: rompendo o vínculo com o trabalho escravo”, da ONG Repórter Brasil, aborda os desafios das escolas no atendimento à população imigrante matriculada

Por Bruna Cristina
Em São Paulo (SP)

‘‘No começo eu era discriminado pra caramba, ficava até no fundo da escola, no fundo da sala’’

Esta frase, dita por um estudante boliviano, retrata uma das grandes dificuldades dessas crianças ao chegarem país e serem recebidos no sistema educacional brasileiro: a discriminação.

O minidocumentário “Migração como direito humano: rompendo o vínculo com o trabalho escravo” retrata a implementação e os resultados do projeto de formação continuada de profissionais da rede pública de ensino do município de São Paulo sobre temas da migração e do trabalho escravo. O projeto faz parte do programa Escravo, nem pensar!, da ONG Repórter Brasil, que aborda os desafios das escolas no atendimento à população imigrante matriculada.

São entrevistados alunos filhos de imigrantes e de brasileiros, os educadores que relatam os desafios de se promover os direitos humanos e à integração cultural entre os alunos afim de promover a integração na escola.

Alunos vindos de outros países estão cada vez mais presentes no cotidiano escolar, tanto público como privado no Brasil e mais especificamente, no município de São Paulo. Segundo o Censo Escolar realizado no Estado, de 2015 a 2016 havia 3.691 alunos de 62 nacionalidades matriculados na rede municipal. Dentre eles, 184 venezuelanos – índice que poderá ser maior neste ano devido à grave crise social, política e econômica na Venezuela.

Em São Paulo, de acordo com o Conselho Municipal de Educação n° 17/04 – CNPAE, é garantida a igualdade na matrícula de crianças imigrantes, independente de situação documental na rede pública de escolas do município; e a resolução nº 10 da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que promove essa igualdade de direitos na rede pública de escolas estaduais. Porém, ainda que uma criança imigrante possa ser matriculada sem a exigência de documentação, representando assim uma facilidade para as famílias imigrantes, um grande entrave na inserção desses estudantes nas escolas é a não existência de planejamento pedagógico que adeque os professores para o aprendizado de pessoas vindas de outros países de maneira que possam auxiliar na aprendizagem do idioma e além disso, acompanhar o processo de integração dessas crianças na escola.

Crédito: Escravo, Nem Pensar!/Repórter Brasil

Além desse fator que dificulta a vivência de estudantes imigrantes nas escolas, a falta de projetos voltados para o aprendizado de estudantes brasileiros sobre as condições que alunos imigrantes chegam ao país agrava o quadro de discriminação no âmbito escolar. Isso porque muitas vezes o preconceito surge dos alunos que não têm conhecimentos dessas condições e acabam por reproduzir estereótipos contra estrangeiros, principalmente daqueles vindos de países pobres, associando pessoas só pelo fato de ser imigrantes ao trabalho escravo.

‘‘Quando eu ia abordar o tema de trabalho escravo ou de migração, todo mundo olhava pro aluno que é migrante’’ diz Ana Lúcia Matos, coordenadora pedagógica.

‘‘ Eles me falavam: viu sua porcalhona, você não tem dinheiro pra se sustentar’’, relata uma estudante boliviana.

O documentário ainda revela alguns relatos de crianças imigrantes sobre sua vivência na escola assim como as condições em que chegaram no país.

‘‘Meu pai saiu de casa com 12 anos, ele morava da roça e chegou aqui com 15 anos e levou um golpe, falaram que ele ia ter um salário de R$ 1.000 por mês, ele ficou 2 anos sem receber salário’’.

Rompendo o vínculo com o trabalho escravo

A ONG repórter Brasil, através do programa ‘‘Escravo, nem pensar!’’, fez formação com professores para trabalhar com a identidade junto a Secretaria de Educação, afim de aproximar os docentes da realidade dessas famílias e, como consequência, dos alunos que são recebidos pela escola.

No mês de agosto, o programa realizou a primeira formação para os profissionais da área de assistência social no município de São Paulo, com intuito de aprimorar o atendimento ao migrante e à assistência à vítima do trabalho escravo, além de outros encontros que são feitos com profissionais de diferentes áreas em torno da temática. O documentário revela que 43 escolas e 330 professores da rede municipal de São Paulo trabalham com a temática em sala de aula, além da participação de 5108 alunos e 983 pessoas de comunidades.

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