É hora de rever os termos que usamos para falar de migrações e refugiados

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Cartaz na Marcha dos Imigrantes de 2016 pede dignidade para os migrantes no mundo todo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Já perdi as contas de quantas vezes eu vi meios de comunicação, governos e instituições públicas e privadas usarem termos como “crise de refugiados” e “crise migratória” para se referir à temática atualmente.

De tão usados, parecem até ser naturais… Mas será que realmente tais termos são adequados? Será que eles geram uma sensibilização sobre o tema ou justamente o contrário?

Nunca devemos perder de vista que as palavras possuem um poder enorme, difícil de mensurar.

De diferentes formas, as migrações moldam as sociedades e a presença humana no planeta desde os primórdios da raça humana – sem contar que, além do homem, outras espécies animais também se deslocam de um lugar para outro de tempos em tempos.

Então, sem delongas: você já parou para pensar que termos como “crise migratória”, “crise de refugiados” ou o famoso “imigrante ilegal” mais estigmatizam do que explicam as questões atuais sobre migrações?

Cartaz na Marcha dos Imigrantes de 2016 pede dignidade para os migrantes no mundo todo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Durante debate em São Paulo sobre os efeitos no Brasil e América Latina da eleição de Trump para presidente dos Estados Unidos, a professora Deisy Ventura, do Instituto de Relações Internacionais da USP, afirmou que termos como “crise de refugiados” e “crise migratória” são xenófobos, porque consolidam uma visão de que o migrante ou estrangeiro em geral é um problema a ser resolvido.

Como alternativa, a professora sugeriu se referir ao tema como “desafio” ou simplesmente “chegada”, evitando a conotação negativa trazida pela palavra “crise”.

Aproveitando o comentário da professora, quando usamos um termo cheio de carga negativa como “crise” para se referir às migrações atuais, estamos colocando um fenômeno que é exercido pela humanidade desde seus primórdios como algo negativo. Embora a maior parte das migrações atuais aconteçam por fuga de guerras, dificuldades sociais e políticas, perseguições e desastres climáticos, os motivos que levam as pessoas a migrarem são bem mais amplos e não se restringem aos negativos.

O mesmo raciocínio vale para a expressão “imigrante ilegal”, que tem aparecido em abundância na mídia brasileira na repercussão das medidas contra a imigração adotadas pelo governo Trump nos Estados Unidos. Ao usar o termo “ilegal” para se referir ao imigrante, você automaticamente cola nele a pecha de criminoso, fora da lei, indesejado, um problema a ser resolvido. E colocar como crime uma movimentação que é exercida pelo ser humano desde o início de sua estada na Terra é, no mínimo, condenável.

Também entram nesse rol termos como “caos” e “invasão”, que tem sido associados a determinados grupos ou nacionalidades, criando uma imagem negativa e fomentando uma visão preconceituosa sobre cada um.

Quanto ao “ilegal”, já existe um amplo movimento para abolir esse termo da abordagem sobre migrações. Campanhas na Europa oferecem alternativas como “imigrante irregular”, “sem documentos” ou “indocumentado”. A Associated Press, uma das mais conhecidas agências de notícias do mundo, desde 2013 recomenda a abolição do termo “ilegal” para se referir às migrações.

#WordsMatter: Campanha de 2014 da PICUM pede o fim do uso do termo “ilegal” em relação às migrações. Na imagem, é possível ver até o pedido em português da campanha.
Crédito: PICUM

Por serem mais novos, ainda não se nota a mesma movimentação em relação aos termos “crise de refugiados” e “crise migratória”. Mas também já é hora de buscar alternativas para ambos, para evitar ainda mais estigmatização e xenofobia contra aqueles que se deslocam pelo mundo, independente do motivo.

Para finalizar, o MigraMundo, que já não utiliza o termo “ilegal” para se referir a qualquer tipo de migração, também está começando a abolir os termos “crise migratória” e “crise de refugiados” de suas publicações, assim como outras expressões e palavras que tragam mais estigmatização do que informação.

 

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