Ele sobreviveu, mas muitos não têm a mesma sorte

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O que você faria se, aos dez anos de idade, se visse abandonado em um país estranho e obrigado a lutar pela própria vida? Foi o que aconteceu com o jovem afegão Enaiatollah Akbari, que teve seu emocionante e envolvente relato transposto pelo jornalista italiano Fabio Geda no livro “Existem Crocodilos no Mar“. A obra virou best-seller, passou mais de um ano na lista dos mais vendidos na Itália e ganhou edições em 31 países, incluindo o Brasil. Está prevista ainda uma adaptação para o cinema.

De etnia Hazara, Enaiat teve de deixar o Afeganistão para fugir da perseguição da milícia Taleban. No Paquistão, em uma atitude extrema de sua mãe, foi deixado em um hotel com a esperança de que, sem ela, o menino tivesse alguma chance de sobreviver. É com esse peso que Enaiat começa uma jornada que passará ainda por Irã, Turquia, Grécia e Itália, onde enfim conseguiu um lar e asilo político. Lá também encontrou o jornalista italiano que se interessou e ouviu sua história, transformando-a em livro.

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O nome da obra faz referência a um dos momentos mais dramáticos da jornada de Enaiat, quando ele e outros quatro garotos tentam atravessar o mar entre a Turquia e a Grécia. Ainda segundo o autor, o titulo foi escolhido para falar sobre medo e infância – tanto os temores do garoto como o fim precoce de uma fase da vida diante do desafio de crescer e sobreviver em ambientes hostis.

Durante os anos seguintes à sua fuga do Paquistão, Enaiat ficou à mercê de traficantes de pessoas, andou no fundo falso de caminhões e dentro de contêineres, passou semanas caminhando em uma cordilheira gelada e enfrentou o mar com apenas um bote. Viu colegas morrerem ao seu lado, dormiu em praças e alojamentos precários, fez trabalhos arriscados e incompatíveis com seu tamanho e idade. Enfim, sofreu com todas as dificuldades às quais um imigrante sem documentos está sujeito – mesmo na Itália, onde conseguiu o asilo, ainda teve de lidar com toda a dificuldade na adaptação a uma cultura e sociedade totalmente diversas da qual nasceu. Apesar desses obstáculos, Enaiat mantém o senso de humor e a esperança de um futuro melhor e de reencontrar sua mãe.

A narrativa é interrompida em certos momentos por intervenções de Geda, que em entrevista aqui no Brasil explica o porquê. “Não queria que os leitores esquecessem que estavam diante de uma história verdadeira. E, se esta história pôde ser revelada, foi porque alguém, neste caso eu, estava lá na frente do Enaiat pedindo: “por favor, me conte sobre sua vida. Estou aqui ouvindo”. É isso que devemos fazer com todas as pessoas a nossa volta, antes de julgar, de cuspir sentenças, de nos deixar cegar por nossos preconceitos. Somente sentar e ouvir.”

O conselho de Fabio Geda e a história de Enaiat devem nos fazer pensar em como enxergamos a questão migratória e as milhões de pessoas que, anualmente, deixam sua terra natal em busca de melhores condições de vida. E também devemos nos lembrar que Enaiat teve sorte e força para encontrar as pessoas corretas para sobreviver e poder contar sua experiência. Mas, diariamente, a história de milhares de outros “Enaiats” não termina com um final feliz.

Livro: Existem Crocodilos no Mar
Autor: Fabio Geda
Editora: Fontanar
Número de páginas: 174
Ano de Lançamento: 2011
Preço: R$ 24

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