Em 2017 e depois, como ir além dos muros físicos e imateriais que desumanizam?

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Fronteira húngara, fortificada em julho de 2015 para restringir novas entradas de refugiados e migrantes. Como resultado, milhares de pessoas estão nas chamadas zonas de trânsito, mais vulneráveis a traficantes de pessoas. Crédito: Bruna Kadletz

Por Bruna Kadletz

A crise dos refugiados continua a ilustrar os principais jornais do mundo e polarizar sociedades.

Ao retratar as notícias mais icônicas de 2016, o International Business Times do Reino Unido selecionou as 100 imagens mais memoráveis do ano. Das imagens selecionadas, certa de 25 fazem referência direta ou indiretamente a crise que vem desafiando os líderes globais e causando muito sofrimento.

As fotos retratam vítimas inocentes de bombardeios na Síria, barcos abarrotados com refugiados fazendo a travessia do Mar Mediterrâneo, e as condições desumanas dos campos de refugiados nas margens da Europa, dentre outras imagens.

O movimento em massa de pessoas é um dos fenômenos globais mais desafiadores da atualidade. A ausência de soluções sustentáveis e humanidade na resposta acarretou na pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

O Global Trends 2015, relatório anual da Agência da ONU para Refugiados (UNHCR/ACNUR), apontou que cerca de 65 milhões de crianças, mulheres e homens foram forçados a abandonar suas casas e buscar refúgio por causa de guerra ou perseguição. Mais de 20 milhões atravessaram fronteiras internacionais, tornando-se refugiados. Ao que tudo indica, com a intensificação da Guerra Síria e ataque Saudita no Iêmen, conflitos no Sudão do Sul, Afeganistão e Iraque, os números do deslocamento forçado em 2016 e 2017 devem permanecer altos.

Líderes globais e organizações internacionais tem falhado na resposta humanitária de pessoas que estão presas em zonas de conflito ou nas rotas do refúgio. Restrições políticas e legais impedem alternativas seguras e regulares. Ausência de opções viáveis aprisiona e destitui milhões de refugiados em campos e favelas urbanas ao redor do mundo. O tempo médio que um refugiado passa em um campo é 17 anos e cerca de 86% dos refugiados vivem em países em desenvolvimento no Oriente Médio e África.

Vista geral do campo de refugiados de Daddab, no Quênia, o maior do mundo.
Crédito: ACNUR

Com dificuldades em obter permissão legal para acessar mercado de trabalho ou ingressar no sistema educacional, não é de se surpreender que milhões arriscam suas vidas em travessias clandestinas e perigosas para pisar em solo europeu e solicitar asilo.

O ano que passou foi o mais mortal já registrado para refugiados e migrantes que tentaram atravessar o Mediterrâneo. Mais de 5 mil perderam suas vidas no grande cemitério submarino.

Mas engana-se quem pensa que a crise é isolada. Apesar dos holofotes focarem no fluxo de pessoas que entraram na Europa, países como a Turquia e Líbano sim estão sobrecarregados. Dos apátridas Rohingya em Myanmar e centros de detenção australianos nas ilhas do Pacífico à fronteira EUA–México e aos maiores campos de refugiados do mundo no Quênia e Etiópia, milhões de pessoas vítimas de guerra, perseguição e violência em massa buscam segurança e refúgio.

Para complicar a situação já vulnerável daqueles que sofrem as dores de serem separados da sua terra-natal e familiares, a narrativa ao redor da crise é extremamente tóxica. Comumente associados a ameaças à segurança nacional, ordem social e empregos locais, refugiados recebem o rótulo de indesejáveis e potenciais terroristas. A linguagem empregada tanto pelos veículos da mídia como por políticos com agenda nacionalista é desumanizadora. Deixamos de enxergar seres humanos para ver a sombra da humanidade naqueles que buscam reconstruir suas vidas.

Mas, diante dos recentes atentados terroristas em Paris, Nice, Bruxelas e Berlim, como não acreditar no discurso polarizado que tende a retratar refugiados e imigrantes como o mal da sociedade?

A dicotomia que vilifica ou santifica refugiados e migrantes é falha. Simplesmente porque essa narrativa desumaniza pessoas, reduzindo e estigmatizando-as como uma coisa ou outra. Após poucos anos de trabalho com refugiados na África, Oriente Médio, Europa e Brasil, o meu primeiro aprendizado é que refugiados são seres humanos complexos e diversos, com diferentes religiões, ideologias, níveis educacionais e personalidades.

O uso de discursos xenofóbicos para ganhar eleitorado, cultivar medo e incitar violência em sociedades, como foi utilizado por Trump e tantos outros líderes de extrema direita europeia e australiana, fragmenta e enfraquece a humanidade. Assim, ficamos presos em outra série de polaridades – eu versus outro, nós versus eles, aliados versus inimigos.

Além, tal discurso descarta as raízes ocidentais nos conflitos no Oriente Médio e África. Entre ocupações territoriais e colonização, intervenções militares e expansão capitalista, poços de petróleo e gás natural, extração de recursos naturais e ampliação da indústria bélica, não podemos desvalorizar o papel fundamental do ocidente na desestabilização e desintegração de redes sociais em regiões que originam refugiados e migrantes.

A crise dos refugiados está situada em um contexto global do qual todos nós fazemos parte, e não meramente isolada da nossa realidade. Ela é um complexo desafio global que precisa ser solucionado em múltiplas dimensões, podendo ser vista como uma oportunidade para cultivarmos tolerância religiosa, construirmos sociedades multiculturais e evoluirmos moralmente.

Toda crise é um indicativo que algo não está funcionado e precisa ser transformado. O mundo globalizado foi estabelecido através da tríade que Dr. Martin Luther King chamou de o mal da sociedade – racismo, materialismo extremo e militarismo. Os valores que sustentam tal tríade funcionam através da manutenção do privilégio de poucos e da dinâmica incluídos—excluídos.

Talvez a crise seja um convite para repensarmos os valores que organizam nossa sociedade global. Talvez essa seja uma reflexão válida para o ano de 2017 que se inicia. E se, ao invés de sermos leais somente aos nossos interesses exclusivos pessoais e nacionais, nós ampliássemos nosso campo de visão para incluir o estigmatizado outro e fossemos leais a humanidade como um todo?

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