Em Ribeirão Preto (SP), festival Tanabata divulga cultura japonesa e promove integração

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Por Lya Doria Maeda

Entre os dias 8 e 10 de agosto, enquanto a cidade de São Paulo se coloria com a festa Eu Amo Bolívia, foi realizado no Morro de São Bento, em Ribeirão Preto, o seu 21º Tanabata Matsuri. A capital nacional do agronegócio relembra a sua população imigrante japonesa e atraiu em torno de 70 mil pessoas nos três dias de festival neste ano, segundo os organizadores. Andando pelo local, facilmente se identifica que a grande maioria dos frequentadores não é integrante da comunidade nikkey, mostrando que a integração da cultura nipo-brasileira se fortalece a cada ano.

Segundo os organizadores, 70 mil pessoas participaram do Tanabata durante os três dias de evento. Crédito: João Camilo de Oliveira
Segundo os organizadores, 70 mil pessoas participaram do Tanabata durante os três dias de evento.
Crédito: João Camilo de Oliveira

O Tanabata, como é conhecido popularmente, tem como base uma lenda amorosa que encanta gerações. Segundo ela, havia uma princesa, Orihine, que morava perto da Via Láctea. Um dia, seu pai lhe apresenta Hikoboshi, acreditando ter encontrado o par perfeito para a moça. A paixão foi fulminante e logo os apaixonados deixaram de cumprir suas tarefas e obrigações devido a este amor tão forte. O pai de Orihine, indignado com a falta de responsabilidade do jovem casal, decide puni-los separando-os em lados opostos da Via Láctea. Porém, deu aos jovens a possibilidade de se encontrarem uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar, condicionando o encontro ao cumprimento de uma ordem sua: atender aos pedidos vindos da Terra.

A partir desta lenda, diversas cidades no Japão e aquelas com grandes colônias japonesas, como São Paulo e Ribeirão Preto, são tomadas por celebrações tradicionais. Nelas, espalham-se diversos ramos de bambu, nos quais são amarrados os tanzakus, tiras coloridas de papel nas quais os frequentadores do festival escrevem suas reivindicações. Ao final do dia/evento, queimam-se todos ramos, pois acredita-se que a fumaça carregará consigo tudo o que lhe foi solicitado, alcançando no céu o casal apaixonado.

Comemoração já tradicional, a data de sua realização foi adiada em Ribeirão devido a Copa do Mundo, porém mesmo sendo realizada em agosto conseguiu atrair um enorme número de interessados, seja em pedir a Orihine e Hikoboshi mais dinheiro no banco e um grande amor, seja para explorar as outras facetas da cultura japonesa.

Ribeirão, uma cidade de migrantes

Nos seus 158 anos de idade, Ribeirão Preto continua a ser uma cidade baseada em migrações. Se no passado seus moradores eram brasileiros de outras partes do país e imigrantes que buscavam a riqueza no plantio de café, hoje a área continua batendo recordes de fluxos populacionais – tendo 10,09 migrantes anuais para cada mil já estabelecidos no período da primeira década do milênio.

A relação entre Ribeirão e imigração japonesa vem desde o começo desta no Brasil. Dos 781 imigrantes que vieram no Kasato Maru (navio cuja chegada é apontada como o marco da imigração japonesa no Brasil, em 1908), 551 se destinaram a região de Ribeirão Preto, para as fazendas cafeeiras que cresciam nos entornos. Porém, como afirma Simara Sgobbi Cauchick, diretora de Atividades Culturais da Secretaria Municipal de Cultura, a situação de semi-escravidão a qual esta população foi submetida e fortes diferenças alimentares fizeram com que muitos fugissem das plantações de café, se dirigindo para diversas outras regiões, como o Cinturão Verde (na Grande São Paulo), a cidade de Curitiba (PR), entre outras.

A comunidade nipo-brasileira presente na cidade, então, apesar de ser numerosa, é bem menor que à época da imigração; porém, sua organização e união a fortalece, inclusive ao gerar um conforto para aqueles nipo-brasileiros que chegam à cidade hoje.

A identificação cultural dos descendentes

Rafael Suzuki, estudante da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto e sansei (neto de japoneses), saiu de Fernandópolis (SP) este ano para virar aluno da Universidade de São Paulo. Para ele, o festival trouxe uma sensação de estar em uma segunda casa. “Participar de um evento da cultura nipônica fora de minha cidade foi muito gratificante e bastante acalentador. Por ser pequena, Fernandópolis realiza eventos pontuais como o Undokai (gincana esportiva), Bon Odori (dança homenageando os antepassados) e jantar japonês ao final do ano para celebrar as superações e rumar a novas conquistas. O meu espanto, porém, foi a grandiosidade do Festival de Tanabata em Ribeirão. Buscando atender as diversas demandas da cultura japonesa, como várias apresentações desde dança, artes marciais, gastronomia, karaokê, oficinas de bonsai, mostras de Oshibana (arte de flores prensadas no papel), de Ikebana (arranjo de flores), entre outras, o evento me trouxe vários tonalidades da aquarela cultural do sol nascente. Seria pouco dizer que sentiria em casa participando e apreciando o evento: tive a sensação de estar acolhido por várias tradições japonesas de uma só vez.”

Enquanto Suzuki apresentava o Kobudô (artes marciais samurais criadas anteriormente à Restauração Meiji no Japão em 1868, como o manejo da Katana e do Bô) no festival, João Camilo de Oliveira, ribeirão-pretano e admirador da cultura nipo-brasileira, aproveitava para passear pelo Morro de São Bento e aproveitar a celebração, a qual ele frequenta anualmente desde 2001. “Ele foi o evento na minha vida que mais me atiçou para a cultura japonesa, pois a partir dele que passei a conhecê-la e a senti-la melhor. Fui encaminhado às artes marciais mais ou menos na mesma época em que comecei a frequentar o Festival. Hoje em dia já não pratico mais o Judô e o Ninjutsu Bujinkan, mas ainda assim me sinto fortemente atraído pela música, arquitetura, animação e costumes japoneses”, diz ele, sobre a importância do Tanabata em sua formação pessoal.

A integração realizada – uma meta para toda a população em geral

Se o festival surgiu e inicialmente cresceu devido à atração da população pela gastronomia japonesa durante a década de 1990 – seja pela sua regras e rituais, seja pelo fato dela ser extremamente saudável –, hoje há muitos outros campos da cultura japonesa abrangidos pelo Tanabata, que chega em sua 21ª edição com renovação das oficinas oferecidas, espaço cosplay e um público de todas as idades.

Dos visitantes, estima-se que 90% não sejam japoneses.  Crédito: João Camilo de Oliveira
Dos visitantes do Tanabata, estima-se que 90% não sejam nipo-brasileiros.
Crédito: João Camilo de Oliveira

João é uma prova de como a integração cultural ajuda na compreensão e valorização das diferenças. Parte dos 90% dos frequentadores que não são nipo-brasileiros, ele dá uma declaração sobre o Tanabata que traduz o impacto que festivais culturais tem no país que recebe imigrantes: “Sempre acreditei que o potencial da integração entre as nações e entre os povos é o de multiplicar a riqueza humana em todos os aspectos: cultural, econômico, sociopolítico, entre outros. Portanto, num mundo globalizado como é este em que hoje vivemos, para mim é de fundamental importância a ocorrência desse tipo de evento que promove um mundo cada vez mais diversificado e rico culturalmente. É uma sensação deliciosa entrar nesse Festival, começar a ouvir suas músicas e respirar a cultura japonesa tão perto de casa!”.

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