Empreendedorismo e apoio a imigrantes no Brasil: conheça a trajetória de Benazira Djoco

Em solo brasileiro desde os 16 anos, Benazira Djoco empreende no ramo da moda, quer impactar ainda mais, mas não esconde a vontade de voltar a sua terra natal num futuro próximo

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Benazira Djoco, que veio ainda jovem de Guiné-Bissau para o Brasil. (Foto: arquivo pessoal)

Por Artur Alvarez, Camila Depane e Gustavo Honório

“Tem coisas que eu faço questão de não lembrar”. Benazira Djoco é e sempre foi uma pessoa muito feliz. Cresceu em uma casa grande e cheia de gente. Mãe, pai, primas e primos. Não faltava nada. Na verdade, sobrava amor. Um amor do tamanho da árvore que ficava de frente para sua casa em Bissau, capital de Guiné-Bissau, e foi parcialmente destruída por uma bomba durante a Guerra de 7 de Junho, ocorrida entre 1998 e 1999. Com dez anos à época, ela não pôde deixar de sofrer com uma guerra civil que arrebatou sua terra natal e é sina de grande parte dos países africanos em algum momento da História. É desse tipo de coisa que ela não faz questão de lembrar.

Uma criança passou meses com fome e sede caminhando de acampamento em acampamento. Até havia um outro lugar no interior do país para sua família se abrigar, mas muitas fronteiras estavam bloqueadas. Os campos de refugiados foram a única saída. Mas esse foi só mais um dos obstáculos que Bena teve de superar.

Findada a guerra, voltou para seu lar e conseguiu ter uma adolescência comum. Ou quase isso, já que era consideravelmente mais alta que seus colegas, o que era motivo de brincadeiras maldosas nas escolas em que passou. Fora isso, sempre manteve o bom humor e alegria de viver.

Chegada ao Brasil

O Brasil encontrou Bena antes de ela encontrar o Brasil. Missionários de uma igreja evangélica brasileira eram vizinhos de frente à sua casa na capital. Apaixonada por literatura, ela foi apresentada, entre outros, à Cecília Meireles, por quem se apegou profundamente. Por meio de suas histórias, pôde conhecer um pouco mais da cultura do país que ficava do outro lado do Atlântico e que já abrigava alguém muito importante em sua vida, o irmão mais velho.

Entre seus 15 e 16 anos, tomou uma das decisões mais importantes de sua vida: iria estudar no Brasil. Obteve todo o apoio de sua família. Foi algo difícil, recebeu o conselho de seus pais para não comer nem beber nada entre sua saída de casa e a chegada na terra do pau-brasil. Não desembarcou direto em seu destino. Antes, fez uma conexão em Lisboa e teve de confrontar o segurança do aeroporto, que a queria encaminhá-la à sala de viajantes que seriam deportados de volta para seus países de origem. Manteve-se firme e seguiu com a determinação de sempre.

Ao chegar no Brasil, foi direto para a casa do irmão, na Paraíba, a única pessoa com quem ela poderia contar naquele novo país. Ficou com ele por alguns anos e foi matriculada em uma escola, o que não foi uma experiência fácil. Sofria racismo das outras crianças, era excluída de atividades em grupo, mas ela não percebia e achava que também era por conta de sua altura. “Que bom que não percebi na época, porque teria crescido uma menina amarga, rebelde, com ódio e traumatizada”. O mesmo conselho sobre alimentação que havia recebido no avião permaneceu em sua vida por mais algum tempo. Não aproveitava a merenda escolar e era sempre fonte de preocupação para a diretora da escola por conta disso.

Após se formar, a jornada pela educação continuou. Ingressou na faculdade de turismo no Instituto de Educação Superior da Paraíba ainda na Paraíba, cursou artes cênicas no Sindicato dos Artistas e fez gestão em marketing, além de diversos outros cursos complementares para enriquecer suas experiências de vida. Mas, “se não colocar os diplomas em prática, não servem pra nada”, enfatizou ela.

Empreendedora e ativista

Além de ser uma louca pelo conhecimento, por entender e atuar em diversos aspectos da sociedade civil, como ONG’s, startups e técnicas de empreendimento, procura contribuir com o social desde a Paraíba, na Central Única das Favelas (CUFA). Sua filosofia de atuação social é “a mentalidade de tentar fazer com que as pessoas empreendam para melhorar de vida, para não ficarem reféns de políticos e incentivos do governo”. A guineense também já foi embaixadora da ONG ‘África do Coração’ – atualmente chamada de ‘Pelo Direito de Migrar’ –, que ampara refugiados africanos imigrantes no Brasil e promove um dos eventos mais importantes para a comunidade, a Copa dos Refugiados, que busca fazer a inserção social e unir os povos “por meio da linguagem universal que a bola tem”.

Bena também criou sua própria marca, a Benazira Djoco Swimwear, que busca, por meio de vestuário de praia, “criar um mundo diferente e sustentável”, além de educar e criar emprego, fomentar o crescimento e a melhoria de comunidades por meio da ajuda a famílias. Ela procura oferecer trabalho para mães-solo, mulheres de famílias numerosas e imigrantes. Ela pensa que pode ensinar as mulheres dessas comunidades a ter a inteligência como base na concepção de seu produto, e, com o tempo, ganhar dinheiro com isso e passar a depender apenas de si mesmo para seu sucesso.

Ela se orgulha muito de seu trabalho social, porque enquanto combate desigualdades, Bena julga que também combate o racismo, já que ambos caminham juntos em nosso país. Atualmente, sua marca tem um escritório próprio, e ela roda o Brasil tentando implementar essa sua filosofia de melhoria de famílias por meio do empreendedorismo.

Além de empreendedora, Benazira Djoco também integra ações de apoio a imigrantes no Brasil. (Foto: arquivo pessoal)

Saudades da terra natal

Bena julga que a maior dificuldade que enfrenta aqui no Brasil é a saudade de sua família. Sempre foi muito apegada à ela. Seu passatempo preferido, além de ler, é conversar com a mãe por vídeo. ”Dar continuidade ao seu crescimento sem o apoio da família é a experiência mais difícil que tenho que passar. Para mim, aquilo [ter os pais por perto] era privilégio . Senti muito essa falta”, lamenta Bena, que amadureceu para a vida adulta aqui no Brasil sem esse amparo da família. “Hoje em dia eu aprendi a conviver com a solidão”. Para conseguir se distrair, ela fez muitos amigos – com o jeito leve de ser que ela tem – e tenta se envolver em muitos espaços: “tira minha vida social e me mata”.

Apesar de tudo que já fez por aqui, Bena planeja seu futuro próximo ampliando seus projetos profissionais e pessoais ainda no Brasil. É grata por quem é hoje em dia, pela saúde que tem e deseja continuar trabalhando para fazer o bem. Mas, também já planeja sua volta para sua terra natal: “Penso que daqui a 6 anos, ou 5, preciso mesmo voltar para Guiné-Bissau para dar a minha contribuição como a filha da Guiné-Bissau que sou. Colocar em prática tudo o que eu aprendi no Brasil e que deu certo”.

Enquanto toca seus projetos atuais e já pensando no futuro, ela está quebrando a cabeça para fazer com que a Guiné tenha startups. Isso porque ficou sabendo de uma cartilha da ONU, mas que só abarca países que também tenham esse tipo de empresa presente no mercado interno. Por isso, ela quer Guiné habilitar seu país a concorrer nessa cartilha para que haja fundos para ajudar jovens guineenses. Também tem planos de construir uma biblioteca comunitária por lá.

Artur Alvarez, Camila Depane e Gustavo Honório são estudantes de Jornalismo da Universidade Mackenzie. A matéria foi publicada a partir de uma parceria do MigraMundo com estudantes de disciplinas na instituição que são ministradas pela professora Patrícia Paixão


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