Entenda como a questão migratória está por trás da crise política na Itália

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Bandeira da Itália, país que vinha adotando uma política linha-dura em relação às migrações. Crédito: Ell Brown/Creative Commons

Popularidade de Salvini por discursos anti-imigração e arquivamento de processo criaram desavenças entre os partidos A Liga e M5Estrelas

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Em pleno verão europeu, o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte anunciou sua renúncia depois que o ministro do interior e vice-premiê, Matteo Salvini, apresentou uma moção de desconfiança contra ele. A renúncia de Conte instaurou uma crise política na Itália que cresceu nos últimos meses devido a diversas desavenças, inclusive a respeito da questão migratória.

Conte e Salvini são de partidos opostos. A Liga, repaginada por Salvini com discursos de extrema-direita, e o partido Movimento 5 Estrelas de Conte mantém seu centro-direita. Ambos se lançaram em uma coligação para conseguir vencer as eleições de 2017.

Após uma semana de negociações com outros partidos, Giuseppe Conte retomou o posto, mas agora com seu partido coligado aos Democratas – e a Liga de Salvini deixou o governo.

Em anúncio oficial na quarta-feira (28), em crítica à política migratória do ministro do Interior, Conte afirmou que o seu novo programa de governo lançaria ”um novo humanitarismo afim de fazer da Itália um país mais justo, mais solidário e mais inclusivo”.

O Mediterrâneo

Com a sua costa Sul próxima do continente africano, a Itália viu desembarcar em suas regiões do sul banhadas pelo Mar Mediterrâneo botes de pessoas fugindo de guerras e instabilidades. De acordo com a Organização Mundial para Migrações (OIM), foram 32.740 pessoas que desembarcaram, via Mediterrâneo, na Itália entre 2016 e 2019.

O ministro do Interior italiano então afirmou que o país havia sido abandonado pelos outros países europeus, que acolhiam poucos migrantes. Salvini ordenou o fechamento de todos os portos italianos.

Desde então, o ministro se tornou implacável em seu discurso contrário aos novos migrantes. ”Eles farão suas malas, porque as férias acabaram”, afirmou Salvini em um discurso em cima de um palanque improvisado. Com tal discurso, o líder da Liga pareceu impor a sua agenda anti-imigração e conquistou grande parte do eleitorado italiano.

”O combustível da crise (entre a Liga de Salvini e o Movimento 5 Estrelas, de Conte) foi o resultado das eleições do Parlamento europeu, que consolidou o vice-premiê como o político mais popular da Itália – seu partido obteve 34% dos votos”, escreveu Lucas Ferraz para a BBC News Brasil.

”O Movimento 5 Estrelas, que tinha sido o mais votado na eleição nacional de março de 2018, caiu no pleito europeu para 17%, ficando atrás do Partido Democrático, de centro-esquerda e em forte crise de identidade”, acrescenta o jornalista.

Os portos continuaram fechados, e os navios humanitários de resgate ficavam à deriva por dias – alguns semanas – esperando permissão para desembarcar os migrantes resgatados no mar em algum país que abrisse sinal verde.

Um desses barcos foi o Deciottti, nos dias 15 e 16 de agosto deste ano – e a recusa de Salvini para acolhê-lo com 177 migrantes aumentou a tensão entre ele e o primeiro-ministro e cabeça do partido de coalizão Movimento 5 Estrelas.

Arquivamento de processo

A procuradoria de Catania (na Sicília, sul da Itália) entrou com processo contra o primeiro-ministro acusando-o de sequestro de pessoas, os 177 migrantes. Mas, após alguns dias, o processo foi arquivado por decisão do Tribunal de Ministros, composto de três magistrados, que pediram ao Senado a permissão de arquivar o processo.

Por ser senador pela região da Calábria, Salvini, com o aval do tribunal de ministros e do Senado, poderia arquivar o processo enquanto estivesse no posto. E foi o que aconteceu.

Porém isso lhe custou os ânimos de 40% dos senadores do partido coligado, o Movimento 5 Estrelas (M5E). Isso porque tal partido tem por base ideológica o repúdio ao que chama de ”desvio político”, ao imunizar figuras políticas de processos judiciais.

À ocasião, muitos senadores se pronunciaram afirmando que a decisão do Senado não estava de acordo com o que eles defendiam. Gregorio De Falco, senador ex-M5E e antigo oficial de segurança, afirmou que Salvini deveria ser processado por ter sequestrado o navio e os imigrantes.

Coligação

Ambicioso, Matteo Salvini concorria às eleições italianas para a base do governo. Para isso, ele não insistia na velha disputa entre Sul e Norte, mas em unir o país no que ele chamou de “Itália contra os estrangeiros” – ou “Itália contra todos”. Assim, ele angariou inúmeros votos, mas não o suficiente para chegar ao poder.

Foi então que Salvini, além de mudar o nome de Liga do Norte para apenas Liga de seu partido, aceitou a coligação com um partido mais moderado, o Movimento 5 Estrelas, o qual lançaria o advogado independente, com um ar professoral, Giuseppe Conte para primeiro-ministro.

Deu certo, até o começo deste mês.

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