Entre impotência, indignação, lutas e esperanças

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Em São Paulo, na Missão Paz, imigrantes dormem no salão da igreja Nossa Senhora da Paz por falta de vagas na Casa do Migrante; não muito distante dali, em Guarulhos, famílias imigrantes (bolivianas, peruanas, paraguaias, entre outras) ficam sem teto após reintegração de posse em terreno da Prefeitura local.

No meio nacional, o Legislativo continua a empurrar com a barriga a tão esperada revisão da lei migratória brasileira, que continua regida pelo retrógrado Estatuto do Estrangeiro (1980), herança da ditadura militar. E no campo internacional, imigrantes continuam a morrer no mar Mediterrâneo, que já ganhou a alcunha de fronteira mais letal do planeta.

Estes são apenas alguns exemplos recentes de notícias negativas envolvendo a questão migratória. Nesse contexto, sentimentos como raiva, indignação e impotência se misturam. É bem provável que você, envolvido ou simpático à temática migratória, já tenha sentido a sensação amarga de que “ninguém se importa” de fato com a questão, de sentir que seus esforços têm sido pequenos diante de tanta demanda e fatores negativos ao redor.

“A messe é grande e os trabalhadores são poucos”, já dizia uma famosa passagem do Evangelho de Mateus (capítulo 9, versículo 37) na Bíblia cristã.

Filas de imigrantes no pátio da Missão Paz são uma cena comum no dia a dia do local. Crédito: Miguel Ahumada
Filas de imigrantes no pátio da Missão Paz são uma cena comum no dia a dia do local.
Crédito: Miguel Ahumada

No entanto, esses sentimentos de indignação e de impotência convivem lado a lado com a luta diária pelo direito humano daqueles que chegam de terras distantes em busca de uma vida melhor. E em meio tantas notícias negativas é preciso buscar alimento nos bons frutos já colhidos e que continuam a crescer mesmo sob essas condições adversas.

Só para citar alguns exemplos recentes: a festa Alasitas, uma das mais tradicionais da comunidade boliviana, atualmente integra o calendário oficial de eventos da cidade de São Paulo, mas há pouco anos atrás era considerada ilegal e já chegou a ser dispersada pela polícia; na questão da acolhida, o centro para imigrantes aberto no ano passado pela Prefeitura já está com lotação máxima, mas também busca ser um espaço de articulação entre os diversos atores da sociedade civil e do poder público envolvidos na questão migratória da cidade; e claro, não se pode esquecer dos diversos momentos de agradecimento promovidos pelos próprios migrantes pela mão estendida nos momentos de necessidade.

Salão do centro de acolhida para imigrantes da Prefeitura de São Paulo ficou pequeno durante encontro promovido pelo Sefras. Crédito: Divulgação/Sefras
Salão do centro de acolhida para imigrantes da Prefeitura de São Paulo ficou pequeno durante encontro promovido pelo Sefras.
Crédito: Divulgação/Sefras

É verdade que os avanços acontecem de maneira mais lenta ou mesmo de forma inesperada em relação à crescente demanda, mas eles existem e precisam ser valorizados e divulgados. A crítica às autoridades pela lentidão na adoção de políticas públicas para a imigração em um contexto mais amplo não invalida – e nem deve invalidar – o que já foi conquistado. Mesmo diante de tantas limitações, essas diferentes formas de estender a mão fazem a diferença para os que se encontram em situação vulnerável.

Essas conquistas, recentes ou não, são suficientes para mostrar que a luz no fim do túnel existe. Cada novo voluntário ou pessoa simpática à questão migratória, que reconhece a migração como um direito humano, funciona como uma injeção de ânimo, como um gole de água que recobra o ânimo daquele que caminha sob sol escaldante.

Discutir e adotar uma nova Lei de Migrações no país, que entenda a migração como um direito humano, é uma necessidade urgente. Crédito: CDHIC
Sonho e direito não possuem fronteiras.
Crédito: CDHIC

Transformar a indignação em força e resistência para manter a caminhada talvez seja uma das grandes lições que momentos de crise ensinam. E essa força e resistência se tornam ainda maiores quando você olha para os lados e percebe que não está sozinho e que outros tantos comungam do mesmo ideal.

A luta deve continuar. E com ela, a esperança de um mundo melhor e de uma sociedade mais justa, com mais pontes e menos muros, que veja também como integrantes aqueles que chegam de longe dispostos a buscar uma nova vida para si e para o próximo.

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