Equipe Olímpica de Refugiados: valorização e símbolo de esperança ou reforço de um estigma?

Presença de uma equipe só de refugiados em Jogos Olímpicos traz à tona um outro debate, sobre a integração dessas pessoas nos países em que foram acolhidas

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A Equipe Olímpica de Refugiados foi a segunda delegação a entrar na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. (Foto: Greg Martin/COI)

Por Luciano Caires Jr.

Pela segunda vez, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos contaram com uma equipe formada inteiramente por refugiados, promovida pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). A iniciativa, lançada na edição disputada no Rio de Janeiro (2016) foi mantida e ampliada para os Jogos deste ano, em Tóquio. Mas além do objetivo de valorizar a população em situação de refúgio no mundo e suas potencialidades, a presença de uma equipe só de refugiados na Olimpíada traz à tona um outro debate, sobre a integração dessas pessoas nos países em que foram acolhidas.

No Brasil, o time olímpico dos refugiados era formado por 10 competidores, número que quase triplicou para a delegação enviada ao Japão – 29 no total. O comitê é formado por uma parceria do ACNUR, o COI (Comitê Olímpico Internacional) e a Fundação Refugiados Olímpicos. A maior parte dos atletas do Comitê (25) foram escolhidos através de um programa do COI. O restante surgiu de um outro projeto da Federação Internacional de Judô.

Já a equipe paralímpica que esteve em Tóquio foi formada por seis atletas – nos Jogos do Rio foram apenas dois competidores. De acordo com o ACNUR, ela representa um total de 12 milhões de pessoas com deficiência que se encontram em situação de deslocamento.

“Nós somos pessoas como qualquer outra, com profissões e talentos. Pessoas que tiveram de fugir de seus países não porque quiseram, mas por causa de uma guerra. Se as outras pessoas refugiadas me enxergarem como exemplo, se todas as demais pessoas perceberem que merecemos oportunidades, meu trabalho está cumprido”, disse a nadadora síria Yusra Mardini, uma das responsáveis por carregar a bandeira da Equipe Olímpica de Refugiados em Tóquio. Ela também esteve presente na Rio-2016 e vive e treina na Alemanha.

A também síria Alia Issa se tornou a primeira mulher a integrar a equipe paralímpica de refugiados. “Eu nunca acreditei que seria a primeira mulher refugiada paralímpica. É uma honra grande estar neste time. Estou um pouco nervosa sobre isso”, admitiu ela, que vive na Grécia.

Qual a mensagem?

Enquanto a equipe de refugiados – tanto nos Jogos Olímpicos ou Paralímpicos – busca sua primeira medalha, surgem alguns questionamentos sobre os pontos positivos e negativos da formação de uma equipe de atletas refugiados. Há quem defina a equipe como um centro de representatividade da população em deslocamento forçado e dos potenciais que possui.  Por outro lado, há especialistas que consideram que um time formado por refugiados reforça o estigma desses indivíduos em uma situação de limbo, sem pertencimento a uma nação – ou seja, sem representar nem o país de origem, nem o de acolhimento.

Pesquisador do Centro de Estudo de Refugiados da Universidade de Oxford e ex-chefe de Desenvolvimento de Políticas e Avaliação do ACNUR, Jeff Crisp é um dos principais envolvidos nessa discussão, e partiu desse pressuposto em uma declaração feita em sua conta pessoal no Twitter:

“Não seria um símbolo de esperança ainda maior para os refugiados em todo o mundo se esses atletas recebessem a cidadania em seu país de refúgio e fossem escolhidos para a seleção nacional?”, reforçou.

Delegado do Congresso de Refugiados de Maryland (EUA), Teklit Michael – nascido na Eritreia – prefere trazer dois contrapontos. Da mesma forma em que ele reforça que ‘ser rotulado como refugiado é ter o resto de sua identidade arrancado de você’, ele conclui que “graças à equipe apátrida do ACNUR nas Olimpíadas, há uma visibilidade crescente do fato de que, com oportunidades, os refugiados podem ser muito mais”.

O Comitê Olímpico Internacional, por sua vez, segue a linha de ‘mensagem de solidariedade resiliência e esperança’ que a equipe de refugiados passa para o restante do mundo, como afirmou o presidente da instituição, Thomas Bach, em entrevista ao próprio portal da organização.

“Esses jovens inspiradores superaram imensos desafios, como o deslocamento forçado e, agora, representam na Olimpíada a esperança e as aspirações das mais de 82 milhões de pessoas que tiveram que deixar seus lares. Vou torcer por eles enquanto competem em suas modalidades e espero que consigam chegar ao pódio”,reforçou Filippo Grandi, alto comissário da ONU para refugiados, em uma mensagem direta à equipe.

Vale ressaltar que a abordagem desigual do COI junto as questões migratórias não se trata de uma discussão recente. Há mais de duas décadas, por exemplo, muito antes de realizar a criação do Comitê de Refugiados, o órgão promove junto a Comissão de Direitos Humanos da ONU a promoção do atletismo em campos de refugiados. Os pedidos de refúgio durante as Olimpíadas, por exemplo, tiveram uma crescente em 1956, com os húngaros. Mesmo sendo tema antigo para os organizadores, o COI não possui até hoje um registro oficial desses pedidos de abrigo, e raramente pune países que de alguma forma obrigam o retorno de atletas após as competições.


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