Esporte e migração: quantos ‘Leais’ não ficam pelo caminho?

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O jogador de vôlei Yoandy Leal Hidalgo, nascido em Cuba e naturalizado brasileiro, em sua primeira foto com a camisa da seleção brasileira de vôlei. (Foto: Divulgação - mai.2019/CBV)

Por Carlos Henrique de Vasconcellos Ribeiro*

O esporte é um espaço particular na sociedade. Sim, eu sei; é particular, mas que mantém as demandas humanas: gênero, classe social e etnia importam, e refletem o que acontece também fora das quadras, piscinas e estádios. Demanda a formação de profissionais especializados em suas distintas áreas de conhecimento e intervenção.

Para formar técnicos e preparadores físicos de alto nível, por exemplo, são necessários investimentos de uma vida para que alcancem sua maturação e melhores resultados. Atletas não tem esse tempo. Atletas precisam aproveitar o melhor de sua maturidade – quer seja em nível biológico, psicológico e social –, para conseguir capitanear suas melhores performances e resultados.

Mas é sobre esses que recaem as maiores restrições sobre seus direitos de circularem pelo mundo, buscando equipes para atuarem.

Assim é o caso de Yoandy Leal. Atleta de alto nível do voleibol, precisou esperar cerca de nove anos em solo brasileiro para conseguir obter o direito de jogar pela seleção de nosso País, e obter o título de campeão do mundo em 2019. 

Não faltaram críticas: O entendimento — errôneo — de que não precisaríamos de um atleta estrangeiro em uma seleção brasileira de vôlei circulou na grande mídia, criando mais interesse sobre sua nacionalidade do que seu rendimento em quadra.

Claro que a questão do nacionalismo é espinhosa. Mas o jogo binário do “nós” contra “eles” no esporte é uma cadeia complexa de interesses comerciais – às vezes justo, mas que não se transforme em impedimento para pessoas exercerem suas profissões, tal como aconteceu com o referido jogador. Pesquisas acadêmicas que conjugam esporte e migração mostram como nossa sociedade pensa, e até onde a questão da meritocracia nesse espaço é cercada de camadas de restrições, entre elas a livre formação de equipes nacionais esportivas, tal como no caso do voleibol.

Refletir sobre temas que conjugam esporte e migração é uma oportunidade de avançar em uma sociedade mais equilibrada, onde o desenvolvimento humano não esbarre em restrições sobre atletas ao redor do mundo, em busca de melhores condições de trabalho, no exercício legítimo de suas profissões, que é curta, cercada de incertezas e percalços.

Quantos “Leais” ficam pelo caminho?

Sobre o autor

Carlos Henrique de Vasconcellos Ribeiro é docente do Mestrado Profissional em Gestão do Trabalho da Universidade Santa Úrsula/RJ e Coordenador do Curso de Bacharelado em Educação Física. Tem publicado dezenas de artigos acadêmicos sobre esporte com interfaces na migração, inclusão social e empreendedorismo


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