Estudantes além das fronteiras

0
39
Estudantes circulam pelo campus da USP, em São Paulo. Universidade é uma das que recebem intercambistas, mas ainda não conta com processo de seleção voltado para refugiados. Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

O Brasil tem recebido cada vez mais alunos do continente africano no ensino superior. As dificuldades enfrentadas por eles não diminuem o sonho do diploma internacional

Por Glória Branco e Géssica Brandino
De São Paulo (SP)

Realizar um intercâmbio estudantil é o sonho de muitos jovens no mundo todo. Há registro de estudantes intercambistas no Brasil desde os anos 70, mas nos últimos anos tem aumentado a presença de estudantes do continente africano no território brasileiro. Desde 2004, iniciativas de programas de ajuda e cooperação entre Brasil e África servem de estímulo para que alunos de países lusófonos (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe) encontrem no país uma oportunidade para imigração e intercâmbio estudantil.  Entretanto, estudantes de outros países africanos também veem no Brasil uma oportunidade de desenvolver estudos e pesquisas científicas, no intuito de uma melhor qualificação profissional e também na troca de informações entre países.

Entre 2010 e 2013, havia em torno de 6.000 alunos africanos estudando em universidades públicas brasileiras. No Censo da Educação Superior de 2015, divulgado em outubro de 2016, mais de 30% dos estudantes estrangeiros matriculados no Brasil eram provenientes do continente africano. O Censo apurou que, das 2.263 matrículas, os angolanos eram maioria. Dos países africanos, Guiné-Bissau vinha na sequência com 931 matrículas.

Estudantes circulam pelo campus da USP, em São Paulo. Universidade é uma das que recebem intercambistas.
Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

Do Senegal para o Brasil

O Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) é uma das ações que melhor exemplificam a união do Brasil com o continente africano. Com mais de cinquenta anos de duração, o programa é administrado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Educação, em parceira com instituições de Ensino Superior. Os cursos de graduação com o maior número de vagas oferecidas no país são Letras, Comunicação Social, Administração, Ciências Biológicas e Pedagogia.

Desde os anos 2000, foram mais de 9,7 mil alunos selecionados, dos quais 76% vieram de países do continente africano, que tem 25 países dentre os 59 participantes do programa. Também é de lá o país com maior número de bolsistas no período: Cabo Verde, de onde já vieram mais de 3 mil bolsistas.

O jovem Maxime Ndecky, 24 anos, veio do Senegal para estudar Relações Internacionais na Universidade de São Paulo. Pesquisando na internet sobre o programa de bolsas de estudo de graduação para estrangeiros, Maxime viu no PEC-G uma chance de viver uma experiência única de aprendizado. Com o apoio dos pais, especialmente da mãe brasileira, decidido a tentar uma bolsa Maxime foi à embaixada do Brasil no Senegal para saber os procedimentos.

Para participar do programa, que seleciona alunos estrangeiros entre 18 e preferencialmente até 23 anos, com ensino médio completo, é preciso provar capacidade de custear as despesas no país durante o período de estudos, ter certificado de conclusão do ensino médio ou curso equivalente e proficiência em língua portuguesa. O exame, Celpe-Bras, substitui o tradicional vestibular. Entretanto, Maxime foi informado que a prova seria aplicada no Rio de Janeiro, em outubro do ano seguinte.  

Era fevereiro de 2013 quando o jovem desembarcou na capital fluminense. Maxime falava poucas palavras em português e tinha como desafio atingir a proficiência em poucos meses. Para isso, iniciou o curso preparatório para o Celpe-Bras e aos poucos foi aprimorando os conhecimentos.

Burocracia, legislação e preconceito

Para os estudantes africanos de países não lusófonos, o idioma pode se tornar um grande entrave na conquista de uma bolsa de estudo. Outra dificuldade encontrada pelos estudantes é a moradia. Nos oito meses que Maxime se preparou para o exame de proficiência em português, morou numa república para estudantes evangélicos no Rio de Janeiro, cuja estadia foi garantida por meio de contato dos pais do estudante, que também o ajudavam com as despesas extras.

No final de 2014, o estudante acessou o sistema de notas e teve a feliz notícia que conseguira a bolsa no curso de graduação que desejava. Mudou-se para São Paulo e, nos primeiros anos de estudo, morou com uma família contatada por sua mãe no bairro da Saúde. Em 2015, com o aumento do custo do aluguel Maxime procurou o núcleo de apoio ao estudante estrangeiro da USP na tentativa de conseguir moradia no CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo). Contudo, como os pais do jovem trabalham de forma autônoma, não tinham como encaminhar os comprovantes de renda exigidos para ter direito à moradia no campus. A solução foi morar com um tio, em Perus, bairro da zona norte de São Paulo, aumentando o tempo em uma hora o tempo de trajeto para o Campus.

Vista do CRUSP, o Conjunto Residencial da USP.
Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

Outra dificuldade é com o sustento mensal. Muitos bolsistas têm dificuldades para trabalhar, já que o visto de estudante no Brasil não permite que os alunos tenham vínculo de trabalho formal por aqui. Além de percalços com moradia e sustento, os estudantes ainda precisam lidar com a discriminação, que não acontece somente fora, mas também dentro do ambiente acadêmico. “As manifestações de racismo dentro das universidades com alunos africanos são uma reprodução do racismo na sociedade brasileira”, afirma José Ailton Rodrigues dos Santos, sociólogo e professor vinculado ao Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Para o sociólogo, o Brasil ainda não resolveu suas próprias questões internas sobre raça e discriminação, e isso se reflete no tratamento oferecido aos estudantes africanos, que é o mesmo tratamento oferecido ao negro brasileiro. “Enquanto o país não fizer as pazes com sua própria negritude, haverá discriminação racial e preconceito”, enfatiza José Ailton.

Nesse contexto, Maxime representa uma exceção, por ser bem acolhido pelos colegas e professores da universidade. O professor José Ailton lembra de ocasiões em que precisou intervir tanto na universidade quanto fora, em abordagem policial, para esclarecer a origem dos alunos e apaziguar situações discriminatórias.

De qualquer forma, Maxime não está insensível ao fato. No Instituto de Relações Internacionais da USP, conheceu o trabalho desenvolvido pelo Coletivo Educar para o Mundo, programa de extensão no qual atuam estudantes do curso de Relações Internacionais e que tem tradição em trabalhar com a temática migratória. Uma das ações do coletivo é atuar junto aos demais estudantes na conscientização sobre migração e contra a xenofobia. Fora do Campus, o estudante sempre se depara com algum conterrâneo na região central de São Paulo, vendendo relógios e outras mercadorias. Por meio desse contato, o estudante percebe as dificuldades enfrentadas no país pelos migrantes.

Para Maxime uma das grandes dificuldades – não somente dele, mas de outros alunos do PEC-G e de outros programas estudantis como a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) – é conseguir acompanhar o conteúdo das aulas. Mesmo falando português, francês, inglês e wolof (um dos idiomas presentes no Senegal), Maxime levou tempo para se familiarizar com o vocabulário do curso. A dificuldade maior foi nas disciplinas de economia e direito internacional, mas não teve nenhuma reprovação.

Em nome de um sonho

Todavia, os desafios possuem um peso menor diante do sonho de estudar em outro país e conseguir o grau de nível superior. É o vislumbre do porvir que faz com que os estudantes africanos não desistam frente às dificuldades. Maxime não se arrepende da escolha que fez e, inclusive, já recomendou o programa para um amigo de Guiné que deseja cursar a universidade no Brasil, assim como ele.

Para o jovem, o aprendizado de um novo idioma foi uma grande conquista. Maxime começou o primeiro estágio no país e pretende continuar no Brasil depois de formado, trabalhando em empresas multinacionais ou em agências internacionais, confiante no país que lhe proporcionou a oportunidade de alcançar os objetivos traçados.

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.