Eventos sobre migrações na internet se preparam contra ataques de ódio; veja dicas de segurança

Em duas semanas, três eventos sobre migrações foram alvo de ataques desse tipo; entidades reforçam a importância de resistir e manter o trabalho diante desses atos

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Ataques anônimos online contra eventos sobre migrações vão se tornando frequentes
Ataques anônimos online contra eventos sobre migrações vão se tornando frequentes e exigem preparação contra tais atos. (Foto: Pixabay)

Manter o trabalho e não retroceder diante de ameaças. Esse foi o sentimento que moveu eventos recentes sobre migrações na internet, diante uma situação que vem se tornando comum em tempos de pandemia: os ataques anônimos no ambiente online, muitos deles com mensagens de ódio contra imigrantes, refugiados, negros, pessoas LGBTQIA+ e demais grupos.

Só durante o mês de junho, em um espaço de duas semanas, três eventos sobre migrações foram alvos de ataques desse gênero. Uma frequência que justifica manter alerta sobre esses atos e buscar meios de se precaver contra tais práticas.

Na última quarta-feira (7) a Cáritas Brasileira Regional Paraná e o Instituto de Políticas Públicas Migratórias (IPPM) promoveram novamente uma formação voltada ao acolhimento de refugiados LGBTQIA+ que era para ter ocorrido em 16 de junho passado. 

O evento naquele dia acabou interrompido por um ataque online no qual foram usadas mensagens de ódio e gritos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, além de apologia ao nazismo. Os organizadores ainda tentaram dar continuidade à formação em uma nova sala, mas o ataque também ocorreu por lá, levando ao encerramento do encontro.

A atividade foi remarcada para uma nova data e enfim ocorreu sem percalços, para alívio de organizadores e participantes. O link de acesso foi compartilhado de forma restrita e medidas adicionais de proteção foram adotadas, como um maior controle de acesso à sala.

“Apesar do ocorrido no evento anterior, não vamos deixar de fazer o trabalho voltado aos migrantes, refugiados e pessoas LGBTQIA+, especialmente se considerarmos o momento de intolerância que vivemos nos dias de hoje.  Vejo que tentaram nos silenciar de alguma forma com o ataque, mas não conseguiram. Saímos mais fortalecidos e dispostos a continuar lutando por espaços e direitos”, resume Isabella Traub, coordenadora do IPPM.

Outros casos

O evento da Cáritas e IPPM não foi o único a ser alvo recente dos ataques de ódio pela internet. Em 25 de junho, quando foi lembrado no Brasil o Dia Nacional do Migrante, um evento sobre a temática promovido pelo governo do Acre e organizações da sociedade civil também foi alvo de um ataque on-line, nos mesmos moldes.

A saída encontrada pelos participantes foi abandonar a sala invadida e criar uma nova, com acesso compartilhado apenas em redes internas. Neste caso, a estratégia funcionou e o evento prosseguiu.

Dias depois, em 30 de junho, um terceiro ataque atingiu uma aula promovida na pela ONG PDMIG – África do Coração, sobre regularização migratória de cubanos e dominicanos.

Enquanto a aula era ministrada pelo advogado Adriano Pistorelo, do Centro de Atendimento ao Migrante de Caxias do Sul (RS), um perfil começou a publicar xingamentos e mensagens de ódio contra imigrantes e pessoas LGBTQI+, além de fotos da suástica nazista e músicas nazifascistas. O perfil que aparece fazendo as ofensas foi o mesmo que surgiu em meio ao evento promovido no dia 25 de junho.

O vídeo da aula foi editado e publicado no canal da PDMIG no YouTube. Com medidas adicionais de segurança, o ciclo de formações foi finalizado na última quinta-feira (8), com uma aula sobre naturalização. Desta vez, sem invasões.

Para Pistorelo, é entristecedor ver quem tem pessoas que pensam dessa forma e defendem questões como a apologia ao nazismo e outras manifestações de ódio. Mas ele reforça que tais casos mostram a importância da atuação em favor dos direitos humanos. “Esse tipo de situação simplesmente mostra que nosso trabalho está no caminho certo e que ele é necessário para fazer frente a esse tipo de ação”.

Dicas de prevenção

Casos como esses que ocorreram ao longo do mês de junho apontam para a necessidade de pensar em ações de segurança para a realização de eventos por meio da internet. O mesmo vale para ações a serem tomadas caso a atividade venha a ser atingida.

As especialistas em segurança digital Cássia Desirè e Karla Gloria Dias de Souza apontam três elementos que tornam os eventos digitais mais vulneráveis a esse tipo de incidente: falhas na autenticação, falta de controle no acesso de usuários e a disseminação não controlada do link de acesso. 

Apesar de muitas plataformas solicitarem ID e senhas, Cássia e Karla apontam que em muitos casos é possível realizar o acesso sem confirmar esses dados no momento do acesso. Por outro lado, as especialistas indicam algumas dicas a serem seguidas para minimizar esses riscos:

  • Antes da realização da live, verificar quais os recursos operacionais estão disponíveis, incluindo recursos humanos;
  • Verificar quais os recursos de segurança estão disponíveis na plataforma e se atende as regulamentações estabelecidas (ex. LGPD);
  • Caso não tenha conhecimento no tema segurança das informações digitais, procure canais especializados no assunto para apoiar na execução.

Caso o ataque ocorra mesmo com essas medidas, Cássia e Karla indicam as seguintes providências:

  • Solicite de imediato o encerramento e finalize a conexão na plataforma de todos os usuários;
  • Assim que possível, realize uma verificação de todos danos causados (vazamento de dados, acessos não autorizado, utilização de dados comprometendo a imagem da empresa ou pessoa entre outros) pelo incidente e realize as tratativas (comunicar o público atingido pelo incidente);
  • Informar as ações que estão sendo tomadas, dependo da atuação da live, e comunicar as autoridades competentes (como Polícias Civil, Federal, Ministério Público, entre outros)

Os três ataques ocorridos contra os eventos sobre migrações em junho já estão sendo investigados pela Polícia Federal, que apura se há alguma ligação entre eles.

As dicas dadas pelas especialistas vão na mesma linha do que recomenda o Google para eventos como esses. A empresa é responsável pela plataforma Meet, usada nos três eventos invadidos. 

“Em caso de alguma eventualidade, o Google Meet está munido de canais que os participantes podem utilizar para reportar problemas e denunciar abusos. É possível informar ao Google o tipo de problema ocorrido, com a possibilidade de inclusão de uma descrição ou de um print da tela. Para registrar um feedback ou uma denúncia, basta clicar no botão “mais opções” dentro da conferência do Google Meet ou na própria sala de espera, e escolher a ação mais adequada”, acrescentou o Google, por meio de sua assessoria de imprensa, depois de procurado pelo MigraMundo.


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