“Existia esperança na Síria, mas a guerra acabou com ela”, afirma fotógrafo sírio refugiado na França

Por causa de seu trabalho como fotojornalista, Mohammad Ahmad era visto como inimigo pelo regime sírio

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De Paris, Mohammad Ahmad, ex-colaborador da agência France Presse falou sobre situação no país e traumas em entrevista ao MigraMundo. (Foto: Arquivo pessoal)

Uma garrafa d’água cai sobre a mesa, molhando o chão do pequeno apartamento na periferia de Paris onde vive Mohammad Ahmad. A água escorre em pingos barulhentos, que também são ouvidos nos encanamentos quebrados de uma cela úmida em uma das dezenas de prisões do regime de Bashar al-Assad na Síria.

Sentado no chão, amarrado em um desses encanamentos, Mohammad olha outro prisioneiro, em pé e nu, meio desacordado – mas ele não o olha de volta. Um bule quente lhe é esmagado nas costas; um grito ecoa na sala vazia repleta de pingos barulhentos e de sombras.

O poster do curta-metragem baseado nas experiências de sírios presos e torturados na Síria (Crédito: Mohhamad Ahmad)

Mal iluminada, a sala revela pouco sobre o que guarda mas o suficiente para ver o corpo de um jovem de barba rala pender a cabeca em direção ao chão. Suas mãos amarradas no teto fazem com o que o corpo inteiro penda, como um ponteiro, de um lado para o outro após ter reagido à queimadura do bule quente.

A câmera corta a imagem; volta-se para o apartamento de Mohammad em Paris. Essa é uma das cenas do curta-metragem “Swing: Memória da morte” do fotojornalista e produtor de vídeo Mohammad Ahmad, refugiado sírio que chegou na França em 2019. Clique aqui para assistir ao curta cedido com exclusividade ao MigraMundo.

Baseado em memórias de amigos e parentes presos pelo regime sírio de Bashar al-Assad, o curta foi premiado na Turquia e hoje é exposto na França em eventos aos quais o sírio participa para informar a população local sobre a guerra síria.

“Nós [sírios] não viemos para a França porque queremos passear, nós estamos aqui porque só há morte e guerra no nosso país”, afirmou Mohammad.

Além dessa produção, Mohammad trabalhou como fotojornalista para agências como a France Presse na Síria e na Turquia, país onde morou após ser preso duas vezes no seu país e ter as duas pernas mutiladas por 1.500 pedaços de bomba estilhaçada durante bombardeio.

Parisienses conferem exposição do fotógrafo sobre a guerra em seu país.
(Crédito: Mohammad Ahmad)

Mohammad aceitou ser entrevistado pelo MigraMundo sobre o seu trabalho, sobre a sua antiga vida na Síria, sobre a sua atual vida na França, além da guerra que perdura em seu país, onde a sua família vive atualmente. Mohammad também cedeu algumas de suas fotos ao MigraMundo.

 “As torturas nas prisoes do regime são muito piores do que as do tempo de Hitler”, afirma. “Existem hoje cinco mil pessoas presas nas cadeias do regime. Eles apagam cigarros no seu corpo, arrancam suas unhas, chegam a cortar as partes íntimas dos homens (…) um amigo que esteve preso testemunhou três pessoas sendo chutadas… eles te chutam até você morrer”, contou o sírio, que também teve o pai preso pelo regime.

Ele mesmo foi preso, não pelo regime, mas por um dos por um dos grupos insurgentes fundamentalistas islâmicos que declararam guerra à al-Assad em novembro de 2013. Por causa de seu trabalho como fotojornalista, ele era visto como inimigo. Ele ficou em uma pequena cela com outros três jornalistas e mais 20 outras pessoas.

Campo de refugiados na Turquia abriga famílias sírias que fugiram da guerra.
(Créditos: Mohammad A.)

Após pagar 3 mil dólares, o fotojornalista foi libertado. Tempos depois, Mohammed teve as pernas atingidas por 1500 estilhaços de bombas, passou por duas cirurgias, sem sucesso. Ele decidiu então deixar a Síria e ir para a Turquia em busca de tratamento médico.

Após dois anos na Turquia, sem conseguir tratamento, ele contactou o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados pedindo ajuda para ir para a França. “Os jornalistas sírios obtem com mais facilidade um visto francês”, explica. Algum tempo depois, Mohammad embarcava para Paris.

Os bombardeios constantes na Síria atingem prédios civis como escola e hospitais. (M.A)

Hoje ele vive em uma pequena cidade de 30 mil habitantes na periferia de Paris. Sozinho e confinado em seu apartamento, Mohammad tem dificuldades de aprender o francês e de procurar trabalho.

“Eu costumava ir a uma associação aqui próxima para conversar e praticar meu francês, mas com o confinamento, não posso mais sair”, afirma ele, que fala sobre a difícil situação de sua família na Síria. “Eles moram na parte ocupada pelo regime. É muito difícil lá.”

Gato repousa perto de uma estrutura de um míssel lançado sobre bairro da capital (M.A)

A guerra

No dia 15 de março, a guerra que eclatou na Síria completou 9 anos. A ONG internacional The Human Rights Watch estima 500 mil mortes e mais de 15 milhões de pessoas deslocadas (interna e externamente) pelo conflito civil entre os grupos insurgentes e as forças do regime de Bashar al-Assad. O conflito comecou em março de 2011 depois que protestos pró-democracia se instalaram no país no fim de 2010 inspirados pela Primavera Árabe.

Síria faz buscas entre escombros após um bombardeamento na Síria (M.A)

Segundo relatório da UNICEF, estima-se que 4.8 milhões de criancas nasceram na Síria durante a guerra. “A guerra na Síria marca hoje na História uma outra década de vergonha”, afirmou Henrietta Fore, diretora-executiva da UNICEF no dia em que a guerra completou 9 anos. “Milhões de criancas estão entrando na sua segunda década de vida cercadas pela guerra, violência, morte e fuga.”

« A situação no meu país é muito muito ruim, nós vemos muito sangue, muitas criancas órfãs nos campos de deslocados. Todos os dias morre gente nos hospitais por causa dos bombardeamentos, pessoas morrem porque são atingidas pelas bombas que são lancadas por aviões”, conta o fotógrafo que, por fotografar a tragédia, a via quotidianamente de bem perto: “Eu gosto de ser fotógrafo mas não nessa situação”, afirma. “Antes, existia muita esperança na Síria, mas a guerra acabou com ela.”

Crianças sírias observam drones ao redor do campo de refugiados na Turquia. (M.A)

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