Feriado nacional e eleições na França fazem Itália rediscutir questão migratória e papel na UE

0
91
Situação de crise na Europa tem levado governos e sociedades a rediscutirem a participação dentro do continente. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Além de celebrar a história, país também debateu seu futuro, de olho nos acontecimentos recentes na Europa

Por Victória Brotto
De Verona (Itália)

No último dia 25, durante o importante feriado nacional do Dia da Libertação, os italianos, que comemoravam 70 anos da libertação do país das forças nazifascistas na Segunda Guerra Mundial, também decidiram debater o futuro – e não só lembrar o passado.  E os vizinhos franceses, que colocaram a ultra-nacionalista Marine Le Pen e o centrista de partido próprio, Emmanuel Macron, no 2º turno das eleições presidenciais, ajudaram a esquentar os debates na Itália, principalmente a temas ligados ao que os europeus chamam de “crise migratória”.

Em 4 de dezembro, a Itália viu seu então primeiro-ministro Matteo Renzi renunciar após ser derrotado em referendo sobre a reforma constitucional. Lançado então em um futuro política incerto, hoje a terceira maior economia da Zona do Euro se vê às voltas com uma provável antecipação das eleições gerais.

Já nas fronteiras, a bota europeia é um dos países que mais vê chegar, em barcos, migrantes do norte da África e Oriente Médio a pedir asilo ou refúgio, por conta das guerras e desastres humanitários em seus países.  De acordo com o último balanço da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), nos últimos dois anos, foram mais de 700 mil migrantes de países com Nigéria, Eritreia, Sudão, Gâmbia, Iraque, Afeganistão e Síria a atravessar o Mar Mediterrâneo em direção à Itália e Grécia.  De acordo com o porta-voz da Organização Internacional de Migrações (OIM), Flávio di Giacomo, em Roma, são 158 mil requerentes de asilo e refugiados vivendo hoje em solo italiano.

Situação de crise na Europa tem levado governos e sociedades a rediscutirem a participação dentro do continente.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em entrevista ao programa televisivo #CartaBianca do canal Rai 3, o ex- primeiro-ministro, Enrico Letta, político de centro-esquerda do Partido Democrático, afirmou que defende “uma integração europeia” como resposta às crises do bloco e que, sobre os migrantes, ele gostaria de viver em “uma Europa com menos cara de Trump”. E acrescentou, “Estou acompanhando de perto o que acontece na França e estou torcendo por Macron”. Letta disse ainda que todas as crises, financeiras e migratórias, só foram superadas devido “à capacidade de união do bloco”. “A resposta não está no Nacionalismo, no fechamento das fronteiras, construção de muros”, disse Letta, criticando a francesa Le Pen e o presidente norte-americano Donald Trump. “Não dá para, diante de problemas, nós simplesmente fecharmos todas as portas e voltar atrás, voltar ao que éramos há 20 anos”, afirmou o italiano.

Citando os fluxos de pessoas que chegam da África e Oriente Médio na costa italiana, o candidato culpou “a América de Bush” pelas guerras na região que fizeram iraquianos, afegãos e sírios  fugirem de seus países. “A crise migratória é filha da América de Bush”, afirmou. “Mas eu sinceramente gostaria de viver numa Europa que não fosse dura como muitas vezes ela tem se mostrado – tanto com europeus quanto com não-europeus. Uma Europa com menos cara de Trump”, finalizou.

Em participação no mesmo programa, ao lado do candidato, a diretora do jornal Il Manifesto, Norma Rangeri,  rebateu Letta e afirmou que o neoliberalismo da década de 1990 produziu também as crises que a Europa vive hoje – e que a Itália, como integrante do bloco, precisa rever muitas posturas, inclusive na questão das fronteiras. “São problemas massivos que a Itália precisa começar a pensar em reformas, reformas desse sistema neoliberal de Europa que já se vê ruir”, afirmou. Segundo Rangeri, a União Europeia como está “não se sustenta mais” – “e nem a Itália dentro dela”.

Durante todo o feriado italiano, dezenas de pessoas foram às ruas em cidades como Firenze, Milão, Veneza e Roma para comemorar a libertação do país das forças nazifascistas. E, em meio às passeatas, viam-se cartazes, faixas e camisetas protestando contra a União Europeia e a favor de um mais forte nacionalismo italiano e outros a favor de uma integração maior das economias e das sociedades do bloco. “Não creio que deva haver qualquer separação nem dentro nem fora da Itália. Em momentos de crise, o nacionalismo sempre encontra um espaço forte, é natural, mas o que temos que entender também é que quanto mais una a Europa for, mais forte será”, disse a diretora Natanhia Zevi, diretora da Comunidade Hebraica di Roma. A Comunidade Hebraica também saiu às ruas em comemoração, lembrando a libertação do povo judeu dos campos nazistas. “Se a Europa tivesse se separado na crise  pós Segunda Guerra, não sei se ela teria conseguido se reerguer como se reergueu”, afirmou Natanhia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.