Filme Iván mostra refugiado de volta à terra natal e vira símbolo da luta contra a apatridia

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Iván Bojko aprendeu a fabricar o instrumento bandura para ficar mais perto da terra natal. Crédito: Divulgação

Por Rodrigo Borges Delfim
Twitter: @rodrigobdelfim

Sobreviver a uma guerra, mas depois virar refugiado e apátrida. Perder o contato com parentes e ter de começar tudo do zero em um outro país. E só depois de décadas voltar a ter uma nacionalidade e poder retornar à terra natal. Parece obra de ficção, mas é a história real do ucraniano Iván Bojko, que vive no Brasil e é contada no documentário “Iván”, que acaba de chegar às salas de cinema do país com a difícil – e necessária – missão de abordar refúgio e apatridia.

O longa é dirigido pelo cineasta Guto Pasko, que já tem outras obras sobre imigração no currículo e conheceu Iván durante a produção de outro documentário, “Made in Ucrânia”, sobre a trajetória dos ucranianos no Paraná.

Parece ficção, mas a trajetória de Iván é uma história real. Crédito: Divulgação
Parece ficção, mas a trajetória de Iván é uma história real.
Crédito: Divulgação

“Após assistir ao Made in Ucrânia em 2006, Iván Bojko me procurou e me entregou os diários da vida dele, dois caderninhos escolares com as memórias de vida, desde a sua infância até a chegada no Brasil. Todos os horrores de guerra que esse cara passou estão ali relatados. Ele me entregou dizendo que não podia morrer com aquilo na sua gaveta, escreveu aqui para deixar para alguém, pois “as pessoas precisam saber o que foi aquilo”, conta Guto. A partir daí, o cineasta concluiu que não havia ninguém melhor para essa tarefa do que o próprio Iván, por meio de um filme.

De prisioneiro a cidadão, décadas de apatridia

Em 1942, Iván foi tirado à força de seu país pelos nazistas para fazer trabalhos forçados na Alemanha, onde permaneceu até 1945. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, não pôde retornar à Ucrânia devido ao regime soviético e veio para Brasil em 1948 como refugiado. Por não ter documentos que comprovassem sua origem, viveu como apátrida no país até 1990, quando finalmente conseguiu a nacionalidade brasileira.

E foi como cidadão brasileiro que ele conseguiu, depois de 68 anos, voltar à Ucrânia em 2010 e visitar o vilarejo onde nasceu. O documentário mostra justamente esse reencontro cheio de emoções e que premia uma vida inteira de perseverança.

“Convivemos com o Iván durante 40 dias e percorrer com ele 5 mil quilômetros Ucrânia adentro atrás do seu passado, foi algo muito forte e transformador”, lembra Guto.

Foi como cidadão brasileiro que Iván voltou à Ucrânia, depois de 68 anos. Crédito: Divulgação
Foi como cidadão brasileiro que Iván voltou à Ucrânia, depois de 68 anos.
Crédito: Divulgação

O longa e a campanha contra a apatridia

Apesar das dificuldades de financiamento que estrangulam grande parte das produções independentes, o filme já ganhou prêmios em diversas mostras de cinema pelo Brasil e no exterior. E recentemente a produção foi adotada pelo escritório brasileiro do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o ACNUR, como um dos símbolos da campanha #IBelong, que visa debater e acabar com a apatridia até 2024 – estimativas da agência apontam que cerca de 10 milhões de pessoas no mundo vivem nessa condição atualmente.

Em um dos depoimentos no documentário, Iván reconhece o valor de ter uma nacionalidade. “O Brasil é uma terra que me deu segurança para o resto de minha vida, inclusive me deram a cidadania brasileira. Hoje sou cidadão brasileiro e espero já naquela terra descansar definitivamente”.

Iván Bojko aprendeu a fabricar o insrumento bandura para ficar mais perto da terra natal. Crédito: Divulgação
Iván Bojko aprendeu a fabricar o intsrumento bandura para ficar mais perto da terra natal.
Crédito: Divulgação

Com a campanha, o ACNUR espera reunir 10 milhões de assinaturas na “carta aberta”, utilizando-a para demonstrar o apoio popular ao fim da apatridia. A Carta Aberta (em português) está disponível neste link.

“Estou muito feliz de contar com esse apoio do ACNUR e espero que o filme realmente toque o coração e mente das pessoas mundo afora. Fazemos filme para isso. E é uma satisfação depois de tanto esforço pra se fazer um filme como esse, perceber que está a pena, que de alguma forma o filme começa a cumprir a sua função” afirma Guto.

O cineasta lembra ainda os conflitos que assolam o mundo atualmente – inclusive a própria Ucrânia de seus antepassados, com cerca de 1,8 milhão de deslocados internos – e as marcas que deixam por gerações. “Tivemos a oportunidade de vivenciar na pele as consequências que as guerras podem causar na vida de uma pessoa, de uma aldeia e de um país todo. Nunca mais serei o mesmo e a cada dia que convivo com o Iván, não tenho dúvidas, que me transformo num ser humano melhor”.

A produção conta ainda com apoio dos Escoteiros do Brasil, que estão com atuando na campanha Escoteiros Pela Ucrânia, para beneficiar crianças refugiadas do país tema do filme.

 

3 COMENTÁRIOS

  1. […] 45 – Ivan (Guto Pasko, Brasil, 2015) Sobreviver a uma guerra, mas depois virar refugiado e apátrida. Perder o contato com parentes e ter de começar tudo do zero em um outro país. E só depois de décadas voltar a ter uma nacionalidade e poder retornar à terra natal. Parece obra de ficção, mas é a história real do ucraniano Iván Bojko, que vive no Brasil e é contada neste documentário, que foi adotado pelo escritório brasileiro do ACNUR como um dos símbolos da campanha #IBelong, que visa debater e acabar com a apatridia até 2024. Saiba mais no MigraMundo. […]

  2. […] 45 – Ivan (Guto Pasko, Brasil, 2015) Sobreviver a uma guerra, mas depois virar refugiado e apátrida. Perder o contato com parentes e ter de começar tudo do zero em um outro país. E só depois de décadas voltar a ter uma nacionalidade e poder retornar à terra natal. Parece obra de ficção, mas é a história real do ucraniano Iván Bojko, que vive no Brasil e é contada neste documentário, que foi adotado pelo escritório brasileiro do ACNUR como um dos símbolos da campanha #IBelong, que visa debater e acabar com a apatridia até 2024. Saiba mais no MigraMundo. […]

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